Profissionais relatam precariedade contra coronavírus no SUS: “Paciente fica exposto, e nós também”

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Por Joana Oliveira, compartilhado de El País – 

Com escassez de máscaras e até racionamento de álcool em gel, situação de trabalhadores da rede pública é diferente dos hospitais privados de referência em São Paulo

O corredor de uma UTI na cidade de Brescia, na Itália.
O corredor de uma UTI na cidade de Brescia, na Itália.CLAUDIO FURLAN/LAPRESSE / AP (AP)

“Está tudo bem errado. A gente não consegue notificar os casos suspeitos, é tudo subnotificado. Os médicos vão começar a se contaminar agora, porque não há isolamento real nas unidades e não temos proteção de fato. O paciente fica exposto, e nós também”. O relato é de Suzana (nome fictício), uma clínica geral que atua em duas Unidades de Assistência Médica Ambulatorial (AMA) no SUS de São Paulo em meio à pandemia de coronavírus. Como outros médicos e enfermeiros ouvidos pelo EL PAÍS, ela, que prefere manter o anonimato, reclama da falta de cuidado com a saúde desses profissionais, principalmente na rede pública. Suzana está há quatro dias afastada do trabalho e tentando fazer o teste do coronavírus, o que parece ser uma missão impossível, apesar de ser uma profissional da área. “Internei um paciente com a Covid-19 e comecei a sentir sintomas leves. Recebi atestado e fui para casa, mas não fiz o exame. Sequer fui notificada como caso suspeito”, conta ela.

A médica recorreu ao plano de saúde privado para fazer o teste, mas, mesmo explicando que trabalha em pronto-socorro, não conseguiu. “Só estão testando pacientes internados e em estado grave. Também procurei o SUS e, na hora da notificação, que é quando se autoriza o teste, o sistema não funcionou. Isso tem acontecido rotineiramente”, lamenta. Suzana conta que, nas unidades em que trabalha, os profissionais da saúde higienizam as mãos e o material de trabalho, incluindo os estetoscópios, mas isso não é suficiente para prevenir o contágio. “Ninguém tem proteção suficiente e não há um protocolo a ser seguido. O paciente, quando chega, tem contato com todo mundo. Põe a máscara e se higieniza, mas deveria ficar em uma sala de isolamento total, o que não acontece. Nossos jalecos, por exemplo, ficam contaminados. Aquelas roupas de astronauta que vemos nas reportagens em outros países não existem aqui. Eu mesma já tive que comprar máscara N95 do meu próprio bolso”, relata, referindo-se à máscara de proteção que tem um filtro de ar que bloqueia pelo menos 95% das partículas em suspensão e ajuda na proteção contra doenças de transmissão aérea, como a Covid-19.

Júlia (nome fictício), outra médica clínica geral que também conversou com a reportagem em condição de anonimato, relatou uma situação semelhante nas unidades de pronto-socorro em que atua, tanto na rede pública quanto privada de São Paulo. “Existe a tentativa de cuidar dos profissionais, mas com o esgotamento de materiais, de máscaras, por exemplo, alguns hospitais estão restringindo o uso desses equipamentos por parte das equipes de enfermagem. Há um problema de compra de material”, conta ela, que trabalha em um hospital particular onde houve o óbito de um paciente com suspeita de coronavírus. Eles ainda não têm o resultado. “Essa situação assustou um pouco a equipe, mas ainda não tem um clima de medo generalizado, não”, diz.




O cansaço, coincidem as médicas, é maior que o medo. Com os pronto-socorros lotados, as unidades da rede pública em que trabalham, que geralmente funcionam de segunda a sábado, farão plantões de 15 horas de duração, de segunda a domingo. “Estamos muito cansadas. Todo mundo que está resfriado, gripado, quer ir, achando que é coronavírus. A pessoa fica gripada hoje, não tem febre nem nada e já vai para o atendimento… Isso que é o pior, porque nos sobrecarrega demais e acaba atrapalhando o atendimento de quem realmente precisa”, explica Júlia.

