Panamá barra Franklin Martins em conexão, o deporta ao Brasil e depois pede desculpas a Lula

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Por Diego Feijó de Abreu, compartilhado da Revista Fórum

Jornalista e ex-ministro relata abordagem por agentes à paisana, interrogatório, coleta de digitais e veto a contato com a Embaixada do Brasil; chanceler panamenho atribuiu episódio a alerta automático da imigração




jornalista Franklin Martins, ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social no segundo governo Lula, foi barrado durante uma conexão no Aeroporto Internacional de Tocumen, no Panamá, impedido de seguir viagem para a Guatemala e deportado de volta ao Brasil. Após a repercussão do caso, o governo panamenho enviou uma carta ao ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, pedindo desculpas pelo episódio.

Em relato divulgado neste domingo (8), Franklin afirmou que deixou o aeroporto do Galeão na madrugada de 6 de março, em voo da Copa Airlines, com destino final à Cidade da Guatemala, onde participaria de um seminário promovido pela iniciativa “Reconstruindo estados de bem-estar social nas Américas”, na Universidade Rafael Landívar. A viagem previa apenas uma conexão no Panamá.

O relato de Franklin Martins

Segundo o ex-ministro, ao desembarcar na Cidade do Panamá, por volta das 6h, foi abordado por dois policiais à paisana no fim do finger de acesso à área internacional do aeroporto. Após entregar o passaporte para verificação, ele foi separado dos demais passageiros e levado para uma área fechada, sem identificação, sob a justificativa de que precisaria passar por uma entrevista.

Franklin relata que, já nessa sala, foi obrigado a preencher um formulário com dados pessoais e informações sobre a viagem, além de responder perguntas sobre eventual prisão anterior. De acordo com seu relato, os agentes fotografaram documentos, tiraram fotos suas e recolheram suas impressões digitais. Ele afirma ainda que os policiais demonstraram interesse particular em sua prisão em 1968, em Ibiúna, durante a ditadura militar.

Ao responder aos questionamentos, Franklin disse que não havia cometido crime, mas sido preso por razões políticas em meio ao regime autoritário. Segundo ele, depois de um período de espera, um segundo agente informou que a decisão já estava tomada: ele não poderia seguir para a Guatemala e seria devolvido ao Brasil no primeiro voo disponível para o Rio de Janeiro.

Ainda conforme o relato, a justificativa apresentada pelas autoridades panamenhas foi a aplicação da Lei de Migração de 2008, segundo a qual pessoas associadas a crimes graves não poderiam entrar no país nem utilizar o território panamenho para conexão internacional. Franklin contestou o enquadramento e afirmou novamente que sua prisão havia ocorrido por motivo político, no contexto da luta contra a ditadura militar no Brasil.

Proibição de contato com Embaixada Brasileira.

O jornalista também relata que pediu para entrar em contato com a Embaixada do Brasil ou, ao menos, fazer uma ligação telefônica para a representação diplomática brasileira, mas a solicitação teria sido negada. Depois disso, ele foi mantido por mais algumas horas sob custódia da imigração panamenha, sendo novamente fotografado e submetido à coleta de impressões digitais, até ser levado ao portão de embarque do voo de volta ao Rio.

Resposta do Panamá

Já neste domingo, o chanceler do Panamá, Javier Eduardo Martínez-Acha Vásquez, enviou uma carta a Mauro Vieira em que pede desculpas ao governo brasileiro pelo ocorrido. No documento, o ministro afirma que Franklin Martins teve a entrada negada devido à “aplicação automática de procedimentos de imigração com base em informações dos sistemas automatizados de alerta” utilizados pelas autoridades panamenhas.

A carta sustenta ainda que o episódio “não reflete, de forma alguma”, a consideração e o respeito do governo do Panamá por Franklin Martins nem por sua trajetória pública como jornalista e ex-ministro nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva. Em seguida, o chanceler apresenta “sinceras desculpas” pelo constrangimento e afirma que o brasileiro será “sempre bem-vindo” ao país.

O texto diplomático também ressalta as relações entre Brasil e Panamá, descritas como excelentes, marcadas por cooperação, diálogo político e amizade entre os dois governos. Na prática, a mensagem funciona como uma tentativa de encerrar o incidente após a repercussão negativa da deportação de um ex-ministro brasileiro em trânsito internacional.

