Um longo papo com o cantor e compositor em 1982
Um longo papo com o cantor e compositor em 1982
Por Walterson Sardenberg Sº, compartilhado de seu Blog
No começo de 1982, fui ao bairro do Brooklin, em São Paulo, entrevistar Raul Seixas. Ele morava num sobrado, com a mulher, Kika, e a filha Vivian, de apenas 8 meses. A revista Amiga— sim, a revista Amiga —havia inaugurado uma série de longas entrevistas, chamada, a propósito, de “As grandes entrevistas de Amiga”. Raul, no viço dos 36 anos, topou. Mas ficou reticente quando, num dos três quartos, no andar superior do sobrado, liguei o meu gravador Panasonic — um trambolho, aliás.
“Pô, você não me disse que iria gravar…”, reclamou, cofiando o cavanhaque escarlate. Rebati, dizendo que se tratava de uma longa entrevista, que não daria para escrever tudo à mão. Ele se queixou mais um pouco. E acabou concordando.
Jogamos um pouco de conversa fora antes de ligar o gravador. Falamos dos discos que estavam ali, no quarto. Ele sacou que, tal como ele, eu também era um fã de rock’n’roll. Mais amistoso, perguntou: “Você gosta de um goró?”. Fiz que sim com a cabeça. Raul retomou: “Para me soltar diante do gravador, só tomando uma”, justificou-se.
Para minha surpresa, ele fez um gesto me pedindo silêncio. Em seguida, trouxe do escaninho de uma estante uma garrafa de guaraná tampada com papel dobrado. Não, não continha guaraná — mas cachaça, da boa.
A partir dali, nos revezaríamos. Enquanto ele dava um gole, eu vigiava se Kika estava subindo as escadas. E vice-versa. Fui bastante participativo. Tudo em nome do bom jornalismo, bem entendido. Nesse clima de camaradagem, o papo, de início travado, passou a correr solto. Acho que, modéstia às favas, foi uma das melhores entrevistas de Raul Seixas. Tanto que virou o maior capítulo do livro Raul por Ele Mesmo (Martin Claret, 1990). Ainda dá para encontrar nos sebos. Eu pretendia republicar a entrevista do dia 21 de agosto, data da morte de Raul – ele morreu em 1989, com apenas 44 anos. Mas deu um trabalho e tanto transcrevê-la. Enfim, aqui está. Lá vai:
Para um adolescente, o rock pode representar muita coisa. Uma arma aguda contra a figura autoritária do pai ou do professor, por exemplo. Um ritual para celebrar o vigor da juventude. Ou ainda, como disse o pensador pop Nick Cohn, “o romance e a obsessão”. Recortar revistas, colecionar discos — o romance. Se projetar/identificar nos ídolos — a obsessão. Raul Seixas era um desses garotos que se trancam no quarto para ouvir rock. Romântico e obcecado, ele gostava de escrever. Naquele quarto de Salvador, rabiscou letras e letras de músicas nas paredes. Depois abriu a porta e saiu para o mundo num ritmo todo seu, misturando o chonka-chonka do iê-iê-iê nativo, o quatro por quatro do rock e a natural magia baiana.
De repente, a gente descobre que o disco independente não é um recurso apenas de artistas novos, mas também de caras estabelecidos, como você. E você está lançando um independente, não é?
Pois é. Você sabe como é o rolo das multinacionais do disco. Eu tenho uns 20 anos de carreira e já cansei de cair na mesma armadilha. Não dá mais. Eu tinha ouvido falar dessa gravadora independente, a Gravan, que tem uma proposta nova, ousada. Acabei fazendo os contatos e descobrindo que é muito mais que uma gravadora independente. É uma gravadora arretada.
É a única independente que distribui bem os discos. E a única que o faz em bancas de jornais, lançando um novo ponto de vendas.
É isso aí, uma grande sacada de marketing. Pode até parecer, pelo zelo que meu nome merece, que estou apenas arriscando. Mas eu adoro as coisas ousadas. Eu quero tudo que é ousado na vida. Só não quero é cair no marasmo, sabe?
