Personagem real de uma vida de luta, Cavalcante lança mais uma obra

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Por Graça Lago, jornalista

CAVALCANTE é um companheiro único, insuperável e incansável em seus 92 anos e mais de 70 de militância. Foi um dos primeiros presos políticos da ditadura de 1964, foi preso por pertencer a ALN, escapou da morte por um triz. Superou as dores e cicatrizes da alma que a tortura impõe, reconstruiu a vida, casou com Helena, a companheira mais do que amada, morou em Paquetá (onde foi um dos líderes contra a ditadura da concessionária das barcas e do governo do estado), voltou para o Rio, vai pras ruas e escreve quase diariamente, alertando para as ameaças do fascismo. É um companheiro querido, gentil e atencioso.




Com vários livros publicados, se prepara para lançar mais um, o primeiro de ficção, “A Vingança”, que, naturalmente, tem como pano de fundo a política.

Será no dia 18 de novembro, na Livraria Estação Cavídeo, Rua Voluntários da Pátria, 35, dentro da Estação NET Rio, ao lado da estação do metrô de Botafogo, e convida a todas e todos. Vamos?

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PARA QUEM NÃO CONHECE O CAVALCANTE, publico abaixo trechos do resumo autobiográfico da sua militância, que pedi a ele para um evento que, infelizmente, acabou não acontecendo

“Eunício Prescilio Cavalcante nasceu em 15 de dezembro de 1932, no sítio de Lagoa D’Antas, distrito de Belém de Caiçara, no estado da Paraíba. O pai, João Precílio, não possuía terras, portanto era um sem-terra. Naqueles tempos não existia o conceito de sem-terra atual. João Precílio praticava uma agricultura de subsistência, em terras arrendadas, pagando foro ao proprietário. Ou produzindo de meia ou terça.

Fui alfabetizado aos oito anos, em casa, pela mãe, com supervisão da avó materna, dona Maria do Rosário. Em pouco tempo, me tornei um leitor obsessivo. Lia tudo o que me caia às mãos. Porém dois tipos de leitura o encantavam: Literatura de cordel e a revista Em Guarda em Defesa da América.

Aos 13 anos, estava quebrando pedras no garimpo de scheelita, na Mina da Quixaba, no município de Santa Luzia do Sabugi, sertão paraibano. Em troca de um salário miserável! Conheci as agruras da vida: seca, pobreza e abandono! A família se dissolveu nas sombras do tempo, como a família retratada por Graciliano Ramos em Vidas Secas.

Aos 16 anos, ingressei na Marinha de Guerra como candidato a aprendiz de marinheiro. Acabou ficando como fuzileiro naval, aos 17 anos. E continuei lendo muito. Mas logo fui advertido: “Olha, isto aqui, a Marinha, não é um bom lugar para pessoas dadas a leituras!”

Não dei bola! Mas, naquela hora, descobri que o militar não tem vida privada. Está sempre vigiado. E não pode ter opinião própria, independente, sobre política, cultura, ou vida social. O bom militar não pensa, pensa que pensa! Esta advertência me abriu os olhos para uma verdade: O livro é a coisa mais subversiva que o homem criou!

Veio 64, o golpe militar. Bati de frente! Fui dos primeiros a serem presos. E enquadrado no Ato Institucional, o primeiro que não teve número. Preso, respondi IPM, Inquérito Policial Militar. Fui posto em liberdade — vigiada, claro! Na data do julgamento, não compareci à auditoria da Marinha e fui condenado.

Sem emprego, sem documentos e sem qualquer possibilidade de sobrevivência no Rio de Janeiro, onde morava. Deixei a família nesta cidade em 1967 e me mudei para São Paulo.

Pretendendo lutar contra a ditadura militar, fiz contato com o companheiro Carlos Marighella e ingressei na ALN, Ação Libertadora Nacional. Fui preso na manhã de 4 de novembro de 69, pela equipe do bandido travestido de delegado, Sérgio Fleury.

