Que tal a grande mídia cobrir o Escândalo BolsoMaster explicando como se faz cinema honesto?

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Por Zeca Ferreira, cineasta

Tenho sentido falta na cobertura da imprensa sobre o caso Dark Horse – e generosamente dou a dica – de informações e opiniões de quem realmente trabalha com o assunto em questão: cinema. A propósito, custa nada repisar a informação de que fazemos um ótimo cinema, premiado no mundo inteiro, etc e tal.




Do que trata Dark Horse? Que elementos possui essa produção que justifiquem o título de a mais cara da história do cinema nacional? Sendo que, o pouco que vimos, sugere economia até na figuração. Cadê os produtores brasileiros sendo convidados a explicar para a população a complexidade que é produzir um filme? O despropósito desse orçamento?

A confusão colocada entre o que seria um investidor e o que é (obviamente) uma conversa de máfia pra transferir dinheiro roubado da população brasileira de um bolso a outro? E, principalmente, cadê o trabalho de esclarecer para a população brasileira – por anos intoxicada por esse discurso fascista massacrante anti-cinema, anti-cultura – que produzir filmes recorrendo a recursos públicos é uma atividade altamente complexa e, acima de tudo, milimetricamente fiscalizada.

Da dificuldade que é atuar nesse sistema, especialmente para pequenos produtores; falar sobre o quanto é importante mesmo o cuidado com o dinheiro público, ao mesmo tempo em que precisamos construir formas inteligentes de fazer isso sem engessar o trabalho e os produtores por anos após a entrega do filme.

Explicar para a população como o dinheiro público investido em cinema precisa ser detalhadamente justificado, ao passo que o nosso legislativo consegue pagar altos salários para funcionários que sequer precisam comprovar qualificação para a função ou mesmo demonstrar presença.

Por fim, essa história toda tem um detalhe que me parece ainda mais fascinante: por mais que Dark Horse seja um evidente cavalo de Tróia pra botar grandes quantias nos bolsos de alguns, me parece haver também uma (vã) esperança sincera de brilhar com uma obra audiovisual potente, capaz de conquistar corações e mentes e mudar os destinos do país – escorado num complexo de vira-lata mal informado que acha que trazer “Jim e Cyrus” é meio caminho andado pra isso, mercenários medíocres de terceira linha da indústria americana.

E isso não vai acontecer sabe por que? Porque fazer cinema exige trabalho, estudo, dedicação, suor. Porque Mario Frias não é roteirista, Eduardo Bolsonaro não é produtor executivo, etc etc etc.

E, além de tudo, quis o destino que essa produção trash viesse a público em um momento único do nosso cinema, que tem buscado forças sei lá de onde para responder a uma década de desmonte e sabotagem vindas dessas mesmas pessoas.

Vida longa ao cinema brasileiro de verdade, feito por trabalhadores tantas vezes maltratados.

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