Oscar Bolão e as experiências bizarras do artista: quase debaixo d’água ou nas bienais de música contemporânea

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E o Bem Blogado volta com mais um eletrizante texto do grande baterista grande Oscar Bolão. Vejam só mais um episódio de como vive e se vira o artista. 
“As artes não são uma maneira de ganhar a vida. Elas são uma maneira muito humana de tornar a vida mais suportável. Praticar uma arte, não importa quão bem ou mal seja, é uma maneira de fazer sua alma crescer. ” (Kurt Vonnegut Jr., escritor)
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Show de Bolão
Bons dias. Na minha vida artística já fiz de tudo, só não fiz sucesso. Acompanhei cantores, toquei em orquestras populares, sinfônicas, fiz música de câmara. Toquei no Carnegie Hall e pra rainha da Dinamarca. Toquei em bares, gafieiras, feiras de gado, prostíbulos e até em campeonato de natação. Essa daí foi o saxofonista Humberto Araújo que armou. Às sete da manhã a bateria já estava montada e, entre uma prova e outra, tocávamos umas musiquinhas. Deus ajuda a quem cedo madruga.  Toquei em bienais de música contemporânea também.
Essas bienais são uma espécie de laboratório pra experiências macabras. Me fazem lembrar de um antigo programa da Rádio Nacional, “Quando os maestros se encontram.” Os músicos da época ironizavam: “Quando os maestros se encontram, os músicos se fodem.”
Tim Rescala – no lado B do LP “Clichê Music”, do qual participei em algumas faixas,  detalha bem-humoradamente o que são essas peças: “Música para bienais”. Tem no Youtube (confiram abaixo).  Vocês vão entender. Ele a apresentou numa bienal, em 1985.
Por se tratar de uma composição que desfila clichês usados por alguns compositores pseudo-eruditos – e sabendo que ia dar confusão – ele pediu pra que fosse a última da noite. Mas a organização a pôs no meio do programa.  Resultado: o que veio depois virou motivo de chacota. Tim entregara os truques e foi vaiado por metade da plateia, certamente por aqueles que vestiram a carapuça.
Toquei uma dessas numa bienal que não me lembro quando. Era um trio: Maria Tereza Madeira no piano, José Freitas no clarinete e eu no inferno.
Da forma como foi escrita, eu precisaria ter quatro braços pra tocá-la e, no ensaio, fui ficando estressado. Não tinha como eu dar jeito e isso é fruto do desconhecimento das sutilezas da percussão por parte de alguns autores.
Quando, histérico, eu já beirava o suicídio, a Maria Tereza vem e me tira a corda do pescoço. Com voz maternal, a Baixa – como a chamo carinhosamente – mansamente me diz: “Bolinha, em bienal de música a gente toca o que a gente quer.”
Ah, é assim?! Então, foi o que fiz. Já no camarim, depois da apresentação, o autor agradeceu muitíssimo o meu desempenho. Acho que ele nem notou. Devia me dar parceria.
Tim Rescala – Clichê Music I

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