Por José Antônio Silva, publicado em Sul 21 –
Dentro da linha do estado mínimo (tremam setores mais frágeis da sociedade), José Ivo Sartori anunciou alguns dos cortes que pretende fazer na estrutura da máquina pública. Entre os ameaçados, nenhuma surpresa maior: o Meio Ambiente, a Cultura, a Secretaria de Políticas para as Mulheres… (a Secretaria de Desenvolvimento Rural, dos pequenos agricultores, só está sendo salva por pressão do PSB, aliado do governador eleito).
Como se sabe, sempre que poderes públicos falam em “flexibilizar”, “agilizar” e expressões semelhantes, no tocante a licenciamento ambiental, leia-se “dar um jeito pra liberar logo esta bosta pra a gente começar as obras o quanto antes!”. Por isso, só o fato do próximo governador – segundo entrevista à Zero Hora – ter pensando em incorporar a SEMA à Secretaria de Desenvolvimento já mostra que, para a nova administração estadual, temas como poluição, desmatamento, estiagem, aquecimento global, etc., não passam de bobagens que apenas atravancam o “pogreço”.
Até porque, em última análise, uma secretaria de “Desenvolvimento” executa ações que destroem a natureza (sob justificativa razoável) e a de “Meio Ambiente” luta para que a natureza seja preservada, também dentro de certos limites. Uma tensão necessária e que deve ser equilibrada. Mas quando se coloca a SEMA sob subordinação do Desenvolvimento, já se pode imaginar o resultado, naturalmente…
E tem mais: Sartorão da massa pretende/pretenderia juntar a pasta de Cultura com Turismo e Esportes. Ou seja, “cultura” – com todo o seu cabedal simbólico, seus grandes artistas, suas marcas, sua história – perde o prestígio no velho novo governo escolhido pelos gaúchos, e fica sem valorização e o protagonismo que merece. E descem ralo abaixo os grandes investimentos no setor feito pelo governo Tarso, as centenas de novas bibliotecas, os pontos de cultura, o pólo de cinema, a sala sinfônica da Ospa, etc.
Um verdadeiro luto para músicos, escritores, cineastas, teatreiros, artistas plásticos, humoristas, dançarinos, fotógrafos, editores, museólogos, além das manifestações étnicas, regionais, minoritárias, etc. Possivelmente, no entender do gringo, nada que um gauderião de CTG abrindo a gaita com uma canha do lado não dê jeito.
E só piora: o mesmo relatório – digo, matéria de ZH – afirma que a Secretaria de Políticas para as Mulheres ficará “sob responsabilidade do Gabinete da Primeira Dama”. Bom, para começar, “Primeira-Dama” é um conceito que, se teve algum papel razoável, em algum momento da história, há muito tempo não tem mais. Vivemos a época (e o lugar: alô presidenta Dilma!) em que as mulheres ocupam a Presidência de países, não são mais acessórios e assessoras aos políticos do sexo masculino.
Assim, deixar um órgão como a SPM, que conceitua e organiza as lutas pela igualdade das mulheres – do enfrentamento à violência doméstica, da Patrulha Maria da Penha e da Rede Lilás, aos programas de qualificação da mão de obra feminina, entre outras iniciativas – “junto ao Gabinete da Primeira Dama” é um retrocesso social e político brutal.
Bom, é preciso reconhecer que as revelações de Sartori à colunista Rosane de Oliveira são coerentes com o pensamento, digamos assim, que botou o político caxiense no alto poder do estado. Mas será que os setores sociais diretamente prejudicados com estas e outras medidas, vão aceitar passivamente a morte anunciada?
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José Antônio Silva é jornalista e escritor.







