Quando a Globo Escolhe não Mostrar

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Por René Ruschel, jornalista

A transmissão do desfile da Acadêmicos de Niterói, com enredo sobre Luiz Inácio Lula da Silva, foi marcada por um tom excessivamente protocolar da TV Globo.




Ninguém esperava aplausos, exaltações ou editoriais emocionados. O que se esperava era mostrar o desfile.

Mostrar a avenida, as alas. Mostrar as fantasias, as alegorias. Mostrar o que estava acontecendo na Marquês de Sapucaí.

A transmissão começou com cerca de 30 minutos de atraso, quando a escola já estava no meio da avenida. Trinta minutos não são detalhe técnico.

No carnaval, são narrativas, são clímax, são comissões de frente, são a construção simbólica do enredo.

Deixar de transmitir esse trecho é amputar a história que a escola se propôs a contar. É retirar do público o direito de acompanhar o desfile em sua integralidade.

Além do atraso, a edição privilegiou planos gerais, mais distantes, com menos tempo de câmera para alegorias, fantasias, alas coreografadas e convidados.

O resultado foi uma cobertura fria, quase burocrática, como se a emissora precisasse cumprir tabela sem se envolver com o que estava sendo apresentado.

Não se trata de pedir entusiasmo, mas sim de garantir visibilidade.

O carnaval nunca foi apenas festa. Sempre foi também palco de crítica social, sátira política e posicionamento.

Basta lembrar os desfiles históricos de Joãozinho Trinta que transformaram a avenida em espaço de confronto simbólico, questionando poder, desigualdade e hipocrisia.

Em diferentes momentos escolas levaram à Sapucaí denúncias, ironias e reivindicações e isso faz parte da tradição do samba-enredo.

Tentar enquadrar esse espírito em uma moldura excessivamente neutra é ignorar a própria natureza do espetáculo.

A Globo não precisava enaltecer o enredo. Não precisava concordar. Não precisava editorializar. Mas precisava mostrar.

Precisava transmitir desde o início. Precisava permitir que o público formasse sua própria opinião a partir das imagens completas.

Deixar de transmitir cerca de 30 minutos de um desfile é descaso com a escola, com os profissionais que trabalharam o ano inteiro e com o telespectador.

É reduzir o carnaval a um produto que pode ser editado conforme conveniência. Para muitos, foi a Globo sendo a Globo. Formal quando convém, contida quando o enredo provoca, econômica nas imagens quando o tema incomoda.

Não se trata de política partidária. Trata-se de compromisso com a transmissão integral de um dos maiores espetáculos culturais do país.

O carnaval é excesso, é cor, é discurso. E merece ser mostrado por inteiro, sem cortes que falem mais alto que o samba.

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