Estou sabendo, inclusive, que este teu disco é assim, digamos, um disco conceitual, uma ópera-rock, com todas as faixas interligadas.
Não sei se posso chamar de ópera-rock. Não tem nada a ver com o Tommy do The Who, essas coisas. É um disco que trata das diferenças, do sentido todo do Yin/Yang, Apolo/Dionísio, Bem/Mal, Deus/Diabo, Homem/Mulher. Do Sol e da Lua.
As dualidades.
Isso. O título do disco é Nuit, nome de uma divindade egípcia. Nuit é a mulher total, o prenúncio de uma nova era, de um novo tempo mulher. É o que eu chamo de Novo Aeon.
Uma espécie de retorno ao matriarcado.
Novo Aeon foi também o título de um disco meu em 1975, que saiu muito antes da hora, em um momento histórico errado. Esse Novo Aeon é um novo momento, um novo conceito e Nuit seria a mulher, sua mãe. Você veio de onde? Da mulher, não é? Ela joga você para fora, no papel de mãe, e recolhe você novamente, como sua esposa. É ela que faz a tua vida. Ela é ao mesmo tempo uma só mulher e todas. E tem mais: na verdade, ela não admite que você transe com uma mulher só. Nenhuma mulher admite isso no seu âmago. Seria um desrespeito à Grande Mãe do Universo, à fonte da criação.

É a supremacia feminina.
Sim. Mas existe o equilíbrio. A mulher é a noite e o homem é o dia. Mas a mulher tem a sua supremacia, de qualquer maneira. Como te disse, ela te bota no mundo e depois te dá a felicidade. É ao mesmo tempo o plugue e a tomada.
Você fala da supremacia feminina e, no entanto, faz uma música algo machista como o “Rock das Aranhas”.
Aquilo é uma brincadeira.
Nenhuma mulher te chamou de chauvinista por causa da música?
Chauvinist pig? Não, não (risos).
Nuit tem aquelas letras quilométricas dos seus primeiros discos?
Bem, as letras que fiz com a minha mulher, a KIka, são muito boas, te garanto. Mas mais curtas e, além disso, têm relações em comum. Há uma sequência. É um todo. Não é aquela coisa que me impingiram na Polygram, quando eu cheguei ao auge da minha carreira. A gravadora percebeu que eu tinha facilidade com as palavras e queria me colocar num papel de líder. Embriagado pelo sucesso, comecei a falar mais e mais e mais. E deu no que deu: fui preso e expulso do país. Agora existem meios, condições de você fazer a mesma coisa e não ser preso. Mas na época era uma loucura o negócio de falar, bicho. A Polygram mandava eu fazer o show e quando eu chegava ao local só tinha estudante que não queria nada de show, sabe? O pessoal queria era bater papo comigo. Eu ficava conversando, conversando e o cachê era pago como se fosse um show musical. Uma loucura!
Nesses papos você discorria sobre a Sociedade Alternativa que é, a rigor, uma sociedade anarquista, não é?
Sim. Mas não tem nada a ver com a noção clássica do anarquismo, sabe? É um anarquismo muito sutil. Ao mesmo tempo em que eu falo “faça o que tu queres que será da lei”, também digo: “a lei do forte, essa é a nossa lei e a alegria do mundo”. De certo modo, a segunda frase desfaz a primeira. Por que somente o forte pode fazer o que quer e arcar com as consequências. Esse papo de política é fogo. Porque sempre existiu povo e quem sempre mandou no povo, desde os primórdios da história, foi uma elite. E no planeta inteiro, você sabe disso. Os homens carregavam pedras imensas para as pirâmides dos faraós, esse negócio todo. Puxa, foi sempre a mesma coisa! Eu estou sentindo que até a Terceira Guerra Mundial eu curtiria. A coisa não pode é ficar nesse marasmo total (risos).
