Por que a masculinidade só encontra seu melhor em espaços exclusivos para homens?

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Movimentos cristãos popularizados entre celebridades cobram milhares de reais e prometem que adeptos vão encontrar sua versão aprimorada subindo montanhas

Por Júlia Pessôa, compartilhado de Projeto Colabora




na foto: Escalada voltada só para público masculino no sul do Brasil: Por que a masculinidade só encontra seu melhor em espaços exclusivos para homens? (Foto: Reprodução Facebook)

Embora as consequências sejam, na maioria das vezes, trágicas, muitas vezes também acho graça do quão frágil é a masculinidade. Não pode tomar drink colorido. Não pode ganhar menos que a mulher. Não pode não saber de futebol. Não pode chorar, não pode ver novela, não pode ser vaidoso, não pode, não pode, não pode… Óbvio que poder, pode, mas existe uma ignorância coletiva que tenta afirmar que tudo isso e tantas outras besteiras fazem de alguém “menos homem”. Como se isso fosse um demérito, aliás.

Para além das violências e atrocidades, sobre as quais não quero falar hoje, ao longo da história, homens fizeram e fazem as maiores patacoadas buscando afirmar a tal da masculinidade – na verdade mais frágil que bolha de sabão em ventania. Vexames políticos da história recente escancaram o fato, como marmanjos fantasiados de vikings invadindo um capitólio e o presidente de um país, em pronunciamento, entoando a palavra de ordem (?) “imbrochável” repetidamente, para o constrangimento de qualquer pessoa com sanidade.

No rol de bobagens da virilidade, sempre me chamou atenção uma em particular, a necessidade de entrar em contato com o “meio do mato”, com a vida “selvagem”, com as aventuras de um lugar potencialmente inóspito para encontrar uma verdade maior sobre si. Está em clássicos da literatura estadunidense como Raymond Williams e Ernest Hemingway; está no aclamado “Na natureza selvagem”, uma ode ao privilégio masculino e branco de escolher ser burro; está nos movimentos cristãos atuais que levam grupos de homens a subir montanhas, numa escalada, claro, só para “bróders”, a partir da quantia módica de R$ 450, e que podem ultrapassar R$ 81 mil.

Nada contra o cristianismo ou o montanhismo em particular, mas por que é que só é possível acessar Deus ou a masculinidade junto a outros homens, em isolamento de mulheres e da vida cotidiana? Quais são as chances de homens empobrecidos encontrarem a melhor versão de si se ela está no alto de uma montanha, mediante pagamento de aproximadamente um salário mínimo? Por que é que é tão difícil entender que disparates como esse buscam afirmar só padrões que subjugam mulheres, pessoas LGBTQIAPN+, homens pretos e pobres? O que é que tem no alto da montanha capaz de fazer melhores esses homens, que não poderia acontecer em sociedade?

É fácil entender a satisfação e o efeito (até químico mesmo) de completar uma grande tarefa física como escalar uma montanha, ainda mais compartilhando a experiência com um grupo. Mas qual é a relação disso com Deus, a masculinidade e a necessidade absoluta da distância das mulheres e crianças?

Uma coisa dessas jamais colaria com mulheres, mesmo aquelas comprometidas em se aliar ao patriarcado. A feminilidade, queiramos ou não, nos encontra, não precisa ser buscada. Ela nos acha mesmo que desejemos escapar do risco constante de existir neste mundo sendo mulher: no transporte público, no trabalho, na próxima esquina, na igreja, na escola, e, não raramente, em casa. “Não se nasce mulher, torna-se”, e vive-se um pouco mais com medo a cada dia por isso, e por sua vez, um pouco mais mulher, um círculo vicioso.

Ao fim e ao cabo, a feminilidade não precisa ir até o meio do mato para ser encontrada: o mundo inteiro é o nosso “Na Natureza Selvagem”, com um perigo a cada passo, não raramente, como disse, à espreita até mesmo dentro de nossas casas. Até porque, como a canção popular versa como se fosse a coisa mais banal do universo, sabemos o que aconteceu com Maria Chiquinha quando foi, enfim, pro mato. Foi decapitada e estuprada. Por quem? Genaro, seu “bem”.

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