Pensar Fanon, uma obra indispensável

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O livro Pensar Fanon, lançado neste ano pela Ubu em comemoração aos cem anos do autor dos clássicos Pele negra, máscaras brancas e Os condenados da terra, oferece um mapa interessante do percurso das ideias fanonianas nos últimos cinquenta anos

Por Douglas Barros, compartilhado de Le Monde Diplomatique Brasil




Uma das maneiras mais sutis de enterrar um pensamento é prestando-lhe supostas homenagens que, em vez de fazer jus à sua expressão, revelam o que nele faltou. Existem certas comemorações nesse sentido que merecem atenção, e quanto maior a influência de um ou de uma pensadora, maior o número de “filhos” que desejam enterrá-los sob a tumba dos sortilégios e condenações. Portanto, é sempre bom refletirmos com atenção sobre as efemérides que movimentam o mercado editorial.

Com ensaios e artigos que vão de Achille Mbembe, passando por Françoise Vergès e Sylvia Wynter, até Deivison Faustino, entretanto, o livro Pensar Fanon – lançado pela editora Ubu (2025) em comemoração aos cem anos de Fanon – escapa do lugar comum organizado por esse tom celebratório. Nele, encontramos um mergulho que nos oferece um mapa bastante interessante do percurso das ideias fanonianas nos últimos cinquenta anos.

Com um sobrevoo pelas diferentes recepções em várias línguas, Pensar Fanon é uma obra indispensável para quem deseja compreender a multiplicidade de temas que o legado fanoniano nos deixou. Desde o pós-estruturalismo – que reduziu o racismo à representação – até a recuperação dialética do pensamento de Fanon, a obra lançada pela editora Ubu tece um panorama instigante que nos permite entender o renascimento do interesse não só por Pele negra, máscaras brancas, mas também por Os condenados da terra.

Crédito: Divulgação

No entanto, o que faz com que tantos intelectuais, mais do que nunca, tragam o pensamento de Fanon para o centro de suas ideias? Se há algum traço em comum nos diversos ensaios presentes em Pensar Fanon, eles se apoiam na ideia de que o colonialismo é algo inscrito além da objetividade social. A estrutura colonial que organizou e regulou a noção de raça, mais do que um fenômeno histórico, é uma forma de produção e reprodução da vida social que impacta de maneira direta o imaginário coletivo.

Talvez seja aqui que resida um traço distintivo de Pensar Fanon: através dela, podemos compreender a permanência das estruturas do ideário colonial, que reproduzem relações assimétricas responsáveis pela desigualdade sócio-racial tão denunciadas por Fanon. Aliás, o renascimento do pensamento fanoniano no século XXI talvez revele a falência de um projeto social moderno, que, entre outros aspectos, legislava sob a ideia de uma possibilidade de harmonia multirracial.

Para compreender, entretanto, o debate interno ao livro, é importante também situá-lo em suas diferentes temporalidades. A edição buscou evidenciar a intensidade das disputas em torno do pensamento de Fanon: desde sua morte, marcada por um texto celebratório de Aimé Césaire, até o clássico – embora equivocado – Recordar Fanon, de Homi Bhabha, passando pela acusação de sexismo feita por Lola Young e por uma tentativa de defesa desalentadora de bell hooks. Nesse percurso, percebe-se uma primeira abordagem do pensamento fanoniano – já após a turbulência das lutas revolucionárias no Terceiro Mundo – no âmbito acadêmico, acompanhada pelas desilusões provocadas pela queda do assim chamado socialismo realmente existente nas décadas de 1980 e 1990.

Nessa recepção, fica claro que há uma tendência de reduzir Fanon às abordagens de seus novos discípulos que o separe das esperanças socialistas que tanto o animaram. Ou seja, muitas vezes, não se privilegia o texto original ou o contexto em que o psiquiatra elaborou suas críticas, mas sim o texto e o contexto de seus seguidores, que assim se autodenominam. Alguns até demonstram um interesse evidente em enterrá-lo nas sombras do século XX, reduzindo-o a um ingênuo humanista que acreditou no universal. Assim, Fanon acaba sendo visto como bhabhiano, sexista e, sobretudo, um pós-estruturalista.

Essa primeira recepção é sucedida em Pensar Fanon por uma abordagem mais fiel ao texto e à postura revolucionária de Fanon, temos seu início com o texto de Françoise Vergés e o encerramento com um ensaio de Deivison Faustino e Nilson Lucas Dias Gabriel. Nesse segundo momento do livro, reforça-se a importância e a centralidade do colonialismo, além de destacar a dimensão contraditória que a raça representa como um significante que estrutura a modernidade. Mais do que isso: esse segundo momento do livro aprofunda a compreensão da síntese que Fanon constrói entre objetividade e subjetividade capturando de maneira instigante a noção de sociogênese.