Você tentou passar para a prática as suas ideias sobre a Sociedade Alternativa, não é?
Foi em 74 e acabou sendo uma experiência traumática na minha vida. Tentamos fundar na Bahia a Cidade das Estrelas, de uma maneira totalmente alternativa. Havia arquitetos, advogados, engenheiros, uma pá de gente querendo morar na cidade. O embasamento de tudo era aquilo que já te falei: a concepção do Novo Aeon, com toda aquela transação do pensador Aleister Crowley, que viveu no começo do século. Eu entrei fundo naquilo, sabe? Mas um certo dia eu estava em casa, foi no primeiro apartamento que comprei na minha vida, pela Caixa Econômica. Então entraram os agentes. Minha mãe, que estava passando uns dias conosco, ficou assustadíssima, não entendeu nada. Na época, eu estava me desquitando da minha primeira mulher, Edith, para me casar com a segunda. Foi barra. Os agentes revistaram a casa toda, deixaram tudo de pernas para o ar, à cata de papéis sobre a Cidade das Estrelas. Minha mãe perguntou: “Quem são essas pessoas?”. Respondi: “São meus amigos, eles são assim mesmo, meio bagunceiros” (risos). Depois disso, bicho, foi fogo. Prisão, exílio, aquilo tudo.
E você foi morar nos Estados Unidos.
É. Fui convidado a sair do país.
Convidado é eufemismo.
(risos) É. Fiquei morando no Greenwich Village, em Nova York. A Polygram tentou me ajudar, os amigos e meu pai também. Mas o dinheiro não dava. Passei o diabo lá.
Foi nessa época que você conheceu o John Lennon.
Foi incrível. Eu fui com um repórter do Cruzeiro. Nem me lembro mais o nome do sujeito. O Lennon estava, naquela fase, separado da Yoko e o tal repórter já chegou perguntando sobre o assunto. Na mesma hora um guarda-costas nos botou para fora (risos). O John ficou mesmo ultracabreiro com a gente. Aí eu consegui explicar a ele quem eu era e o clima melhorou. John acabou interessadíssimo no Brasil, na história do Brasil. Ele era libriano, tipo de pessoa que ouve mais do que fala. Aqueles óculos pequenos, brilhantina nos cabelos amarrados para trás, um broche com a cara do Pat Boone no peito. Rosto para frente, olho arregalado e muitas perguntas inteligentes. Nunca tocamos no assunto Beatles.
Vocês chegaram a ser amigos?
Muito amigos, não. Quando começar a tentar fazer alguma coisa juntos eu tive que voltar. Havia a possibilidade de gravar “Gita” em inglês, mas eu estava com saudade do pessoal daqui. Um dia chegou um rapaz do consulado brasileiro, bateu na minha porta e disse: “É você o Raul Seixas?”. Depois me explicou que eu poderia retornar, não havia mais problema algum e coisa e tal. Foi ele quem me avisou que “Gita”, que eu havia deixado gravado aqui, tinha vendido 600 mil discos. Peguei correndo o avião.
Já que estamos falando de John Lennon, me conta: o que te doeu mais? A morte dele ou a do Elvis?
Indubitavelmente, a do Lennon…
Poxa, eu pensei que você…
Não, não, foi a do John Lennon mesmo, muito embora eu tenha curtido Elvis desde os 9 anos de idade. Sempre fui maluco pelo rock’n’roll magro do Elvis. Rock é como um jegue magro ou então uma tribo de índios dançando em volta da fogueira. É aquela coisa de cantar numa nota menor com um acorde maior. É fantástico, bicho, e eu sempre gostei disso pra burro. Mas quando o Elvis morreu não doeu muito porque ele era um intérprete. Embora eu tenha ouvido menos o Lennon, sempre me identifiquei mais com o trabalho do beatle. Estudei filosofia e tenho uma visão panorâmica das coisas que se passam no mundo, e ele também tinha essa visão. Era muito mais do que um intérprete.