A prisão se deu com violência, ao chegar à residência do companheiro Genésio Homem de Oliveira às 9 horas da manhã. Fui cercado por quatro facínoras a serviço do já citado delegado. Um com uma pistola, o cano encostado no meu crânio empurrando a cabeça, um segundo com outra, empurrando a parte externa do tórax e um terceiro pondo as algemas.

O quarto bandido que se chamava Pachequinho, e atendia por “Fininho”, era o matador da quadrilha. Empunhando uma carabina falou debochado: “Este cara é cagado! Eu acionei o gatilho da carabina pra mandá-lo pros infernos, mas a arma falhou!”

É que mesmo naquelas horas a sorte não me abandonou!

Qual a minha justificativa para o que fui fazer àquela hora na casa do Genésio? A estória acertada com ele: “Eu era vendedor de livros…” mas não demorou. (DEPOIS) fui levado à presença do indigitado Fleury, que me perguntou em voz alta: “Cadê o Marighella?!” Ao grito desafiador respondi, olhando para o meliante: “Quem é você?! Se você é macho vai pegá-lo!”

Eu estava de pé algemado. O indigitado pulou dando-me um coice com as duas patas traseiras. Perdi o equilíbrio e caí. Ele e os capangas fizeram a festa! E aquele incidente o tornou ridículo! “Cadê Marighella…?!” “Se você é macho…”

Uma jornalista que também estava presa, a companheira Rose Nogueira, assistiu à cena e depois narrou. Há um vídeo, contendo a narrativa dela e entrevista no livro Marighella, do jornalista Mário Magalhães. Desgraçadamente, naquela noite, 4 de novembro de 1969, o bandido Fleury assassinou o companheiro Carlos Marighella! O impacto entre os companheiros ali presos foi indescritível!

O entrevero com o indigitado Fleury teve consequências. O que se pode dizer é que fiquei marcado para morrer, ou ser morto!

O Fleury não era delegado da Polícia Política, o DEOPS, mas do DEIC, delegacia de captura de bandidos. (…) era um assassino profissional, um matador de bandidos pobres. Foi imposto pelo Exército e a Marinha que ocuparam o terceiro andar do prédio do DEOPS, ao lado da Estação da Luz. Estação ferroviária. Foi imposto pelo Sistema, a ditadura militar.

No fim da tarde, fomos enviados para a carceragem no chamado fundão. Fiquei numa cela onde cabiam muito mal dez presos, ficamos apinhados mais de trinta. No dia seguinte, 5 de novembro, saiu a relação de todos que tinham sido presos no dia anterior. Menos o meu nome, estranho!

Havia muitos jornalistas presos, e tentaram colocar o meu nome nos jornais. Mas nada feito, não havia jeito de os jornais publicarem o meu nome. Alguns me advertiram: “Precílio, a tua situação é preocupante. Não deixam o teu nome sair nos jornais.” E era, pois o preso sem nome é o primeiro passo para ser eliminado!

Queriam porque queriam me ligar à direção da ALN, mas não havia jeito ninguém abria! Ninguém me apontava! O companheiro Genésio, o Rabote, quase morre na tortura, mas não abriu! O companheiro Clóvis de Castro também foi barbaramente torturado para confirmar que me conhecia e que eu fazia parte da direção da ALN, mas nada!

Quinze dias depois, um companheiro de Ribeirão Preto abriu. Logo fui chamado para um interrogatório pesado, tortura com outro nome. Fui levado para a câmara de torturas, algemado e ameaçado! Lá, após gritos, xingamentos e sopapos, arrancaram-me a roupa e fui colocado no pau-de-arara. Era o terror posto em ação contra um preso, submetido e ameaçado!

“Pertence à ALN, é membro da direção da ALN, é terrorista?!”. Esta era a pergunta gritada com insistência! Fiquei naquele inferno por não sei quanto tempo! Saí com muitas marcas de pancadas e escoriações! Mas ainda conseguia andar! aquilo foi o primeiro mergulho no inferno! Outros se sucederam por dias seguidos. E o meu estado físico se deteriorava! Enquanto continuava um preso sem nome, sem identidade!

Levado no dia seguinte para a câmara de torturas enfrentei como uma fera acuada o pau-de-arara, a cadeira do dragão, choques elétricos e não sei que diabo mais!