Na parte final de seu relato, Franklin diz não acreditar que tenha sido alvo de perseguição pessoal, mas afirma que o caso parece indicar um padrão mais rígido de controle migratório e de segurança. Ele também levanta um alerta: brasileiros que foram perseguidos e condenados por tribunais da ditadura militar podem enfrentar situações semelhantes ao passar pelo Panamá, ainda que apenas em conexão para outros destinos.

A seguir, a Fórum publica a íntegra do relato de Franklin Martins e da carta enviada pelo governo do Panamá ao Itamaraty.

Declaração de Franklin Martins

 ”No dia 6 de março de 2026, pouco depois da 01:00 h da madrugada, deixei o aeroporto do Galeão a bordo de um avião da Copa Airlines. Meu destino final era a Cidade da Guatemala, onde participaria durante três dias de um seminário promovido pela iniciativa “Reconstruindo estados de bem-estar social nas Américas”, na Universidade Rafael Landívar. No trajeto, faria uma conexão na Cidade do Panamá.
      Lá chegamos por volta das 06:00 da manhã. O voo para a capital da Guatemala deveria sair duas horas e meia depois. Ao desembarcar do avião, no final do “finger” que dava para a entrada da área internacional do aeroporto, dois policiais à paisana pediam aos passageiros seus passaportes, que eram examinados rapidamente e devolvidos. Quando entreguei meu documento, um dos agentes dirigiu-se ao seu colega (provavelmente seu superior) e entregou-lhe o passaporte. Imediatamente o policial pediu-me que o acompanhasse. Perguntei-lhe o motivo. Respondeu apenas que precisava fazer uma entrevista comigo.
      Levou-me até as dependências de uma área fechada, ainda na parte internacional do aeroporto, que não possuía qualquer identificação. Ao chegarmos, pediu que eu me sentasse numa cadeira em frente à mesa e dirigiu-se à sala ao lado. Falou com alguém e voltou em poucos minutos. Os dois ambientes eram separados por uma grande parede de vidro. Através dela, os chefes dos interrogadores e outros policiais, sem serem vistos pelo interrogado, poderiam acompanhar tudo que estava acontecendo e sendo dito na sala ao lado.
      O agente pediu-me que preenchesse um documento com meus dados (nome, profissão, idade, endereço, motivo da viagem, se já tinha sido preso, motivo da prisão etc). Perguntei a razão da entrevista e ele não quis responder. Disse que era um procedimento padrão autorizado pela lei de migração de 2008 e que depois me daria outras informações. E começou a fazer perguntas que, de um modo geral, apenas repetiam o que já estava informado no documento que eu havia preenchido. Pediu-me provas de que eu iria participar de um seminário numa universidade da Guatemala. Mostrei-lhe a programação, que ele fotografou. Tirou fotos minhas também e colheu minhas impressões digitais três vezes.
      Visivelmente, o policial estava querendo ganhar tempo. Deteve-se especialmente no item da minha prisão em 1968, em Ibiúna. Preferi não entrar em detalhes. Respondi apenas que havia sido preso por motivos políticos. O Brasil vivia sob uma ditadura militar e eu havia lutado durante 21 anos contra ela – e isso não era um crime, mas um dever para os democratas. Depois de mais algumas perguntas sem importância, pediu-me que aguardasse. Entrou na sala ao lado, separada da dependência em que estávamos pela grande parede de vidro. E não voltou mais.
      Depois de uns 20 minutos sozinho na sala, preocupado com a possibilidade de perder o voo do Panamá para a Guatemala, que sairia às oito e pouco da manhã, bati na porta várias vezes. Não responderam. Pouco depois, outro policial veio falar comigo. Disse que meu caso tinha sido decidido por seus superiores. Eu não poderia viajar para a Guatemala. Seria deportado de volta para o Brasil no primeiro voo com destino ao Rio de Janeiro. Perguntei-lhe a razão. Ele tampouco explicou claramente. Como seu colega, voltou a falar na Lei de Migração de 2008. Disse que ela determinava que estrangeiros não poderiam entrar no Panamá ou fazer conexões para outros países através do Panamá se tivessem cometido crimes considerados graves, como tráfico de drogas, crimes financeiros, assassinatos, sequestros etc. Mais uma vez afirmei que não havia cometido crime algum, mas lutado contra uma ditadura. E me orgulhava disso.
      Pedi então que eles entrassem em contato com a Embaixada do Brasil ou me permitissem fazer uma ligação telefônica para nossa representação diplomática. O policial respondeu que não fariam isso. Alegou que se tratava de uma decisão soberana e exclusiva das autoridades panamenhas.
      Por volta das 10:00hs da manhã, deixei a sala acompanhado por dois policiais – sem identificação, mas provavelmente integrantes da Policía Nacional – e fui levado para o andar de baixo, sendo confinado numa sala de Migración de Panamá, ao lado dos guichês de controle dos passaportes dos viajantes. Lá fiquei por mais quatro horas sem qualquer explicação. Novamente, fui fotografado de frente e perfil. Colheram por duas vezes minhas impressões digitais.
      Pelo menos, os funcionários da Migración eram mais sociáveis. Permitiram que eu fosse ao banheiro. Autorizaram a compra de um hamburguer na hora do almoço. Ajudaram a recarregar meu celular. E procuraram mostrar simpatia, dando a entender que sabiam que, às vezes, erros eram cometidos com os “retenidos”. Voltaram a falar na Lei de 2008, mas deixaram escapar que sua aplicação havia se tornado mais rígida depois de decretos recentes do governo. Em 2025, os EUA e o Panamá assinaram acordos bastante abrangentes na área da segurança.
      Pouco depois das 14:00hs, outro funcionário da Migración, levando meu passaporte e a passagem da Copa Airlines da Cidade do Panamá para o Rio de Janeiro, acompanhou-me até o portão de embarque. O documento foi entregue à chefe dos comissários de bordo, com a determinação de que só me fosse devolvido no Rio. Ao chegarmos na Cidade Maravilhosa, a aeromoça entregou-o a uma funcionária brasileira da Copa Airlines, que me acompanhou até a sala da Polícia Federal ao lado dos guichês de controle dos passaportes. Em um minuto, recebi de volta o documento.
      Uma observação final: é evidente que não se tratou de uma operação fortuita. Ela foi planejada, provavelmente a partir do cruzamento de informações das bases de dados panamenhas e/ou norte-americanas – a cooperação entre os órgãos de segurança dos dois países é intensa – com os nomes dos passageiros do voo. Não creio que se tratou de uma perseguição à minha pessoa. Devem estar adotando esse procedimento como um padrão. Talvez seja um sinal dos tempos turbulentos que estamos vivendo.
      Será que quem lutou contra a ditadura militar no Brasil e, em algum momento, foi condenado pelos tribunais militares daquela época, não deve ser alertado se for visitar o Panamá ou mesmo fazer uma conexão para outro país? Não seria o caso do governo brasileiro, através de seus representantes diplomáticos, conversar sobre esses abusos com as autoridades panamenhas?”

