Por Pragmatismo Político
Um menino de 3 anos foi ameaçado de “levar tiro” por uma professora de uma escola militar do Rio Grande do Sul. O caso só foi descoberto porque a mãe colocou um gravador na mochila da criança. A Escola Tio Chico é mantida pela Brigada Militar do Rio Grande do Sul e atende gratuitamente filhos de policiais com idades entre 2 e 6 anos.
No início, após o período comum de adaptação, o menino parecia integrado e começou a fazer amigos. Contudo, sinais de alerta começaram a surgir esporadicamente e foram escalando de forma preocupante.
As primeiras suspeitas da mãe surgiram quando o menino passou a apresentar hematomas e assaduras graves sem qualquer justificativa ou notificação por parte dos funcionários. Em uma das ocasiões, a criança chegou em casa com uma mordida severa no braço. “Perguntei se ele não avisou à professora e ele disse que não, que ela estava ocupada cuidando de outros coleguinhas e por isso ele não quis falar”, relatou a mãe da criança.
Em outros episódios, o menino voltou para casa com febre alta e, em outra data, com uma assadura tão grave que apresentava dificuldades para caminhar. De acordo com a mãe, a instituição demonstrou total desconhecimento ou negligência em relação a todos os incidentes. “Essas situações pequenas iam acontecendo e parecia que ninguém estava vendo”.
Paralelamente, o comportamento do pequeno mudou drasticamente. Ele começou a acordar de madrugada chorando, perguntando em pânico se precisaria ir à escola no dia seguinte. Diante da resposta positiva, passava as manhãs calado, sem energia para brincar. O choro tornava-se compulsivo à medida que se aproximava do colégio. No ambiente doméstico, o menino passou a pedir desculpas excessivas por qualquer pequeno deslize, como derrubar um copo d’água, e relatava com frequência que “ficava de castigo”.
O estopim para a investigação por conta própria ocorreu no dia em que o menino entrou pelo corredor da escola aos berros, sendo arrastado por funcionários sem que a mãe pudesse acompanhá-lo. No dia seguinte, ela escondeu o gravador na mochila do filho.
Ao retornar da aula naquele dia, Pedro estava quase sem voz. A mãe inicialmente pensou que se tratava de um resfriado, mas o choque veio ao dar o ‘play’ nos arquivos de áudio. “Aí foi um choque”, relembrou. Na gravação, fica evidente que a rouquidão era resultado de quase 40 minutos de choro ininterrupto. O menino pedia pela mãe e por sua chupeta, sendo completamente ignorado e “escanteado” pelos adultos responsáveis.
Os trechos revelam uma postura de hostilidade e violência psicológica por parte da professora. Em um momento em que a criança é impedida de realizar uma atividade e pede desculpas, a profissional responde com rispidez: “Não, tu não vais pintar mais, acabou. Eu adoro pintar e vou”. Quando o menino chora e clama pela mãe, ela rebate: “Não me vem com mamãe”.
O trecho mais alarmante capturado pelo aparelho, no entanto, registra uma ameaça direta contra a integridade física da criança de 3 anos: “Chora, pode chorar, chora bastante, chora com vontade. Senão vou te dar um tiro.”
Os pais encaminharam formalmente uma denúncia à Corregedoria da Brigada Militar. Apesar da fartura de provas, a corregedoria se posicionou em defesa do arquivamento do caso, fruto do corporativismo que toma conta da Polícia Militar.
A família agora busca que o Ministério Público estadual avance com uma investigação independente na esfera civil/comum, por meio de um inquérito civil que está aberto na promotoria.
“Aquelas gravações todas são de um único dia, de um único dia, um recorte. O que me assombra muito, porque com frequência a gente se questiona: o que mais ele passou?”, questiona a mãe.
Atualmente, o menino estuda em uma escola da rede particular, onde apresenta melhora, interage com novos colegas e tenta reestabelecer uma rotina saudável. Contudo, o trauma deixou marcas profundas e gatilhos psicológicos que persistem no cotidiano da criança.