Gozado, você fala no teu novo disco, no trabalho em cima das dualidades e eu olho pra você e também vejo uma dualidade. Não uma dualidade clássica, mas o digerir de duas linguagens, a do rock e a da música nordestina, que você sintetiza, recicla, criando seu estilo. Como é que foi esse processo todo?
Quando eu tinha 9 anos ouvia Luiz Gonzaga e Elvis Presley. Ouvi baião antes do rock, quando meu pai me trouxe o primeiro 78 rotações da minha vida. Depois misturou, porque Elvis era muito forte para mim. Foi na época em que uma geração subiu no banquinho e gritou: “Poxa, nós somos diferentes dos coroas!”. Era aquela rebeldia, sem a consciência exata do que se estava fazendo. Chegou o momento histórico que permitiu a eclosão daquele comportamento. A coisa do rock foi, basicamente, uma revolução no comportamento. Aí eu fui ao cinema e vi Love me Tender, o primeiro filme do Elvis. Pedi ao meu pai para comprar o disco, que eu tenho até hoje. Era o Rit Me Up. Então a coisa começou. Eu, mais tarde, fugia do colégio interno para ouvir rock numa loja chamada Cantinho da Música. Contribuiu muito o fato de que morávamos em Salvador, perto do consulado americano e eu fiz amizade com uma garotada americana. Com nove, dez anos eu passei a falar inglês, fluentemente, e também a ouvir tudo o que era disco de rock. Era Eddie Cochran, Gene Vincent, Jerry Lee Lewis, caras que ninguém conhecia no Brasil. Eu e o Waldir Serrão, que hoje é o disc-jockey Big-Ben, fundamos um clube de rock. Mas naquela época, bicho, jovem de sociedade não gostava de rock’n’roll. Sabe quem dançava rock? Só empregada doméstica, chofer de caminhão. E eu metido ali no meio, dançando. Minha mãe, que era muito ligada nesse negócio de sociedade, casada com um engenheiro, classe média bem situada e coisa e tal, ficava arrasada.
Mais ainda porque você repetiu cinco vezes a segunda série do ginásio.
Pois é (risos)… E, além disso, eu era uma figura muito estranha para a época. Claro, era esquizofrenia. Eu era completamente esquizofrênico. Todo mundo ia no clube com aquelas camisas certinhas. Me lembro de Paulinho Boca de Cantor com aquelas camisas de peixinhos de Ban-Lon (risos). Eu não, era muito diferente. Ia no Iate Clube com camisa vermelha, o que era uma aberração na década de 50. Todo mundo me vaiava.

Mas por que você julga que era esquizofrênico?
Porque sou esquizofrênico. Tenho um certo grau de esquizofrenia. Depois, o jeito que eu me manifestava naquela época era demais! Tomava atitudes muito loucas mesmo (risos). E graças a Deus! Camisa vermelha, golinha virada para cima. As mães não deixavam as filhinhas chegarem perto de mim porque eu era todo torto como o James Dean. Olhava de lado, com jeito de durão. Para dar a mão era uma dificuldade. Cada vez que cumprimentava uma pessoa, dava três giros em torno do próprio corpo. Quando conheci a minha primeira esposa, foi barra pesada. O pai dela era, imagine, pastor protestante e não queria de maneira alguma que nos casássemos. Então mandou a filha estudar no Tennessee, nos Estados Unidos, um ano inteiro para me esquecer. E a gente se correspondia todo dia. Tenho 365 cartas enormes guardadas. Quando Edith voltou, eu saquei que o problema todo poderia ser resolvido com a transa do estudo. Então queimei as pestanas e fiz vestibular para direito, filosofia e psicologia. Passei em tudo, cheguei para o pai dela e disse: “Viu como é fácil ser burro?”. Daí eu me casei cedíssimo, aos 21 anos. E pé na tábua. Estrada para o Rio de Janeiro.
Mas então você já cantava, já tinha um grupo?