Essa divisão da obra pode parecer um tanto arbitrária, mas contribui para compreender dois movimentos interligados que têm como foco o mesmo objeto de interesse: Fanon. Ambas as recepções são determinadas pela situação sócio-histórica. Assim, podemos perguntar: por que, hoje, se coloca de maneira fundamental um Fanon cuja reflexão sobre a racialização não se restringe ao negro nem se limita a um problema de identidade negra, mas aponta para uma forma de controle que organiza um imaginário global sobre quem é humano e quem é subumano?

E, assim, tanto Françoise Vergès quanto Sylvia Wynter nos oferecem subterfúgios interessantes para refletir sobre como a identidade em Fanon será pensada a partir de sua contradição e ilusão, que são constitutivamente necessárias e, por isso, produtivas. Ambas fundamentam suas conclusões ao considerar a sociogênese como um elemento fundamental na produção da identidade.

Como dito, a noção de sociogênese será a pedra de toque de toda a segunda parte do livro – um momento em que, ao privilegiar as contradições e as veias inacabadas de Fanon, as autoras e os autores evidenciam a força da dialética fanoniana. Mas o que significa sociogênese? Para Fanon, a subjetividade não se separa da objetividade: trata-se da inscrição das relações materiais que consolidam as formas subjetivas de atuação dos sujeitos. Se o “inconsciente é estruturado como uma linguagem”, como propõe Lacan, Fanon dá mais uma volta no parafuso e demonstra que a própria formação da linguagem está imersa na estrutura socioeconômica historicamente delimitada que estrutura as relações simbólicas e anima o imaginário.

Por isso, além da filogênese (relação na ordem da espécie) e da ontogênese (relação na ordem do indivíduo), Fanon propõe a sociogênese como forma estruturante da subjetividade: processos histórico-culturais incontornáveis que delimitam os contornos da organização subjetiva e, portanto, pressupõem o indivíduo e a sua relação com o mundo.

A neurose, não sendo constitutiva da realidade humana (isto é, algo natural e homogêneo), emerge de construções sociais e de desdobramentos civilizacionais específicos. Assim, se a raça – estruturada pelo colonialismo como forma de controle e de naturalização da violência – se consolida como forma administrativa, para aqueles marcados pela racialização a análise de seus problemas subjetivos decorre também da situação sociocultural. Como, aliás, afirma Vergès: “o encontro com o mundo branco provoca um trauma que está no cerne da psicopatologia do negro” (p.116).

É por esse caminho que Sylvia Wynter vai aproximar de maneira elegante e erudita, a relação da identidade com seus ocasos e suas experiências que constituem a subjetividade pensando na neurociência. A experiência vivida do negro, além de ser uma das peças mais belas do ensaio crítico contemporâneo, é também o núcleo central da compreensão de Fanon sobre aquilo que chamamos de fenomenologia do espírito negro.

Vibrante em seu enredo, oferece-nos uma visualização dos enigmas, limites e fracassos de uma consciência em direção ao conhecimento de si. Fracassos que devem ser compreendidos dialeticamente – ou seja, limites vislumbrados, crenças abandonadas, negação e recomposição do Si, continuidade na trilha da escavação sobre o próprio eu, entre outros. Fracassos, portanto, que constituem a experiência do negro até o encontro com o conhecimento de si.

O acerto fundamental de Fanon é concluir, a partir desses insights notáveis, que a tarefa do conhecimento de si é infindável. Essa impossibilidade de encontrar uma identidade plena entre o Ideal de eu e o eu no indivíduo racializado é, ao mesmo tempo, a condição de possibilidade para colocar em xeque o mundo racializado.

Se eliminamos o obstáculo – isto é, a contradição inerente à noção de raça –perdemos a possibilidade de desnudar relações mais profundas e enraizadas na construção do todo social e seus impactos na formação da subjetiva. É por isso que a verdade da sociedade sob a égide do capitalismo reside naquele que foi negado, no negativo social, ou nas palavras de Deivison Faustino e Nilson Gabriel: o não ser.

Há sempre, contudo, uma distância entre o objeto de desejo e a causa desse desejo. Como o racializado se marca por uma forma de identificação que visa estabilizar e essencializar sua identidade, pensar-se a si mesmo na sua relação situacional torna-se uma obsessão. O elemento – e a mediação – que tornou tal objeto desejável foi precisamente a redução da subjetividade do racializado ao componente racial. Essa identidade é uma construção que joga o sujeito racializado no campo da nadificação: um não ser que é.

E assim o importante, destacado no precioso ensaio de Deivison Faustino e Nilson Gabriel, é a recuperação do arsenal crítico de Fanon e a exposição fundamental de que o não ser atribuído ao racializado não se trata de uma mera desumanização, mas da condição de possibilidade fundamental de advento do novo. Para entender essa fundamental contribuição é preciso pensar como Fanon recebe criticamente a fenomenologia e, nas palavras de ambos, canibaliza as noções de ser e não ser.