Nesta quinta-feira, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou que o protocolo para o SUS nos postos de saúde inclui isolamento em salas amplas, com janelas, e estimulou que pessoas com quadros de gripe nos Estados com transmissão comunitária da Covid-19 buscam o atendimento básico. No Brasil, os dados oficiais dão conta de seis mortes por Covid-19, 621 casos confirmados e mais de 11 mil casos suspeitos, mas os profissionais de saúde afirmam que os números não correspondem à realidade. “Não estamos vivendo no cenário que gostaríamos, não há testes diagnósticos para todos, que seria o ideal. Isso causa uma grande subnotificação de casos, porque 80% das pessoas com Covid-19 terão sintomas leves e não serão examinadas”, reconhece Sergio Cimerman, diretor científico da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Sobre a proteção dos profissionais de saúde, Cimerman explica que o ideal é que todos adotem “práticas corretas de equipamento de proteção individual (EPI)”, principalmente máscaras cirúrgicas ou N95. “O paciente sintomático respiratório deve receber a máscara assim que chegar no pronto-socorro e, desde o momento da triagem, os enfermeiros e profissionais que entrarem em contato com ele também. Se o paciente precisa de intubação, os médicos devem usar óculos de proteção e máscaras N95, que protegem mais”, explica.

Não é o que acontece, no entanto, com a maioria desses profissionais. Em Pernambuco, enfermeiros dizem que o Estado não está disponibilizando máscaras, luvas, álcool em gel e sabão nas unidades médicas. O EL PAÍS entrou em contato com o Governo de Pernambuco, mas, até o fechamento desta matéria, não obteve resposta.

Em São Paulo, trabalhadores do Hospital Santa Marcelina, filantrópico e privado, reclamam de racionamento até de álcool em gel. “O hospital não dá luvas nem máscaras suficientes para quem trabalha em contato com os pacientes. Equipes de enfermagem usam a mesma máscara, que deveria ser trocada a cada duas horas, durante o dia todo. A direção reclama de que a equipe está usando muito álcool em gel”, conta uma profissional do Santa Marcelina, que prefere não se identificar. “Um dia que usei uma máscara porque tinha que transitar entre os pacientes, recebi bronca e me disseram que ‘não tinha porque causar alvoroço”, acrescenta.

Outros funcionários do Santa Marcelina contatados pela reportagem falam de uma morte por Covid-19 na unidade, mas o hospital não confirma. “Sabemos que lá tem muitos casos suspeitos, mas ficamos sabendo no boca a boca, a direção não nos informa de nada”, diz uma empregada do setor administrativo. A reportagem entrou em contato com a assessoria do Hospital Santa Marcelina para confirmas as informações, mas não obteve resposta.

Medidas na rede privada

Em três dos hospitais de referência no combate a doenças infecciosas em São Paulo, a situação é bem diferente. O Hospital Sírio-Libanês, o Hospital do Coração (HCor) e a Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein trabalham com protocolos de isolamento dos pacientes com suspeita de Covid-19 e fornecem EPI completo para as equipes de médicos e enfermeiros.

“Há risco de contágio dos profissionais, principalmente no pronto-socorros. Não tem como toda a equipe ficar paramentada o tempo todo, mas aqui o protocolo é identificar rapidamente os pacientes que têm tosse ou falta de ar, entregar uma máscara cirúrgica e isolá-lo em uma sala. Os médicos usam EPI higienizado, com luvas, óculos de proteção e máscara N95. Os pacientes suspeitos ficam no que chamamos de leito de pressão negativa, um ambiente completamente isolado, em que o ar que está ali dentro não sai para o corredor do hospital, por exemplo”, explica Valéria Paes, infectologista do Sírio Libanês.

Um protocolo similar é adotado no Albert Einstein, conforme conta o infectologista Moacyr Silva: “Nossa prioridade é que a equipe não adoeça, então, qualquer profissional que atenda um paciente com sintoma respiratório, mesmo no consultório, usa EPI completo. Temos medo de que aconteça aqui o mesmo que em outros países”, diz ele, referindo-se a lugares como a China, que, no ápice do contágio por coronavírus, registrou cerca de dois mil profissionais de saúde infectados. Lá, eles se tornaram um dos principais grupos de risco.

Para Pedro Mathiasi, infectologista do HCor, é importante dar exemplo. “Tenho dois filhos em casa, onde também cuido do meu pai, idoso. A primeira coisa que eu faço no trabalho é conscientizar minha equipe sobre higienização do material de trabalho e uso do EPI”, diz ele, acrescentando que, se o protocolo de isolamento for cumprido, não há risco de contágio para médicos e enfermeiros. Mathiasi é otimista: “Acredito que sairemos disso com uma rede de saúde no Brasil muito mais sólida e com protocolos de segurança melhor desenvolvidos”.

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