Por Arcírio Gouvêa Neto, jornalista
“Não parem, não vamos recuar agora, eles sentiram o golpe. Vamos partir pra cima deles”, disse Ricardo Capelli, referindo-se à campanha maciça da esquerda, nas redes sociais com o lema “Congresso inimigo do povo”. Essa polarização foi ótima para desnudar de vez a ojeriza que essa pretensa elite sempre nutriu pelo e por tudo que signifique sua ascensão social. Mostrou a ferida que essa pretensa elite sempre tentou esconder durante séculos.
Deixou-a exposta. “Tudo para nós, nada para eles”, sempre foi o paradigma. “Que eles comam menos, apertem os cintos, mas não mexam em nossos jatinhos e não diminuam o número de nossas piscinas”. Um dia Maria Antonieta teria dito: “Se não tem pão, comam brioches”, e a consequência dessa frase todos sabem qual foi.
Acontece que está parecendo que essa separação entre ricos e pobres nesse Brasil foi provocada propositalmente pelo atual governo – é o que passa, espertamente, a mídia – quando isso vem de muito longe. Vem desde quando a mulher do dono de engenho enfiava a colher quente na língua da negrinha escrava, por não ter gostado de algo que ela falou; vem desde quando o escravo era deixado amarrado por dias e dias na chuva e no sol, recebendo não sei quantas chibatadas, por ter feito qualquer ninharia sem importância; vem desde quando o fazendeiro, em uma carta enviada da Europa, instruía o capataz como alimentar as pessoas da casa: primeiro os animais, depois os filhos, em seguida a esposa e o que sobrasse dar aos escravos.
Sempre acharam que o Brasil lhes pertencia, porque era assim que a Corte Portuguesa pensava e agia. Toda essa nossa pretensa elite é consequência desse comportamento lusitano indiferente e soberbo, que passou para os senhores de engenho do Nordeste, os coronéis do mato do Rio de Janeiro, os fazendeiros do Vale do Paraíba, os barões do café de São Paulo e todo o nosso judiciário.
Não havia nada, exatamente nada, em nosso Código Penal que fizesse alguma referência à conduta dos juízes. Eles eram simplesmente intocáveis. E, como pertenciam a essa pretensa elite, é óbvio que só legislavam em causa própria. Será mera coincidência que hoje seja a mesma coisa?
E, nem esperem boas novas do Supremo com relação a esse assunto, lembre-se de que fazem parte da mesma massa.O mesmo acontece com os donos de emissoras de televisão, jornais e rádios. Ora, são necessários milhões e milhões para montar um conglomerado desses que ostentam os Marinho, os Saad, os Abravanel, os Mesquita, os Frias e vai por aí.
Só sendo muito ingênuo e inocente para achar que depois de investir tanto dinheiro eles vão veicular em sua programação, em seu noticiário, material que tenha alguma consciência social de preocupação com o pobre; eles somente vão noticiar aquilo que for do interesse da classe social à qual eles pertencem. E não tem nenhuma chance de ser diferente.
Lembro agora de um livro chamado “Rio de Janeiro do meu Tempo”, do jornalista Luiz Edmundo, lançado no início do século 20, em plena Belle Époque, em que ele dizia que os cerca de 15 periódicos da Cidade do Rio de Janeiro estavam todos alinhados com o poder econômico e que não se via o mínimo de noticiário com um olhar preocupado e sensibilizado com a sorte do povo. Não mudou nada.
Nosso Congresso reflete esse cenário cruel e desumano, mesquinho e insensível ao sofrimento das camadas sociais mais vulneráveis e necessitadas, porque grande parte dele pertence a essa pretensa elite. Dos 594 políticos que o compõem 273 são empresários, 160 são fazendeiros, que somados formam 72% da Casa.
Volto a mesma pergunta feita com relação aos donos de canais de mídia: vocês acham que eles vão legislar para o povo ou em causa própria? E o que mais dói é saber que quem botou eles lá foi justamente aquele que mais será prejudicado por eles, porque representando 1% ou 2% da nossa população eles jamais conseguiriam se eleger se não fosse com o voto desses que eles abominam.
Tem muito mais a ser dito, no entanto, fico por aqui, pois já está longo o texto. Esse cenário que foi criado, refletindo o lema “Congresso Inimigo do Povo”, não sei por quem, mas que ganhou uma força imensa nas redes sociais, é uma luz no fim do túnel, pode ser comparada a uma revolução, quem sabe, à Francesa ou à Bolchevique, mas é um acordar de consciência.
Ah, que bom seria se nosso povo aderisse a esse novo cenário que se descortina e entendesse, de uma vez por todas, quem é seu inimigo. Quem sabe se as manifestações marcadas para o próximo dia 10 de julho não sejam a sua redenção. Sonhar é bom e eu gosto.