Tinha o Raulzito e seus Panteras. Viemos em 67 eu, Edith e o conjunto numa Kombi. Passei a lua de mel em cima dos amplificadores. Quando chegamos fizemos um teste na CBS, passamos, outro na Odeon, passamos – Passamos é ótimo! Optei pela Odeon e gravamos um LP belíssimo. O que eu não sabia é que o disco iria para o catálogo sem nenhuma divulgação. A grana acabou e voltei frustrado para a Bahia, com a esposa e tudo para morar na casa da minha mãe. Meu pai havia vendido o apartamento que me deu como presente de casamento.

O duro retrocesso.
Barríssima, bicho. Me tranquei no quarto. Às vezes, o prato de comida era dado pela porta. Passei a estudar muito para não conviver com a família, queria inventar outro modo de sobrevivência. Lia e escrevia como um louco.
Aliás, teu primeiro projeto, ainda na infância, era ser escritor.
Está vendo aquele baú ali no canto? É um livro chamado Verbalóide. Só não nasceu ainda de preguiça. Eu achava lindo sentar em frente à máquina com aquela camisa branca bem largona, sabe? Como nas fotos do Jorge Amado. Sempre escrevi muito. Aos 9 anos, eu fazia uns gibis enormes e vendia para o meu irmão. Minha mãe queria que eu fosse presidente da República, mas eu a convenci que não dava (risos). Depois ela quis que eu estudasse para diplomata. Aí virei artista.
Mas você já pensou até em ter um cargo no Legislativo. O jornal O Globo publicou uma entrevista tua, em 78, na qual você dizia que se candidataria a deputado pela oposição.
Só que, objetivamente, me deram um toque: “Não se meta nisso aí, não Brinca com a tua música, mas se afaste da política”. Quando se canta ao microfone se é menos perigoso do que quando se fala.
Volte aos tempos em que você estava na Bahia, trancado no quarto.
Bem, de repente eu recebo uma carta do Evandro Ribeiro, da CBS. Quando eu estava no Rio não tinha nenhum acesso a ele e fiquei surpreso com a carta. Evandro escreveu dizendo de sua de sua vontade de gravar uma música que eu tinha deixado na CBS, “Tudo o que é Bom Dura Pouco”. Acabamos nos encontrando na Bahia, tomando birita juntos, conversando muito. Depois, toda vez que ele ia à Bahia nos víamos. Então me deu vontade de voltar para o Rio, largar o quarto, os estudos. Perguntei: “Não tem um lugarzinho na CBS, mesmo que seja de vassoureiro?”. Ele respondeu, imagine bicho, que Jairo Pires havia saído para a Polygram e havia uma vaga de produtor. Quase não acreditei. Aí, vupt, Rio de Janeiro de novo. Produzi Wanderléa, Jerry Adriani, Renato e seus Blue Caps. Fiz música para todo mundo.
Era o Raulzito da CBS. Você não acha que esse período foi importantíssimo para a sua música? Porque depois disso você conseguiu aliar suas ideias loucas à música pop, de escala industrial. Foi dessa mistura que nasceu teu estilo.
Acho que sim. Saquei iê-iê-iê, maxixe, baião, tudo. Peguei uma tremenda experiência musical, uma maneira de canalizar tudo isso. Um macete. Uma manha. Aí encontrei um dia o Roberto Menescal num coquetel e lhe disse que gostaria de ser produtor na Polygram, que eu curtia mais do que a CBS. Eu já tinha feito o “Let Me Sing”, queria botar música em festival, mas o Evandro me dizia: “Ou você é artista, ou é produtor”. Que tudo junto não dava, sabe? Menescal me curtiu e falou para o André Midani, que era o chefão da Polygram: “Contrate esse cara”. E Midani: “Mas o que é que ele faz?”. O Menescal respondeu: “Não sei, mas vamos contratar que é uma boa”. Quando eu mostrei as músicas que estavam no baú, que são antiquíssimas, eles gostaram muito. Estava tudo represado dentro de mim. “Metamorfose Ambulante”, por exemplo, eu fiz com 12 ou 13 anos de idade. Tá até hoje escrita na parede da minha casa na Bahia. Minha mãe não deixa pintar a parede.
