Flávio Bolsonaro (PL) anunciou, se eleito, a privatização de 95% das estatais e empresas públicas e deixou categoria bancária em alerta
Compartilhado de Bancários Rio
As privatizações de diversos bancos públicos, como o Banerj (RJ), o Banespa (SP), o Bemge (MG) e o Meridional (RS), entre outros, no final da década de 1990 e em 2000, serviram apenas para extinguir instituições voltadas para o desenvolvimento da economia destes estados, com crédito especial voltado à população e aos pequenos e médios empresários. A entrega destes bancos ao setor privado serviu para tornar mais ricos os compradores.
O processo de privatizações, não apenas dos bancos estaduais, mas de outras grandes estatais dos estados, era parte de um alegado plano de ajuste fiscal, instituído pelo governo Fernando Henrique Cardoso, do qual fazia parte a privatização também de estatais federais, como a Vale do Rio Doce e a Telebrás. O argumento era o de reduzir a dívida pública. O que não deu certo. A ameaça de privatizações dos bancos púbicos e das demais estatais voltou a ser assunto importante nesta eleição. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, defende o fortalecimento destas empresas públicas, entre elas o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, o BNDES e a Petrobrás, como forma de fortalecer a economia e avançar no processo de autonomia econômica do Brasil.
De outro lado, o candidato Flávio Bolsonaro, já disse querer privatizar 95% das estatais, mas passou, em seguida, a negar a privatização da Petrobras e dos bancos públicos. A coordenadora de economia da campanha, Daniela Marques, no entanto, defendeu a criação de um comitê gestor para avaliar a ‘entrega de ativos ao setor privado”.
Banerj – demissões em massa
O diretor do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro, Ronald Carvalhosa, lembrou que a privatização do Banerj foi devastadora para a economia e a população do estado e para os bancários demitidos em massa e que perderam direitos previdenciários. “No processo de preparação da privatização, durante a gestão terceirizada do Banco Bozzano Simonsen, em 1996, foram mais de 3 mil demissões. Liquidaram a Previ-Banerj (fundo de previdência). A liquidação afetou direitos dos ativos e aposentados. Muita gente sacou recursos que tinha no fundo e até hoje não tem uma complementação da aposentadoria”, contou. A privatização aconteceu em 26 de junho de 1997. Eram 12 mil funcionários no início; quando o Itaú assumiu eram 6 mil. Ronald ressaltou que foi uma privatização a preço de banana. “O Banerj foi privatizado por R$ 311 milhões em moedas podres, com valor de mercado 50% menor. Só que o Banerj tinha R$ 70 milhões em caixa. E, pouco tempo depois de assumir o banco do estado, o Itaú transferiu para o seu caixa R$ 1,5 bilhão que estavam no caixa do banco do estado”, afirmou. Perderam o estado do Rio, que ficou sem o seu principal instrumento de política financeira; os servidores estaduais cujos salários eram muitas vezes pagos quando o governo atrasava; os clientes em geral, que tinham no Banerj taxas e tarifas muitos menores; fora os bancários que perderam os empregos e muitos a própria vida; ou que, adoeceram, ou tiveram casamentos desfeitos. “Conheço, ainda, muita gente do Banerj que nunca mais recuperou o seu padrão de vida”, disse.
Meridional
O também diretor do Sindicato, Adão Pires, falou sobre o processo de privatização do Meridional. Passou também pela gestão terceirizada do Bozzano Simonsen, que preparou a sua entrega. “O Meridional tinha aproximadamente 25 mil funcionários. Quando foi passado para o Bozzano, tinha 12 mil. E quando privatizado, em 1997, sendo entregue ao Santander, tinha 6 mil. Foi um processo traumático”, disse.
Bemge
Outro estadual privatizado foi o Banco do Estado de Minas Gerais (Bemge), entregue ao Itaú, em 1998. Em 1994 tinha 489 agências e 235 postos de atendimento. Em 1997 eram 472 agências. Os bancários passaram de 11.012 para 7.104 no mesmo período, como parte da preparação da venda. “Foi muito doloroso para os funcionários. Privatizar não é positivo para ninguém”, avaliou a diretora do Sindicato e ex-bancária do Bemge, Jô Araújo.
Também ex-funcionária do Bemge, Adriana Nalesso, presidenta da Federa-RJ, citou como impacto da privatização para a economia o risco da desassistência bancária em municípios pequenos, já que o comprador privado não tem interesse em manter agências no interior ou de menor renda, o que força a população a migrar impactando o comércio e economia dessas localidades.
“Outro fator é a perda de um instrumento de política anticíclica. Em momentos de crise econômica regional, um banco público pode atuar concedendo crédito a juros baixos para manter o consumo e o emprego. A privatização retira do governo do estado essa ferramenta direta de intervenção econômica”, afirmou.
Banespa
Já o Banco do Estado de São Paulo, o Banespa, foi privatizado em 2000 e entregue ao Santander. A instituição tinha mais de 37 mil funcionários, chegando, após a venda, a cerca de 5 mil. Houve ainda impactos sobre o plano de Saúde (Cabesp) e o Banesprev (fundo de previdência). O ex-diretor do Sindicato, Fernando de Andrade, lembrou que foi um processo doloroso para os funcionários, com muitos colegas adoecendo.
“Isso ocorria porque tínhamos a certeza de que ficaríamos até querermos sair do Banespa. Nunca passou pela nossa cabeça que a privatização fosse acontecer com todas as consequências graves que teve para nossas vidas”, lamentou.