O outro – presumindo um mundo não racializado, sartreano ou Merleau-pontyano – é meu igual, devolve à consciência sua certeza de si. No mundo racializado, porém, essa consciência solitária encontra um outro que, em vez de lhe oferecer a possibilidade de autonomia, fixa-lhe a identificação, submete-a, estabiliza-a e, por fim, a reduz a um significante que lhe é alheio – aquilo que, mais adiante, Fanon chamará de complexo inato.

Há, nesse ponto, uma dificuldade central em Fanon: algo contraditório. Pois, ao mesmo tempo que a ontologia se apresenta como algo que não se confunde com a existência, ela parece ser apreendida como sistema de referência epistemológica. Nesse sentido, a Weltanschauung (cosmovisão) da colônia se caracteriza por uma impureza, por taras fetichistas, justamente porque os sistemas referenciais desse Eu racializado estão em curto-circuito: são construídos a partir das perversões e negações do colonizador europeu. O negro será visto como um não ser.

Esse problema evoca algo central na história da filosofia – e Fanon o apresenta sem aviso: o fato de que o sistema de referência epistemológico fornece as coordenadas ontológicas. Tal questão já se evidenciava, por exemplo, em Aristóteles. E, sem levar isso em conta, dificilmente reconheceremos que, a partir dessa constatação, impõe-se a necessidade, por parte do negro, de reconstruir um sistema de referências que implique um conhecimento de si.

É interessante notar como Wynter dialoga com essa perspectiva: “O ponto de partida da investigação de Fanon sobre as bases da experiência vivida do negro pode, assim, ser reconhecido na perspectiva liminar do que significa ser tanto Homem (como sujeito ocidentalizado, escolarizado e de classe média) quanto seu Negro Outro” (p.185). É a partir desse diagnóstico paradoxal que podemos compreender o que se passa em Gaza sob os olhos coniventes do mundo: ao construir o racializado como sub-humano, abrem-se as portas para o seu extermínio.

Quando o olhar colonial invade esse mundo, o descentramento do eu colonizado, seguido pela desestruturação de seu mundo, vai se efetivando rompendo com suas fantasias. A dinâmica dessa perda de si recai de maneira radical sobre o seu corpo e sua cultura. O texto Fanon e a Palestina de Samah Jabr e Elizabeth Berger aprofunda essa perspectiva.

Esse outro (colonizador), que projeta a irredutibilidade do eu (colonizado) aos esquemas pré-fixados pela camisa de força racial, transforma o eu (colonizado) em corpo, reduzindo sua subjetividade ao espaço racial sustentado pela epiderme no caso negro e pela cultura no caso palestino.

O corpo negro adquire dimensão central na reflexão de Fanon sobre a dinâmica da racialização social, porém, isso não elide a abertura para pensar noutros racializados. Ele admite que a racialização, além de aberta e dinâmica – pois regula as relações sociais baseadas na exploração da força de trabalho e estrutura espaços de visibilidade assimétricos no interior da ordem capitalista –, recai também sobre diversos povos, os que mais tarde chamará de condenados da terra.

A especificidade negra, entretanto, reside no fato de que ela se opera no corpo, por meio de demarcadores epidérmicos: marcas que constroem o imaginário geral das sociedades colonizadas. Essa primeira estação fenomenológica podemos chamar de descoberta da negritude: o choque traumático de se ver reduzido a um corpo e a um significante que lhe é estranho, mas que encarna o indivíduo numa nova definição de si e o faz vislumbrar os limites que tais definições racializadas evocam.

Contudo, essa maquinaria de desumanidade, que institui a raça como forma de desumanização do outro, se metamorfoseia e reconstrói a diferença entre grupos humanos como inferioridade. O pensamento de Fanon, nesse caso, ganha contornos vertiginosos para refletir sobre nosso tempo. O mais interessante nessa lição é que esse não ser torna-se, portanto, o limite daquilo que é – e, enquanto negatividade, pode vir a ser tudo. O livro encerra-se com essa mensagem, que precisa ser canibalizada por nós. Pensar Fanon não é apenas situá-lo na recepção de diferentes pensadores em diferentes momentos, mas evidenciar o que há de nós em Fanon – e, se nada somos em tal mundo… sejamos tudo.

Douglas Barros é filósofo e psicanalista. Pós-doutorando em filosofia política na USP, doutor em ética e filosofia política na Unifesp e atualmente membro pesquisador de Implicações das Tecnologias Digitais nos Sistemas de Saúde na FioCruz. Ensaísta, colunista na Revista Cult e na Boitempo.

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