Antes do Wi-Fi, do dólar e da gourmetização do improviso, Jericoacoara dançava no escuro — e o chão fazia música.
Por Renato Flor, um jornalista com saudades de Jericoacoara
Imagem ilustrativa gerada por IA
Jericoacoara (CE), no século passado, não tinha luz elétrica. À noite, o forró acontecia no único trecho da praia com piso cimentado, em frente a um boteco. A iluminação vinha de velas colocadas dentro de garrafas PET, penduradas numa árvore que cobria toda a área. O som era de um toca-fitas TKR, alimentado por baterias de carro carregadas diariamente em Jijoca.
Ao atravessar as ruas de areia, iluminadas apenas pela lua, o que se ouvia ao longe não era exatamente música, mas um ruído ritmado: chique, chique, chique. Era o som dos pés arrastando sobre o cimento. Gente dançando de Havaianas ou descalças, com os pés ainda sujos de areia, produzindo a própria percussão.
Um detalhe que hoje pareceria folclore encenado, mas que então era apenas o jeito possível — e suficiente — de viver a noite.
A lembrança volta por causa de um vídeo que circula por aí, com um tiozinho dançando do mesmo modo, arrastando os pés. A semelhança é exata: o gesto, o som, a economia de meios. Nada de palco, iluminação cênica ou curadoria cultural. Só corpo, chão e tempo.
Há uma saudade inevitável desses lugares antes da chegada do progresso organizado. Antes da eletrificação total, da gourmetização do improviso e da conversão da simplicidade em atração turística.
Hoje, Jericoacoara cobra 30 reais por uma longneck. O cimento continua lá, mas o chique, chique, chique virou ruído de fundo — abafado pelo som ambiente, pelo marketing e pela conta em dólar.
O progresso chegou. O silêncio, não.
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