Quando o futebol ensina a viver

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Por René Ruschel, jornalista

Antes dos gols, dos títulos e das multidões gritando seu nome havia apenas um menino e uma estrada empoeirada.




Mohamed Salah nasceu em Nagrig, uma pequena aldeia agrícola no Delta do Nilo, onde os sonhos pareciam maiores que as oportunidades.

Ainda adolescente, atravessava o Egito em uma rotina que faria muita gente desistir. Até cinco micro-ônibus, quatro ou cinco horas para chegar ao Cairo, o treino, e outras tantas horas para voltar para casa. No dia seguinte, tudo começava outra vez.

O cansaço, o calor, o banco duro, o sono interrompido, as dúvidas que certamente apareciam pelo caminho não o fizeram desistir.

Há pessoas que aprendem cedo uma lição que o mundo demora a compreender: talento abre portas; perseverança é o que permite atravessá-las.

O futebol costuma nos seduzir pelo instante da glória. Vemos o gol decisivo, a taça erguida, a fotografia que atravessa gerações.

Quase nunca enxergamos a estrada que veio antes. E talvez seja justamente nela que mora o verdadeiro legado. A caminhada levou Salah ao topo esporte.

Tornou-se o maior artilheiro da história da seleção egípcia, conquistou a Europa, brilhou por Chelsea, Fiorentina, Roma e, sobretudo, pelo Liverpool, onde virou ídolo, campeão da Liga dos Campeões da UEFA e da Premier League.

Mas, curiosamente, o que mais impressiona em sua trajetória não cabe em nenhuma estatística. A fama não apagou o menino de Nagrig.

Muçulmano, casou-se com Magi, seu amor de infância muito antes de o dinheiro transformar sua vida.

Investiu na aldeia onde nasceu, ajudando a levar água potável, escolas e hospitais. Sempre afirmou que jamais esqueceu de onde veio.

Na Copa do Mundo de 2026 o Egito viveu uma daquelas derrotas que machucam mais do que o resultado sugere. Vencia a Argentina por 2 a 0 quando, nos minutos finais, viu a classificação escapar.

Salah lutou até o último instante contra o campeão do mundo.

Saiu derrotado, mas não diminuído. Existem partidas em que o placar conta apenas uma parte da história. A outra pertence à dignidade de quem entrega tudo o que tem.

Talvez seja essa a maior lição que o futebol possa oferecer. Nem sempre vencer depende apenas de nós.

Há dias em que o esforço será suficiente para levantar uma taça. Em outros, servirá apenas para que possamos olhar para trás sem arrependimentos. E isso também é uma forma de vitória.

Vivemos uma época em que as pessoas são medidas pela última manchete, pelo último resultado, pelo último erro. Esquecemos que uma vida não pode ser resumida por noventa minutos.

Pessoas como Salah lembram que caráter é uma obra construída em silêncio, muito antes dos aplausos, e permanece quando eles acabam. No fim das contas, o futebol passa.

Os recordes serão quebrados, os títulos encontrarão novos donos e até os maiores ídolos um dia serão lembrados apenas pelas fotografias. O que permanece é aquilo que cada um deixou na vida das pessoas.

Mohamed Salah pode resumir sua história em uma frase do vocalista Chorão, da banda Charlie Brown Jr. e autor da música Dias de Luta, Dias de Glória. “Podem me tirar tudo o que tenho, só não podem me tirar as coisas boas que eu já fiz.”

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