Pelos olhos do esquecimento

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Mais um artigo da coluna “A César o que é de Cícero”, do doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista. Desta feita, o autor aborda, com o lirismo de sempre, um mal que tem acometido muitas pessoas, o alzheimer. Texto de filho sobre a mãe que nos leva a Mário Quintana: “Se me esqueceres, só uma coisa, esquece-me bem devagarinho.”

“A senhora Bucco andava mais esquecida do que de costume, foi assim que um certo Bucco processou a notícia a respeito do estado de saúde de sua mãe. A notícia o entristeceu deveras. Ela morava na cidade natal da família e ele, pelas suas contas, não teria dinheiro senão no fim do ano para visitá-la.




Havia muito o que aprender antes que os portais da memória da velha senhora se fechassem por completo. E ele, filho, se sentia na obrigação de registrar tudo que ainda fosse possível. A receita do guisado, por exemplo, quem mais a teria? Era preciso observação para acertar a quantidade certa de especiarias, ter paciência de Jó para acertar o tempo do cozimento, essas coisas. E ela agora, foi assim que lhe chegaram as notícias, estava impedida de cozinhar. Porque houvera casos em que ela, absorta em seus pensamentos, esquecera o gás ligado e ia tratar de coisas mais urgentes.

Que coisas eram essas ninguém ao certo sabia. Porque por vezes, segundo o testemunho de familiares próximos, ela ficava como quem contemplasse o infinito, como quem orasse indizivelmente, mas falar, que era bom, não falava.


Bucco, burro. Como não tinha reparado antes? Não reparou por exemplo que ela perdera a vaidade no últimos anos? Que não penteava mais os longos cabelos lisos nem se preocupava com o fato de havia tempos que eles não estavam sendo mais tingidos com regularidade, que andava de sandálias com os pés trocados, com os vestidos pelo avesso, que isso não era nem poderia se distração?


O seu olhar mudara? Sim, os olhos outrora vibrantes pareciam ter sido silenciados. Porque a senhora Bucco, além de falar pelos cotovelos, era o tipo de gente que falava pelos olhos. Isto era uma das coisas que o filho gostaria de ter preservado dos tempos de antanho.

Ele ainda tenta falar com os olhos com seus filhos, mas ao que parece eles não conseguem mais entender o velho dialeto. Aos poucos, Bucco também foi perdendo algumas palavras, rateando na escolha apropriada das estruturas. E o que é pior, Bucco era um homem seco demais para chorar. Bucco só se dava ao luxo de verter lágrimas quando estava no cinema.


Por um milagre, Bucco conseguiu reunir o dinheiro para a compra da passagem. Era uma história maluca que envolvia o compadecimento de alguns com sua história, o dinheiro de agiotas e uma quase milhar no jogo do bicho. Enfim, o certo é que Bucco tomou um ônibus rumo à velha cidade em viagem que em geral levava cerca de um dia e meio.

Durante o trajeto, Bucco não conseguia se concentrar na paisagem por trás da janela, como era seu costume. A cabeça não se esvaziava de pensamentos, ele não conseguia chegar ao tal do Nirvana, palavra esquisita, muito fora da concretude de seu vocabulário. À noite, Bucco talvez tenha sonhado. Ou ele não tivera a impressão de que ele atravessava um labirinto às escuras?

Em uma parada noturna, ele observou a neblina que encobria as placas verdes. Ele não sabia onde estava, o que não era nada demais. Tratava-se de um ponto no mapa, de alguma cidade de interior do Brasil, com seus desejos abafados, suas crianças perdidas, com banheiros com cheiro de cloro puro. Ao fundo, as siluetas de caminhões. Por ali o progresso deixara rastros.


Chegou à velha cidade com a barba rala espetando um pouco. Era um dia de sol, alguma coisa prometia. Já estava na velha rua. Na velha calçada onde havia um cofre abandonado. Quantas vezes quando menor ele não sonhou em abrir aquele cofre para ver que tesouro estava guardado ali dentro! O cofre não existia mais. E para ser franco, o pobre não tinha mais serventia quando foi defenestrado, indo conhecer o olho da rua. Criança sonha com cada coisa.


Chegou ao número 1706, o da velha casa da infância. Foi recebido por um tio distante que mal o reconheceu. Acharam-no mais forte, isto é, mais gordo. Sair da cidade quando criança dá nisso. Entrou, pôs a mala no chão da sala, foi tomar café. E viu no quarto que sua mãe dormia de boca aberta, com uma das pernas viradas para trás. Era assim que ela dormia, há coisas que a gente não deixa para trás.

Quando ela acordasse, ela se lembrando dele ou não, ele lhe daria o beijo havia tanto tempo guardado. Falariam um pouco com os olhos, decerto, se isso fosse possível. Depois, se mais uma vez fosse possível, ele pentearia os cabelos dela com uma delicadeza que talvez jamais tivesse se dado conta de possuir.

Depois, ficariam a observar o verdimarelo das bananeiras, o chão de areia lavada (aquilo era areia de praia ou não era?) e o passeio de um cágado, bicho que sempre pareceu a ele ter o formato de uma velha bola de futebol pela metade.

O sol ficaria a pino. Faria calor. Viriam as moscas. E ela pediria para voltar ao quarto, tocando de leve em seu braço. Só então ele repararia que o piso de vermelhão foi substituído por um piso que lembra porcelanato. E que havia fios de internet atravessando as paredes da casa.


Para o almoço, a sobrinha fez o guisado a partir de um livro de receitas. Se ficou bom, ela queria saber. Ficou, ele respondeu, combinava com o sabor do suco da fruta de maracujá.


À tarde foram vistos de braços dados e a passos lentos a senhora Bucco e seu filho. Devagar, devagar. Pegaram um táxi. Era dia de consulta médica. O médico não deixou de reparar que os olhinhos da senhorinha estavam mais vibrantes. Em algum momento da entrevista saiu algo assim: Foi ele que fez, foi esse moço aí quem cuida de mim, disse ela. O Bucco ficou na dúvida a quem ela se referia.


À noite, o senhor Bucco e seu tio foram ao cinema. O tio ficou meio sem entender por que um homem feito chorava de soluçar em um filme de caratê.


E o cágado talvez terminasse o seu passeio ao redor do quintal.”

*Bucco, personagem da coluna, é um “Faz tudo”, que vivia em busca de bicos, mas que arrumou agora um emprego fixo. Sempre antenado numa oportunidade, qualquer que pinte, Bucco é um dedicado pai de família.

Sobre o autor

Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.

Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019) e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.

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