Doze anos de idade?
É. “Ouro de Tolo” também. “Mata Virgem”, que o Ney Matogrosso gravou, idem.
A linha melódica você compôs garoto também?
Alguma coisa. Depois eu tive que dar um jeito. Mas já existia o embrião de tudo.
Depois, junto com o Paulo Coelho, você arrematou muita coisa. Paulo, aliás, tem letras ótimas. Por que vocês não trabalham mais juntos?
A gente deixou de transar porque havia uma competição. Eu sou canceriano, ele é de Virgem. Ele usava muito mind games comigo, sabe? Fiquei cansado. A gente se desgastou um pouco, mas fizemos coisas bonitas juntos. Só que Paulo sempre dizia que preferia ser amigo do presidente em vez de presidente. É uma posição mais confortável. No fim, quem assumiu a dureza toda fui eu.

Conte aquela tua história com o Jerry Lee Lewis, quando você viajou com o Paulo Coelho para os Estados Unidos.
Estávamos eu, minha esposa, Paulo e Adalgisa Rios, a mulher dele, que fez a parte gráfica do meu primeiro disco, o Krig-Ha, Bandolo!. Era a primeira vez que eu viajava para os Estados Unidos. Foi antes daquela viagem que já te contei. Quando cheguei, bicho, foi um choque cultural enorme. Sabe aquele cheiro de plástico dos Estados Unidos? Pois é, vomitei no aeroporto de Miami. Vomitei de choque cultural. O encontro com o Jerry foi na Georgia. Nós fomos numa boate chamada Bad Bob, o Bob Malvado, né? O lugar era esquisito. As garçonetes com aquelas roupas cafonérrimas tipo coelhinha do Clube Playboy, um conjunto country tocando, sabe essas coisas? Então anunciaram que Jerry Lee Lewis estava chegando. Ele apareceu com a gangue dele, com um charuto deste tamanho! Era o protótipo do red neck (pescoço vermelho), que é como os americanos chamam os caipiras. E eu, cabeludão, não conseguia achar uma forma de ir falar com ele. Tinha certeza que um caipirão daqueles não iria dar papo para cabeludo. Sabe o que eu fiz? Sentei perto dele, disse que era um artista brasileiro e comecei de cara a esculhambar o progressive rock. Eu disse: “Esses rocks de hoje em dia não estão com nada!”. Foi o bastante. Bebemos Bourbon juntos, ele ficou caindo de bêbado. No final, acabou me acompanhando na boate ao piano. Jerry Lee Lewis tocando para mim, bicho. Eu ataquei de “Long Tall Sally”. Os americanos pedindo mais. Poxa…
Foi o momento de glória do garoto que ouvia rock na loja de discos Cantinho da Música.
É isso mesmo…
Raul, quando você voltou do exílio houve uma queda na tua carreira. Como é que foi isso?
É que eu tive hepatite e fiquei um ano afastado. Meu produtor na Polygram sempre havia sido o Mazzola, um sujeito competente à pampa, mas que não interferia diretamente no meu trabalho. Quando voltei, passou a ser o Gastão Lamounier e não nos relacionamos bem. Na época eu já estava na WEA. Eu e Elis Regina fomos os primeiros a ser contratados pelo André Midani para a gravadora. Quando o Midani passou para a WEA, me fez brigar com o Roberto Menescal. Me convenceu a botar na cabeça do Menescal que eu não queria mais cantar, que iria embora para os Estados Unidos, porque já estava de saco cheio da carreira artística. Menescal até hoje está sentido comigo. E Midani, quando eu fiquei doente, perdeu o interesse pelo meu trabalho. Mas grilo mesmo foi esse negócio de passar do Mazzola para o Gastão. Pô, eu sendo jogado assim de um para o outro foi um troço indelicado para burro. Foi muito chato para mim.
