Quando o combate ao crime vira conivência política

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René Ruschel, jornalista

O parecer do secretário de Segurança de São Paulo, deputado Guilherme Derrite, PP-SP, relator do chamado Projeto Antifacção, é um atentado à lógica da segurança pública.




O texto preliminar apresentado por ele enfraquece o papel da Polícia Federal, condicionando suas investigações contra facções criminosas, milícias e grupos paramilitares à autorização prévia dos governadores.

Um contrassenso que fere a Constituição e ameaça desmontar anos de avanços na articulação entre forças federais e estaduais.

A proposta do governo federal era clara. Fortalecer o combate ao crime organizado, com integração e compartilhamento de informações.

Derrite, no entanto, tenta empurrar um retrocesso perigoso. Caso seja aprovado, seu texto criará brechas políticas para a omissão — ou pior, para o acobertamento — de organizações criminosas que já se infiltraram nas estruturas estaduais.

Trata-se de um golpe disfarçado de autonomia federativa, que na prática enfraquece o Estado e favorece o crime. A Polícia Federal reagiu com firmeza.

Em nota, afirmou “acompanhar com preocupação” as alterações que “comprometem o interesse público” e colocam em risco o combate ao crime organizado. E tem razão.

Retirar da PF a prerrogativa de agir de forma independente é submeter o enfrentamento ao crime às conveniências políticas dos governos estaduais, alguns deles já sob suspeita de conivência com o poder paralelo.

Não é coincidência que essa investida venha de São Paulo, estado onde o governo Tarcísio de Freitas tem sido constantemente questionado pela relação ambígua com o PCC.

Reportagens recentes apontam a expansão da facção e o crescimento da violência, enquanto a Secretaria de Segurança tenta minimizar dados e blindar a cúpula policial.

Derrite, ex-policial militar e agora relator de um projeto nacional, parece mais empenhado em proteger territórios políticos do que em enfrentar as estruturas criminosas que se fortalecem sob o silêncio conveniente do poder.

A proposta ainda é preliminar, mas o estrago político já está feito. Em vez de unir esforços, Derrite escolhe dividir. Em vez de dar instrumentos à PF, prefere acorrentá-la.

É um caminho que, se confirmado, tornará o país mais vulnerável e as facções mais ousadas.

Enquanto isso, o país ainda chora os mortos da recente chacina no Rio de Janeiro, resultado de operações mal coordenadas, improvisadas e sem transparência.

O que se vê agora em Brasília é o mesmo roteiro, só que institucionalizado. O desmonte da integração e a volta do improviso. O crime agradece.

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