A Carta do Panamá

“Cidade do Panamá, 8 de março de 2026

Sua Excelência
Mauro Viera

Ministro das Relações Exteriores
República Federativa do Brasil
Brasília, D.F.

Prezado Senhor Ministro:

Saudações cordiais.

Escrevo-lhe em relação ao recente incidente ocorrido no Aeroporto Internacional de Tocumen, envolvendo o cidadão brasileiro Franklin de Souza Martins, que estava em trânsito para a Guatemala e teve sua entrada negada devido à aplicação automática de procedimentos de imigração com base em informações dos sistemas automatizados de alerta utilizados pelas nossas autoridades.

Após analisar o incidente, gostaria de expressar que este evento não reflete, de forma alguma, a consideração e o respeito que o Governo da República do Panamá nutre pelo Sr. de Souza Martins, nem por sua distinta trajetória pública como jornalista e servidor público no Brasil durante os governos do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Permita-me expressar, em nome do Governo Nacional do Panamá, nossas sinceras desculpas pelo inconveniente causado por esta situação, que ocorreu no âmbito da aplicação estritamente administrativa dos procedimentos automáticos de imigração.

Ao mesmo tempo, desejamos transmitir que o Sr. Franklin de Souza Martins será sempre bem-vindo ao Panamá e teremos o prazer de recebê-lo em nosso país em uma data que ele julgar conveniente, em um espírito de respeito, amizade e consideração por sua carreira pessoal e profissional.

Aproveito esta oportunidade para reiterar o profundo apreço do Panamá pela República Federativa do Brasil e por sua distinta liderança diplomática. As relações entre nossos dois países são excelentes, caracterizadas por estreita cooperação, diálogo político fluido e sincera amizade entre nossos governos e entre os presidentes de ambas as nações.

Reiterando os meus mais altos e distintos cumprimentos, envio-lhe minhas mais cordiais saudações.

Javier Eduardo Martínez-Acha Vásquez
Ministro das Relações Exteriores
República do Panamá”

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