Por René Ruschel, jornalista
A democracia brasileira sobreviveu a mais uma prova de resistência.
A vitória de Lula representa mais do que a escolha de um presidente, é a reafirmação da vontade popular diante de um projeto político que flertou com o autoritarismo, alimentou a desconfiança nas instituições e fez da mentira uma ferramenta de disputa eleitoral.
O Brasil escapou de uma arapuca e recuperou o direito de olhar para o futuro com esperança.
Flávio Bolsonaro, candidato sem liderança própria e sem trajetória política capaz de sustentar um projeto nacional consistente, representava, na prática, a continuidade do bolsonarismo.
Sua candidatura carregava o peso de uma dinastia familiar interessada em preservar influência e poder. A promessa de quatro décadas de domínio político, anunciada pelo próprio senador, esbarrou na realidade das urnas.
A derrota expôs os limites de um projeto que confunde herança familiar com legitimidade democrática.
As contradições também ficaram evidentes na relação com o sistema eleitoral.
Quando os resultados favorecem seus interesses, as urnas são aceitas; quando frustram suas expectativas, surgem insinuações e suspeitas sem provas.
Esse comportamento não é apenas incoerente como corrói a confiança pública e enfraquece as instituições que garantem a alternância de poder.
A vitória de Lula, contudo, não autoriza triunfalismos. O Congresso permanece conservador, as negociações políticas serão duras e os desafios econômicos e sociais exigirão respostas concretas.
A preservação da democracia é uma conquista fundamental, mas sua consolidação depende de governabilidade, responsabilidade e compromisso com as necessidades da população.
Há, entretanto, um sinal alentador que é o reencontro de jovens e cidadãos com a participação política, ocupando as ruas e defendendo suas convicções.
A democracia voltou a ser vivida como experiência coletiva, para além das urnas.
A ressaca democrática exige lucidez. Vencida a batalha eleitoral, é hora de reconstruir pontes, combater a desinformação e cobrar resultados. A esperança venceu o medo, se renova, mas não pode descansar.
Democracia não é um patrimônio garantido para sempre, mas sim uma conquista diária, que depende da vigilância e da participação de todos.
Foto do post: Paulo Pinto – Agência Brasil







