Quando o chão fazia música

Compartilhe:

Antes do Wi-Fi, do dólar e da gourmetização do improviso, Jericoacoara dançava no escuro — e o chão fazia música.

Por Renato Flor, um jornalista com saudades de Jericoacoara




Imagem ilustrativa gerada por IA

Jericoacoara (CE), no século passado, não tinha luz elétrica. À noite, o forró acontecia no único trecho da praia com piso cimentado, em frente a um boteco. A iluminação vinha de velas colocadas dentro de garrafas PET, penduradas numa árvore que cobria toda a área. O som era de um toca-fitas TKR, alimentado por baterias de carro carregadas diariamente em Jijoca.

Ao atravessar as ruas de areia, iluminadas apenas pela lua, o que se ouvia ao longe não era exatamente música, mas um ruído ritmado: chique, chique, chique. Era o som dos pés arrastando sobre o cimento. Gente dançando de Havaianas ou descalças, com os pés ainda sujos de areia, produzindo a própria percussão.

Um detalhe que hoje pareceria folclore encenado, mas que então era apenas o jeito possível — e suficiente — de viver a noite.

A lembrança volta por causa de um vídeo que circula por aí, com um tiozinho dançando do mesmo modo, arrastando os pés. A semelhança é exata: o gesto, o som, a economia de meios. Nada de palco, iluminação cênica ou curadoria cultural. Só corpo, chão e tempo.

Há uma saudade inevitável desses lugares antes da chegada do progresso organizado. Antes da eletrificação total, da gourmetização do improviso e da conversão da simplicidade em atração turística.

Hoje, Jericoacoara cobra 30 reais por uma longneck. O cimento continua lá, mas o chique, chique, chique virou ruído de fundo — abafado pelo som ambiente, pelo marketing e pela conta em dólar.

O progresso chegou. O silêncio, não.

ex

O Bem Blogado precisa de você para melhor informar você

Há sete anos, diariamente, levamos até você as mais importantes notícias e análises sobre os principais acontecimentos.

Recentemente, reestruturamos nosso layout a fim de facilitar a leitura e o entendimento dos textos apresentados.
Para dar continuidade e manter o site no ar, com qualidade e independência, dependemos do suporte financeiro de você, leitor, uma vez que os anúncios automáticos não cobrem nossos custos.
Para colaborar faça um PIX no valor que julgar justo.

Chave do Pix: bemblogado@gmail.com

Compartilhe:

Posts Populares
Categorias