Nestas horas, eu os enfrentava como quem queria morrer, pois era a melhor saída! Em alguns momentos, eu me lembrava do companheiro Marighella quando me disse: “é melhor morrer no enfrentamento com a repressão do que ir para a câmara de torturas”. Isto é uma verdade, pensava!

(…)

Havia um companheiro médico na cela, o Dr. Davi, que também me atendia. Mas o Mengele da prisão me medicava para aguentar mais torturas.

(…) E afirmo: “… ninguém, nenhum ser humano, pode ser torturado. Um torturador jamais deverá ser torturado. Os nazistas não foram torturados. O caminho deles foi o Tribunal de Nuremberg. Foi a forca. E esse é o exemplo que deve ser apontado aos torturadores!”

Desistiram de torturar o preso sem nome. E partiram para a etapa final, a eliminação! Uma tarde um policial abriu a cela e determinou: “Arruma tudo que é teu, cara, que você vai sair agora!” Pra onde ele vai?! gritou o companheiro Genésio. “Não sei”, respondeu o policial.

Fui algemado e levado para um salão, esperar não sabia o que?! Enquanto isto todas as celas começaram a gritar em altos brados protestando: “Para onde vão levar o companheiro?!”

Com aquela gritaria o delegado Fábio Lessa, chefe geral do DEOPS, desceu e veio saber o que ou de que, os presos estavam protestando. Pediu calma e deu garantias ao pessoal de que iria resolver o problema.

Eu, por minha vez, não sabia de nada do que estava acontecendo. Mas, através de um vidro muito grande e claro, eu estava vendo a rua. E via que ali estavam alguns carros e um guarda civil armado com uma carabina.

É quando chega o delegado Fábio Lessa ao meu encontro. Vermelho, nervoso, fumando muito, me perguntou: “Precílio, você tem filhos?!” Respondi, sim, tenho quatro filhos duas meninas e dois meninos, e disse a idade deles!

Ele, em seguida, me apontou o indicador e disse: “Eu juro pela honra das minhas filhas, eu tenho duas filhas. Eu vou fazer todo o possível e o impossível para lhe entregar hoje à Marinha. Venha cá!”

Eu o acompanhei. Chegamos a uma grande sala onde se encontrava um grupo de delegados, uns vinte. E o Fleury estava lá no meio. O delegado Fábio Lessa falou em voz alta para todos ouvirem: “Fleury, você vai ao Rio agora, e leva o Precílio lá para a Marinha. Eu acabei de falar com o comandante Roberto no CENIMAR!”

O Fleury respondeu, visivelmente contrariado: “está certo”. Notei, pelo vidro, que o dispositivo que estava se armando lá fora se desfez. Fui levado algemado para o fuscão do Fleury e sentado no banco de traz. Veio um policial e sentou ao lado do indigitado delegado, no banco do carona.

Cumprimentou-me com um sorriso e um “boa tarde, Precílio!” E nos deslocamos rumo ao Rio de Janeiro. Chegamos ao Rio às 18 horas. Era o dia 18 de dezembro. Nos dirigimos ao prédio do antigo ministério da Marinha, onde ficava o CENIMAR.

No CENIMAR, o policial que veio de São Paulo, me tirando as algemas e se despedindo de mim, disse: “Precílio eu vou retirar essas algemas de você. E gostaria que fosse a última vez na vida que você usasse algemas! Mas daqui você irá para a Ilha das Flores, onde receberá a visita dos seus familiares!”

Retirou as algemas, e apertou a minha mão, despedindo-se de mim! Aí, eu descobri que aquele policial era o meu anjo da guarda, enviado pelo delegado Fábio Lessa para evitar que o bandido Fleury me desse um fim!

Termino este relato com muita tristeza e emoção!

Eunício Precílio Cavalcante. Rio de Janeiro, 23 de janeiro de 2024“

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ADENDO

1. Com a anistia, Cavalcante foi reformado como Capitão de mar e guerra do Corpo de Fuzileiros Navais. É pesquisador da História militar.

2. Tiago Prata, o nosso Pratinha, é neto do grande Cavalcante

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