Quem vai levar meu texto?

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E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, fala da arte do golpe da passagem e da venda de produtos em coletivos…

Vejam como nosso cronista conhece da matéria:




Você já caiu no golpe do sujeito que chega até você com aquela história que foi roubado e que precisa completar a passagem para voltar para casa? Não? Sorte a sua. Se sim, você ajudou? Eu já vi sujeitos que até disseram que eram de outra cidade, tipo do sul de Minas, do sul do Espírito Santo, algo assim.


Eu quase caí duas vezes. Na primeira vez, senti pena, mas farejei lorota. Da segunda, como já tinha ouvido a mesma história ou, vá lá, história semelhante, eu fiquei na minha fazendo cara de paisagem.


Pode ser a maior mentirada do cara, sabe, mas tem uma lição ali para quem queira aprender, sem contar que, num caso ou outro, pode ser que a pessoa esteja falando a verdade. Mas fico pensando, por exemplo, se o golpista fica ou não fica fazendo chacota de sua vítima que caiu no conto-do-vigário. O sujeito deve ficar frouxo de rir. Será?

Fico matutando coisas assim, meio sem propósito. Que coragem que as pessoas têm de enganarem as outras que são mais ingênuas ou mais crédulas. Será que sentem remorso? Será que não?


Certa feita vi um sujeito sentado numa mesa de bar se deliciando com uma cervejinha de final de expediente. Dizendo assim: “Até aí, morreu Neves. O que isso tem a ver com contos do vigário e outras bossas?”


De fato, se fosse só isso seria implicância minha reclamar de quem toma sua sagrada cerveja de fim de tarde. Só que eu reconheci o sujeito. Era o mesmo que dias atrás no coletivo onde eu estava contava aos passageiros uma história comprida a respeito da mulher que estava no hospital da capital e tal. Malandro! Salafrário! SeteUm!


Não sei por que eu me lembro da feição triste de cachorro-de-cara-amassada que ele fazia enquanto contava sua história. Mas para beber fazia cara de Mussum quando via uma garrafa de pinga. Que delícia. Se duvidar, com um pouco de esforço me recordaria até da entonação utilizada. Vai ver que a mulher melhorou. Ou (toc-toc-toc) morreu.


Tem sujeito que não tem jeito. Pois é, a mentira vira ganha-pão e ainda diverte. Teve outro golpistas que também estava com a mulher no hospital. Para pagar o tratamento, ele dissera que estava ali, batendo de sala em sala na Faculdade de Letras oferecendo uma caneta retrátil cujo corpo era a bandeira dos Estados Unidos.


O cara era um ator. Só que alguns golpes devem ser feitos uma única vez, pois dependem do fator surpresa para funcionarem. Quando o malandro apareceu de novo com a mesma história, apesar de anos decorridos, vendendo dessa vez canetas com o corpo da MAGA, eu quase disse em alto em bom som: “Porra, irmão, tua mulher não morre, não?”


Só fiquei na minha porque eu tenho, por ofício, algo a ver com os aplicadores de conto-de-vigário. Eu gosto de algumas mentiras quando bem contadas, confesso.Eu sou do tipo que reúno os fatos primeiro para distorcê-los à vontade.


E não teve só contista do vigário a me chamar a atenção, não. Eu me lembro de um vendedor ambulante que certa vez entrou em um ônibus ali na altura do Norte Shopping.

Pois então, o sujeito entrou no ônibus com duas caixas de bala vazias fazendo o papel de boné, colocou as duas caixas de balas FreeGell´s no chão e mandou o papo:.
… “Essas balas maravilhosas, além de curarem a rouquidão crônica do torcedor com o grito de gol engasgado na garganta, de te deixarem com o hálito mais puro do mais puro peppermint, têm muitas vitaminas: A, B, C, D, H,I, J, K, L, M,N, O, P, Q, R, S,T, U, V, X, Y…”
Quando alguém reparou que ele não havia mencionado o Z, ele respondeu na lata que era verdade, que vitamina Z não tinha, e completou: “Mas em compensação, tem lactobacilos vivos”.


Foi uma gargalhada geral no ônibus. Obviamente ele vendeu balas e mais balas e mais balas.
Passou-se muito tempo desta história, quase trinta anos para ser exato. E dela não me esqueci. Eu deveria ter pedido um autógrafo ao sujeito que, por talento de sobra, deve ter se bandeado para uma galera de Standup comedy.


Por tudo isso que eu disse acima, quando estou em um ônibus ou no trem ou nas barcas, eu tento prestar atenção nos ambulantes que vendem os seus produtos. Fico ligado no pregão, no bordão, no bordado. No vaivém. Em como um ajuda o outro se não tiver troco. “Me arruma duas de dez aí”. Não deixo de comprar a água, o biscoito de polvilho, o amendoim com ou sem casca, o passatempo da viagem.


A cidade Beija-Flor não quer abafar ninguém, mas tem seus próprios vigaristas e seus ambulantes. Eu conheço alguns das duas estirpes, mas hoje tratarei dos ambulantes. Deixe-me ver: tem a moça que vende balas no sinal à noite. Dizem que ela conseguiu pagar a faculdade e tudo. No mesmo sinal que ela, bate ponto um cadeirante que fica puto, só falta xingar, quando alguém lhe diz que não tem nem sequer uma pratinha.

Mais perto de casa, há o menino que não tem um braço e que sempre vai de carro em carro a pedir uma moeda para comprar uma caixa de paçocas. Em um sinal mais afastado, de vez em quanto, pintam os circenses (equatorianos?) que fazem malabares e pedem alguns trocado em sua língua enrolada.


Bem, por hoje é só, vendi meu peixe, indiquei quem vende limões. Quem vai levar meu texto? Será que isso é cair no conto do vigário? Será que o que eu peço é o mesmo que encontrar um bala de hortelã que tenha lactobacilos vivos? Seja como for, agradeço a quem me leu. E a quem não me leu agradeço da mesma forma. Editor, me deixa no próximo.

Sobre o autor

Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.

Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019),  Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.

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