Por Palas Atena
Não entendam como defesa de Luiz Datena; é um ser abjeto. Mas andei pesquisando sobre a polêmica contratação dele para apresentar programa na EBC. Então vamos lá contextualizar.
Repito: não estou defendendo Datena, estou procurando entender as razões para tal ação, fora das idealizações jornalísticas.
Vocês devem ter percebido que a plutocracia midiática e política escolheu a pauta eleitoral de 2026: a segurança pública. Independente de isso ser ou não uma demanda da população, é esse tema que está sendo martelado como crucial para as escolhas nas urnas. É a estratégia para fragilizar as candidaturas do campo progressista.
Está sendo montando todo um esquema discursivo, midiático e cênico (operações policiais espetaculosas, como a chacina no RJ), que mantém a falsa “polarização” extrema-direita versus campo progressista, em que a primeira domina a segurança pública e o segundo é a favor de bandidos, dos “direitos dos manos”.
Até jornalistas e comentaristas do nosso campo têm caído nessa falácia de dizer que a extrema-direita sabe responder pela segurança pública, enquanto a esquerda não teria plataformas sobre isso.
Predomina o discurso punitivista, de criminalizar os de sempre (pobres e pretos) como os grandes bandidos, enquanto a plutocracia, os Daniel Vorcaros da vida seguem protegidos.
A extrema-direita sabe fazer bem o discurso do populismo penal, vender a mentira de que combate o crime, quando, na verdade, adota iniciativas de proteger os criminosos de alto escalão (vide o papel de Derrite no PL Antifacção) enquando extermina os pobres, periféricos (vide o “sucesso” da chacina do serial killer Cláudio Castro).
O governo Lula resolveu enfrentar esse tema a fim de evitar que ele fosse completamente capturado pela extrema-direita e sua barbárie. A proposta do governo é ir na jugular do crime organizado, pegando os cabeças e drenando a grana dessas organizações.
Quem está encabeçando isso é a PF de Andrei Rodrigues, o ministro da Fazenda de Fernando Haddad, com a Receita Federal, COAF e Banco Central atuando juntos. Esse grupo coordenou três operações relevantíssimas que atingiram em cheio a cúpula do crime.
A Carbono Oculto pegou a lavagem de dinheiro das organizações criminosas nas fintechs da Faria Lima. A Operação Poço de Lobato atingiu o maior sonegador do país, Ricardo Magro, dono grupo Refit, que tem refinaria de Manguinhos (RJ), empresa usada pelo crime organizado para adulteração e tráfico de combustíveis.
A PF descobriu que essa refinaria não refina nenhuma gota de combustível, faz lavagem de dinheiro de grupos como CV e PCC. E sonega. São R$26 bilhões em sonegação de impostos, desde a importação de combustíveis via portos (a PF apreendeu três navios com milhões de litros de combustível traficado pela Refit) até a hora em que vende o produto em postos de gasolina, sob comando do crime organizado. Hoje a adulteração e venda de combustíves rende mais ao crime organizado do que as drogas.
A terceira operação é a que prendeu o dono do Banco Master, também envolvido em lavagem de dinheiro do crime organizado, fraude de R$12 bilhões com títulos de previdência privada de servidores. Uma patranha que envolve políticos, mercado financeiro, membros do judiciário.
Só essas três operações, mais aquela do rombo das Lojas Americanas, significaram R$ 133 bilhões, entre sonegação, evasão de divisas, roubo, lavagem de dinheiro.
Há, portanto, duas linhas opostas de políticas de segurança pública em disputa: uma da barbárie de chacinas, truculência polícial, que gera espetacularização midiática e alimenta o imaginário popular de que bandido é o pobre, preto, favelado, traficante de piso e/ou aquele que rouba celular, correntinha; outra é a que visa atingir o crime organizado, infiltrado nas instituições, que causa rombos de bilhões e alimenta o domínio das organizações criminosas nas comunidades pobres, nos presídios e nas instituições do Estado.
E o que Datena tem a ver com isso? Pelo que vi, a ideia é ter um perfil que fala ao imaginário da população que acredita no combate à criminalidade por meio da violência policial, chacinas e afins. Datena está há décadas nesse mundo cão, tem a “credibilidade” para falar de “combate à violência” com o grande público, de uma maneira que ele entende.
Mas o mais importante: Datena conhece as entranhas da segurança pública e da criminalidade de São Paulo. Tarcínico vai apostar no tema segurança pública em sua plataforma eleitoral, vendendo a mentira de que combateu o crime em São Paulo e é o mais preparado para “acabar com a violência” no estado (se for candidato à reeleição ou no país, se for candidato à Presidência).
