E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, nos leva a uma gelada. Sim, o frio tem sido tão grande que o nosso cronista levou uma família de pinguim para passear na Ilha de Paquetá. Entre nesta fria:
Os Pingulinos gostavam de viajar para lugares exóticos nas férias de verão. Dona Pingulina (Pode me chamar de “Pin”, my dear!) queria conhecer o Brasil. Seu Pingulino, a quem Pin chamava carinhosamente de “Dot”, era incapaz de não realizar os desejos de sua amada. Brasil, Brasil, era o destino.
Brasil, um país exótico? Para os Pingulinos, que vinham de um frio de rachar, era exótico, sim, senhor. Como não? Bem, sem mais delongas, digamos que o casal deixou o iglu e partiu rumo ao país do Carnaval.
Eles aproveitaram que as correntes marinhas estavam favoráveis e foram seguindo a badalação da costa brasileira. Passaram pelos mares gelados de Santa Catarina até a região de Cabo Frio, no estado do Rio de Janeiro. Tudo muito bonito e tal, mas sem a pegada de exótico que procuravam.
É, cá entre nós, viagem como uma aprendizagem já era. Aquilo era turismo, business. Eles eram vistos como uns pingüins de classe média, com o seu trema, que a depender da estação, veraneiam em países cuja moeda está mais desvalorizada. E eram tratados como tal, com a regalia que um bom cartão de crédito pode proporcionar.
Foi quando do nada, por um mero lance do acaso, foram parar em Paquetá. Ali se fartaram. Pin não se cansou de tirar fotos a bordo dos pedalinhos. Poses e mais poses, meu Deus, quanta alegria.
Dot fez amizades com as gaivotas, que são, segundo a aproximação de muitos, uns pingüins acrescidos de asas de voar. Rapaz, Dot pensou em comprar tarrafa e tudo. As gaivotas elogiaram a destreza da pesca submarina do visitante. A força da amizade estava dando as caras.
O casal mal conteve as lágrimas enquanto observaram a grande chama do amor que saía da Refinaria. Parodiando Pessoa, “Ah mar salgado, quando do teu sal, são lágrimas de zero grau?”
Depois de umas Brahmas e de umas Antárticas (que eles inclusive preferiam devido à sugestão do rótulo), a gente começa a abrir as asas para a poesia. E o que para gente era um frio de bater queixo, um frio de ficar em casa, um frio de atacar a sinusite e a artrite, um frio de tomar vinho ou cachaça, de botar ponche e beber chimarrão, para eles nada mais era que uma temperatura amena, primaveril, própria para o romance de aventuras.
Dava gosto de ver os dois pingüins feito dois pombinhos dando rolé pela ilha de Ecotáxi. O que é isso? É um hotel? Nossa, que árvore linda. Aqui é rota de avião? Aqui, se você não se apressar, o sorvete derrete. O Parque Darke dá um não sei o quê na gente, uma vontade de bancar o Fred Astaire, sei lá.
Você por acaso tem uma do pingüim aí, meu amigo? Eu sou pingüim, não sou pinguço. Estamos de férias. Depois a gente volta para aquela vida cinza com cara de poucos amigos, isto é, com cara de leão marinho. Onde fica o Bar do Zaru?
Não sabemos como, mas Pin arrumou sandálias Havaianas, talvez no mercado negro, para as patinhas que lembram nadadeiras dela. Ficou uma gracinha. Ficou mais local. Dot comprou uns cartões-portais e pechinchou à beça para levar um pingüim de geladeira que estava desde que o mundo era um só (isto é, antes do surgimento do Estreito de Behring) em cima da geladeira azul bebê do seu Manoel. Valeu a pena. Foi um feito e tanto. Era quase um pingüim barroco ou coisa do tipo.
Os pinguinhos de gente foram na casa do senhor W e da senhora C (a famosa Casa Branca de Paquetá), onde se encantaram com a inteligência do “cãopanheiro” Açaí. E claro, a vista dos fundos da casa que dá para a Baía quase arromba a retina de quem a vê, e os Pingulinos não eram cegos. Vamos tirar uma foto na capela? E no coreto? Bora! Que beleza! E as pegadas na areia?
Em um momento de fé e de reflexão, o casal visitou o cemitério dos passarinhos. Não quiseram ficar muito tempo por lá, porque afinal de contas estavam de férias. Mas pode-se perceber o instante silencioso, respeitoso: “A vida é essa casquinha fina do ovo mesmo, essa concha do mar. A sede dos peixes. O que vai ser de mim?“, era o que eles pareciam dizer.
Afora isso, foi na Casa de Artes e na Casinha Amarela, casas e restaurantes, samba de mesa à vontade, luar no sertão e ventania. Bateram pernas e patas mesmo, eu não lhes disse que eram aventureiros?
Pin ficou maluca com o violão do Guinga, deu até crises de ciúme no pobre do Dot, que não sabia tocar nem realejo. Fazer o quê? Uns nascem pingüins; e Guinga nasceu um só.
Ao término de uma semana, os Pingulinos se foram um tanto saudosos. Bye Bye! Voltem logo. Boa viagem.
Ficaram olhando para as barcas, para ver se valia a pena o passeio. Vai quê, né? Um passeio de barca já é uma grande diversão. Quem resiste a uma Casa de Máquinas cheirando a óleo diesel? Dá até para fazer rap. Só que as barcas atrasaram tanto que os Pingulinos decidiram ir ao sabor das correntes mesmo. Era muito mais rápido.
Paquetá tem disso.
Foto do post não é de Paquetá, mas sim do senhor João, pescador que ficou amigo de um pinguim na Ilha Grande. A história virou fime com o grande ator francês Jean Reno. Veja a história abaixo.







