Por René Ruschel, jornalista
Reduzir a jornada de trabalho exige planejamento, sobretudo para os pequenos negócios. Mas há outro custo, raramente mencionado nas planilhas que é o preço de uma vida consumida pelo trabalho.
Empresas precisam de condições para prosperar, mas o trabalhador não pode ser visto apenas como uma peça na linha de produção cujo valor se resume ao lucro que gera. Também tem família, sonhos, necessidades e direito à dignidade.
Parte do empresariado brasileiro reage ao debate sobre o fim da escala 6×1 com alertas de inflação, demissões, aumento de custos e perda de produtividade.
Melhorar as condições de vida dos trabalhadores parece representar uma ameaça ao lucro, como se ter tempo para viver fosse um privilégio e não um direito.
O roteiro é conhecido. Quando o 13º salário foi criado, em 1962, não faltaram previsões de prejuízos e desequilíbrios econômicos. Férias remuneradas e licença-maternidade também enfrentaram resistências.
As conquistas vieram, e a sociedade avançou. Agora, a pergunta se repete: por que o direito ao descanso precisa ser tratado como perigo econômico?
A história mostra que os custos econômicos e financeiros de uma mudança não podem ser o único critério para decidir seu valor.
Reduzir a jornada de trabalho exige planejamento, sobretudo para os pequenos negócios. Mas há outro custo, raramente mencionado nas planilhas que é o preço de uma vida consumida pelo trabalho.
O Brasil continua marcado pela desigualdade. Para milhões de brasileiros, a rotina é sair de casa de madrugada, enfrentar longos deslocamentos e voltar à noite apenas para comer e dormir.
Os filhos crescem, a convivência familiar diminui e o lazer desaparece. Até o sono vira apenas uma recarga para enfrentar mais um dia.
O descanso deixa de ser um direito efetivo e se transforma em intervalo entre duas jornadas.
Países como Alemanha e Dinamarca registram jornadas anuais menores e suas economias continuam desenvolvidas.
Esses exemplos mostram que trabalhar mais horas não é o único caminho para produzir riqueza.
Trabalhadores descansados podem ter melhor saúde, menos afastamentos e maior produtividade. Os custos econômicos precisam ser avaliados junto aos benefícios sociais.
Não se pode presumir que toda melhoria trabalhista ameaça a economia enquanto o desgaste físico, mental e familiar de milhões de pessoas é tratado como se não tivesse preço.
O debate sobre a escala 6×1 vai além de horários. Trata de definir que sociedade queremos construir.
Empresas precisam de condições para prosperar, mas o trabalhador não pode ser visto apenas como uma peça na linha de produção cujo valor se resume ao lucro que gera. Também tem família, sonhos, necessidades e direito à dignidade.
O Brasil não pode continuar tratando o tempo do trabalhador como se fosse propriedade da empresa.
O lucro é legítimo, mas não pode se sobrepor à saúde, à família e à dignidade de quem produz a riqueza.
Em plena era da tecnologia e da inteligência artificial, tão celebradas pelos empresários, é inadmissível que o trabalhador continue escravo de jornadas que lhe roubam a vida.
Imagem: Reprodução/Redes Sociais