O discurso truculento dele e da extrema-direita tem apelo, tanto que, após a chacina, Claudio Castro saltou para o primeiro lugar nas intenções de voto ao Senado. Prometeu mais chacinas porque, infelizmente, isso rende votos. Esse discurso fácil de “mata e esfola” tem grande capilaridade.
A esquerda, por sua vez, sofre com a pecha de “defesa dos manos”. O PT é visto como “partido dos bandidos”. Fernando Haddad é um lorde para falar de combate ao crime, não tem apelo popular.
A contratação de Datena seria, assim, uma espécie de “vacina” contra a estratégia eleitoral da extrema-direita de se vender como aquela que combate a criminalidade. Por meio dele, vai se desconstruir o discurso dos tarcínicos da vida e passar a visão de que o crime se combate atingindo a cúpula.
Em Datena, essa estratégia de mostrar que a extrema-direita mente e o campo progressista combate, sim, a criminalidade tem muito mais chance de ser bem-sucedida. Ele está no imaginário popular como aquele que denúncia os criminosos, está do lado do combate aos “vagabundos, bandidos”.
Repito, não estou defendendo Datena. Estou dizendo o que li sobre as razões (ocultas) dessa estratégia de usar alguém que ressoa no imaginário popular no combate à violência urbana. Ele será o contraponto à jogada da extrema-direita de se arvorar como aquela que entregará ao eleitor a segurança pública que ele deseja.
Outro movimento de “vacina” adotado pelo governo Lula é pôr os EUA na roda. Hoje assisti a uma entrevista de Fernando Haddad. E ele contou que a embaixada dos EUA já está atrás do governo para ter acesso às investigações sobre os donos de offshore que lavam dinheiro do crime organizado nos EUA. Ele falou que logo depois da conversa de Lula com Cheetos sobre o tema, o governo brasileiro já foi procurado pela embaixada.
Riicardo Magro, Daniel Vorcaro, só para citar os dois mais em destaque ultimamente, têm empresas e imóveis em Miami, onde lavam o dinheiro sonegado aqui e do crime organizado. Possivelmente eles entrarão na mira do FBI e o equivalente à Receita Federal dos EUA, a partir dessa parceria com o Brasil.
Os emocionados virão dizer que o governo Lula está sendo ingênuo em se aliar ao governo Cheetos para combater o crime organizado, afinal, o próprio governo de lá é uma organização criminosa. Amigos, tem uma máxima na política: se quiser combater o inimigo, tenha-o por perto.
Assim como Datena, a parceria proposta pelo governo Lula é uma medida preventiva contra um ataque dos EUA ao Brasil. Cheetos já anunciou que vai intervir em qualquer país que ele julgue que é aliado do narcotráfico. Está fazendo ameaças a México, Colômbia, Honduras, ataques à Venezuela. Mas a joia da coroa é o Brasil.
Ao se aproximar de Cheetos, Lula trabalha com a contenção de danos, principalmente para 2026, quando a extrema-direita das big techs, do crime organizado e dos EUA (a ala mais radicalizada de lá) virá com tudo para interferir nas eleições daqui, ajudando a eleger o projeto encabeçado pela extrema-direita de Tarcínico, Valdemar, Micheque e pelo quadrilhão (Ciro Nojeira e Antônio Ruedas estão envolvidos com o crime organizado).
Enfim, amigos, o movimento do governo Lula é pragmático. Além de ter uma proximidade pessoal com Datena, o propósito é ter alguém com popularidade, penetração e diálogo com o imaginário do populismo penal que, infelizmente, comanda as escolhas da população quando o tema é combate à criminalidade.
Isso não significa que o governo vá por esse caminho de mata e esfola. O que ele quer é ter alguém que a população reconheça como do lado do combate ao crime para dizer a ela que a extrema-direita mente e não é matando pobres que se faz segurança pública.
O governo está transitando na zona cinzenta do apelo midiático, que a extrema-direita sempre usou para impor seu discurso de barbárie. Vai dar certo? Não sei. Só sei que a gente precisa ter os pés mais no chão e perceber que precisaremos de muitas armas para barrar a extrema direita em 2026.
Portanto, não estamos falando em valorizar o verdadeiro jornalismo, mas de adotar uma estratégia para conter o avanço da extrema-direita em 2026.







