Raul Seixas ressuscita: “Parem o Mundo que eu Quero Descer”

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Por Alanderson Hudson

Depois de 32 anos em coma profundo, Raul Seixas acorda numa tarde vazia em pleno século XXI. Um dos poucos amigos que nunca o abandonou o convida então para dar umas bandas por aí e lhe mostrar as novidades.





Ainda no carro, Raul já começa a se aborrecer quando o brother encosta no posto para abastecer seu carro com álcool…
—Porra bicho, vocês ainda derramam cachaça em automóvel? Que coisa mais sem graça.


O amigo riu nervoso e em seguida colocou um pen-drive na entrada USB do som do carro e disse para o Raul:
—Nesse aparelhinho estão todas as suas músicas, acredita ?
Raul não se empolgou nem um pouco, ao contrário, reclamou:
—Ah, “vão se foderes”, assim vocês me quebram, quem vai querer comprar meus Lps?
O amigo explica brevemente a evolução, cd, dvd, mp3, pen-drive…
É o progresso, meu caro – diz olhando para o roqueiro com ares de sabedoria…
Mas Raul não se dá por vencido:
—Porra bicho, minha música sem o chiado dos discos de vinil está me soando um pouco estranha…


Seguem para a Rua Augusta e de repente o celular do amigo toca e ele atende normalmente se esquecendo que ainda não havia mostrado essa novidade para o artista.
—Pronto, estou na escuta!


Raul se desespera e pede imediatamente pro amigo parar o carro.
—Me deixe aqui, gosto muito de você mas me recuso a andar com gente de marrom. Devia ter me falado logo que virou tira!
—Como assim, Raul? Que onda é essa agora?
—Não é onda, você tem um rádio no carro, onde já se viu?
—Que rádio que nada, isso é um telefone celular.
Hoje em dia carregamos os telefones nos bolsos das calças…
—Sério bicho? Quer dizer que posso ser encontrado por qualquer pessoa, em qualquer lugar e a qualquer hora?
Tô fora disso, sempre amei ser livre.


O amigo se sensibilizou com a constatação de Raul, que já descartou a idéia do uso do aparelho sem sequer imaginar a escravidão que ele nos impõe depois de certo tempo de uso…


Raul se desculpou com o camarada e disse que estava um pouco confuso com tanta novidade.


Chegando ao bar, o amigo aconselhou o cantor a pegar leve, e então Raul prometeu que tomaria uma cerveja ao invés de pinga para não desagradá-lo.
O amigo então pediu duas long-necks sem álcool.
Raul arregalou os olhos por trás das lentes escuras e protestou:
—Como assim, cara? Cerveja sem álcool? A graça de se beber cerveja é exatamente a de ficar na brisa…
—Experimente primeiro, depois me diga o que achou.
Raul então deu um gole e só não cuspiu no chão do bar por questão de princípios, mas disse assim:
—Porra, isso pra mim é mijo de rato, você tem cigarros?
—Só tenho cigarro eletrônico – disse o aliado sacando o bastão de metal…
—Ah, para com isso meu irmão, esse mundo moderno é uma merda.


Definitivamente Raul estava decepcionado.
Pra onde olhava via câmeras e imediatamente 1984 lhe veio a cabeça. As pessoas pareciam zumbis hipnotizadas pelo tal telefone celular. Aquele trânsito caótico com carros e até motos que bebiam cachaça, a trilha sonora terrível do bar, o papo dos pen-drives, da cerveja sem álcool, do cigarro eletrônico, tudo aquilo havia mexido com ele o deixando meio enjoado.


Estava arrependido de ter acordado e de ter aceitado o convite do amigo para dar uma volta quando de repente, um pensamento veio em sua cabeça e ele se animou outra vez e então soltou a pergunta:
—Escute bicho, com tanta modernidade por aí, me diga onde estão os discos voadores?
—Mas Raul, discos voadores não existem.
—Como assim, bicho? Não existem, eu heim, quando acabar o maluco sou eu.


Em seguida olhou para o dono do boteco e falou firme esquecendo a promessa feita para o amigo minutos antes:
— Me vê uma 51 com bastante álcool pra eu tentar achar um pouco de graça nesse tal mundo moderno…”

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