Aí você mudou-se para a CBS e também acabou brigando.
Não sei o que é que eu fui fazer lá. Foi na época em que o Roberto Carlos estava lançando o LP anual dele. E gravei um disco ótimo, o Abre-te, Sésamo. Eles não fizeram nada com o disco. Chegaram ao cúmulo de me pedir para escrevedr uma música sobre a Lady Di. Aí estourei, poxa.
O que é o palco para você? Lembra Sr. Jekyll e Mr. Hide? Conversando, você parece um sujeito muito tímido. No palco, fica endiabrado.
O meu signo é Câncer e, como bom canceriano, eu gosto mais é do trabalho de laboratório, como um cientista. Isso de gravar discos, transar estúdios. Mas no palco acho que pinta o meu signo ascendente, que é Leão. Estou falando de signo só para fazer um parâmetro. Na verdade, eu não sei o que dá em mim quando eu piso no palco. Não sei se entra alguma entidade em mim, você entende? Porque eu sou mesmo um cara muito tímido e com a sensibilidade à flor da pele. Aquele negócio de canceriano, de arrepios, de coração. Agora, no palco é hora de vomitar. E com certeza. Com aquela segurança de que você nasceu para grudar sua impressão digital nesse planeta. Eu quero estar no dicionário, porque tem gente que morre e gente que não morre… cê tá entendendo?

Isso é ego.
Esse assunto é meio complexo. Eu acho que não nasci à toa. Mas meu ego e meu coração são hoje aliados. Os dois trabalham juntos, paralelamente. Então, o que eu jogo para as pessoas é uma verdade minha, sem impor, violar nada. Eu digo de coração o que penso e não poderia ser de outra forma. Mas não tenho a ganância do poder. Tive que comer lama para destruir, modificar o meu ego. O ego é o curinga de truques, sabe? E a gente tem que se desfazer destes truques e matar um fantasma por dia para poder se livrar deste curinga, o the joker do baralho. E eu estou conseguindo, porque vou aniquilando este ego, equilibrando com o coração. Dentro da humildade, bicho, é tudo melhor. Os grandes rios, o Volga, o Nilo, só existem porque existem os pequenos. Os pequenos rios fazem os grandes rios.
Isto é religioso.
Você acha?
Claro. Você é religioso? Místico?
Não, não. O que eu posso chegar mais perto, enquanto classificação, é do agnosticismo. Eu já disse numa música: “Que o mel é doce eu me recuso a afirmar, mas que parece doce é uma coisa que eu afirmo plenamente”. Tá entendendo? Eu não sei, eu só sei que tenho o ímpeto de fazer alguma coisa plenamente e para isso eu utilizo as minhas armas, que são o amplificador, a guitarra, o que eu já estudei, o que o microfone representa para mim. Porque, na verdade, a única coisa que eu gosto, acima da música, é de cinema. Eu sei tudo a respeito, nome de todos os coadjuvantes, diretores, takes, câmeras. Sou fanático e a minha meta final é Hollywood. Eu sou tão grande ator que todo mundo acredita que sou cantor e compositor (risos).
O que você quis dizer com aquela tua letra: “Acredito que não tenha nada a ver com a linha evolutiva da música popular brasileira? A única linha que eu conheço é a linha de empinar uma bandeira?”
Eu gosto muito dessa música. Tem aquele pedaço que diz: “Eu vou contar, meu compadre, como os donos do mundo piraram/ Eles já são carrascos e vítimas do próprio mecanismo que criaram”. Mas o negócio da música popular brasileira eu acho que está bem claro. Eu não pertenço a grupo nenhum. Eu não pertenço ao grupo baiano, nunca pertenci, acho que sou estrangeiro a ele. Nem queria pertencer. São uns caras esquisitos demais (risos). Esquisitos mesmo. Eles não me quertem; eu não os quero. Eu sou eu mesmo, o do raulseixismo, faço uma linha mais individual. Não o individualismo com conotação de egoísta, Não. É bonito dizer: “Seja!”. E mais: “Faça o que tu queres que será tudo da lei”.
