Pelas ruas de Bangu, Moça Bonita

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E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, feito GPS, nos leva pelas ruas de um bucólico bairro de Bangu. Local onde mora o nosso amigo Senhor M, que divide seu coração geográfico com Paquetá.

Beija-Flor, 8 de abril de 2026.




Caro editor, talvez morar na Beija-Flor (Nilópolis) faça algum sentido para quem perdeu o pouco pouso que tinha. Eu sou um daqueles sujeitos que, ainda que estacionados, permanecem em sua essência errantes. Eu não sou daqui nem sou marinheiro.


Conheço Bangu por ter muitos amigos por lá. Entre os amigos, o senhor M, que tantos amigos têm na Ilha. Posso lhes dizer que o coração dele traqueja que nem a Casa de Máquinas das nossas tão combalidas Barcas-Rio. Bem, nem tão nossas, porque, se assim o fossem, o serviço seria muito mais humano do que é hoje, posso-lhes garantir.


Pois bem, em certa época eu trabalhava na Cultura Inglesa de Bangu aos sábados à tarde. Tinha um intervalo enorme. O senhor M gentilmente me cedia um lugar na sua casa. De vez em quando, daquele jeito amalucado dele, ele saía e eu ficava sozinho. Tinha disso.


Naquela época os celulares não eram tão confiáveis assim. Acho que só eram para ligar mesmo. Pois bem, certo dia, eu cheguei à casa de senhor M. Ele não estava. Abri uma portinhola, todo mundo sabe que se deve guardar as chaves ou debaixo do capacho ou em portinholas como aquela. Havia uma chave. Usei-a para abrir a porta.


Para minha surpresa, não era aquela a chave que abria a porta. O senhor M não tinha o menor conhecimento daquela chave. Aí foi que eu entendi: a casa estava praticamente “de portas abertas”.


O texto que segue é uma homenagem aos moradores de Bangu, ao bairro onde trabalhei, às suas mumunhas, entranhas e figuras. Paquetá tem um pouco deste subúrbio imaginário. Tem música, tem passarinho, tem o mar, tem amendoeira, tem bicho. Deve ter cristaleira, cinzeiro de cobre, espelhos do tempo do Império, livros da Editora Sabiá e da Codecri, vá saber.


Vamos ao texto.

Moça Bonita, eu passo a pé pelas ruas daí com uma câmera no coração. Passo pelo boteco à sombra das amendoeiras, ai, que vontade de tomar umas Brahmas e cair pelas brumas.

Borá? Não foi em lugares assim que você sorriu com o trocadilho que fiz com seu nome?
Com você no pensamento, a passos firmes, cruzo a pista, sigo em frente esbaforido lá pelas tantas. Contorno a praça, vou pelos cantos, passo pelo campo de futebol, depois pelo CIEP. É como se eu tivesse um GPS nos pés.


Vou bater na rua do canal, vou chegar por cima ao meu destino. Ruas com nome de tantas cidades, ruas com nomes de operários, a velha senhora me sorri na calçada e me pergunta:

“Como vão as crianças?”

“Vão bem, obrigado. E a senhora como vai?”


No quintal da casa dela, por sobre o chão da pista onde se dança, o piso de mil caquinhos. Casa de vó, subúrbio. Não era assim de onde eu vinha sonhando acordado? Os candelabros, os cinzeiros, os cristais dos espelhos, os galinhos do tempo, os pingüins de geladeira, o gato, o cachorro, o passarinho. Um homem ouve seu rádio coçando os bigodes, sozinho.


Eu vou dormir pra quê, hoje é fim de semana, é dia de ir na SuperLar morrer de rir, rir de chorar, levar gato por lebre na promoção.


Eu vou pela sombra, escutando o chiado da casa no vizinho, sentindo o cheiro desse feijão temperado pelas mãos negras de alguém. Rio da Prata. O Guanabara. A mostra da Ostra, a mesa posta, a posta de peixe, uma titica de sal e um calor além do normal.


Eu gosto de bater perna pelo calçadão. Folhear um livro no Sebo onde passarinho toma banho de cumbuca. Beber um engradado como se ainda tivesse fígado pra tanto. E passar o dia seguinte de molho com remela no olho por ter passado do ponto.


Eu gosto dos tijolos do Shopping com seu nome estampado na chaminé, Moça Bonita, porque eu nunca me esqueço de quem me deu amor. De alvirrubro me cubro, cores do clube que latejam. BANGU! BANGU! BANGU!


Na Santa Cecília, a santa música. No Trailer do Rato, Nosferatu. Mesinhas de plástico, gente apinhada na calçada, a moça do salgado, a criançada, o velho da pipoca, a Kombi do Pintinho, os de Bíblia no sovaco, as farmácias do bairro, o futebol e o seu Júlio, um grande irmão. Eu vou levar o engradado e cachaça de rolha pra alguém espremer o limão.

Moça bonita, morena. Moça Bonita, cinema, Moça Bonita, Piscina, Cassino Bangu. Moça Bonita, esquema. Moça Bonita, poema. Moça bonita, meu caroço de angu.

Um afetuoso beijo de quem não pousa.

Do seu Fulô!

Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.

Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019),  Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.

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