Em 72, você cantava: “Tenho 48 quilos certos/ 48 quilos de baião”. Hoje você, aos 36 anos, aumentou para 64 quilos. Mas o que mudou em Raul Seixas de lá para cá, além do peso?
Passei para 64 quilos porque adicionei ao baião o rock (risos). Mas, na verdade, não mudei muito, não. Só que aprendi melhor a transar buraco de rato. Se você quiser se meter no mecanismo todo, tem que ir mudando, transando de outras maneiras. O tempo vai mudando, passando e você tem que mudar também sua forma de sair de banda. Nós, latino-americanos, temos esta tendência, este handicap de sair pela tangente. Mas continuo com minha visão do panorama, meu ponto de vista metafísico da existência. Continuo gostando de gente, aprendendo cada dia mais. Tem uma fase na vida em que falamos muito mal dos nossos pais. Mas eles têm mais experiência do que a gente. Hoje eu respeito os mais velhos.
Você mudou com o nascimento das tuas filhas, não foi?
É. De repente, você está no papel de pai…
Quantas filhas?
Três. Não consegui fazer nenhum homem. Problema de gens (risos).
Do primeiro casamento…
Uma. Do segundo outra e do terceiro mais uma. Meu sonho era ter um filho homem, bicho. Um Raulzinho para dar continuidade à minha existência através de um filho homem. Mas está tudo bem assim. Tudo bem.
Você foi meio rebelde sem causa na juventude. E agora se mostra compreensivo com os valores dos teus pais. Um longo caminho.
A barra da minha geração é fogo, bicho. Sou do pós-guerra, nasci quando a bomba atômica caiu em Hiroshima. A minha geração eu costumo chamar de geração-sanduíche. Segurou os valores dos pais e os valores dos surfistas de hoje. Tá no meio, bicho. Crash! Geração espremida. Sofremos pra burro, sabe? Juntamos a caretice com a loucura. Sempre fui meio careta. Morro de medo de tomar drogas. Nunca tomei LSD e jamais tomaria. Morro de medo. O meu negócio é filme preto e branco. Não gosto de filme colorido. Preto e branco para mim é a coisa.
O que você achou da atitude do Jair Rodrigues, te colocando naquela famosa listinha dele?
Eu não entendi nada. Foi o Jair quem me convenceu a mudar para São Paulo. Esta minha casa, inclusive, foi ele quem arrumou para eu alugar. Sei lá, é muita maluquice… O Jair gosta de uma birita. Fez besteira, foi abrir a boca, falou demais. Só isso. Depois me ligou chorando e dizendo: “Me chama de cachorrão”. Poxa, eu não vou chamar de cachorrão coisa nenhuma!
Mas ele foi um inocente útil. Você não achou?
Claro. Não falou de maldade. Falou de bobagem mesmo.
Para finalizar, fale de seus casamentos.
O primeiro foi com a Edith. Filha de protestantes. Imagine você que ela nunca tinha ido em uma cinema! Eles são rígidos mesmo. Cinema para os pais dela era um lugar escuro, pra se fazer coisa feia. Eu, com toda a minha baianice na cabeça, tinha que me casar com uma virgem protestante (risos). Depois abri mão, casei com a Lori, que já era desquitada. Agora eu já estou bem calmo. Vivo há dois anos com a KIka, que é arquiteta, e tenho uma filha de oito meses. De primeiro casamento tenho uma menina de 13 anos e do segundo uma de seis.
A parede desta sala está toda escrita. Tem até frases do Nuit, estou reparando.
Desde garoto adoro escrever na parede. É onde ponho todas as letras das minhas músicas. É um lugar bom para escrever, né?
Você passa, olha e está sempre se lembrando.
Isso. É melhor do que ficar procurando o papel com a letra. O único problema é que você tem que chamar o pintor quando vai entregar a casa.







