Rogéria, Maria, Rebeca: três brasileiras e suas histórias de transformação

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Por Carla Lencastre, compartilhado de Projeto Colabora – 

Tapeceira, educadora social e estudante trilham novos caminhos impulsionadas pelos programas da Fundação Vale de apoio a negócios sociais, educação e saúde, que impactam 770 mil pessoas em seis estados, aponta relatório de atividades do ano de 2019

Equidade de gênero: a Rede Mulheres do Maranhão reuniu 150 empreendedoras em dez municípios, em 2019, fomentando negócios sociais (Foto: divulgação)

Rogéria Lourenço Borges enfrentou dificuldades na adolescência, com uma filha e muitos irmãos em casa. Buscava sustento vendendo salgadinhos nas ruas de Periquito, município mineiro às margens do Rio Doce. A 270 km de Belo Horizonte, com população atualmente estimada em menos de sete mil habitantes, o então povoado recebeu o nome da ave em 1944. Foi quando se tornou uma das paradas do Trem de Passageiros da Estrada de Ferro Vitória a Minas. Por esses trilhos, hoje operados pela Vale, passam diariamente produtos como minério de ferro, aço e carvão, rumo ao Porto de Tubarão, no Espírito Santo.




Setenta e cinco anos depois do nascimento de Periquito, justamente por estar ao lado dos trilhos que deram origem ao município, a vida de Rogéria rumou para melhor. Depois de trocar a venda de salgadinhos pelo trabalho de costureira, ela se tornou tapeceira e foi uma das 18 artesãs que participaram, em 2019, do Programa Empreendedorismo Social Comunitário (PESC) em Periquito, da Fundação Vale. O projeto fomenta e apoia negócios sociais. Os tapetes de fuxico confeccionados por Rogéria e outras periquitenses são tradicionalmente vendidos em feiras e em barracas ao longo da BR-381, rodovia federal que liga, pelo interior, Espírito Santo a São Paulo.

Pesc Periquito - Fundação Vale - negócios sociais
Uma das tapeceiras da Casa Fru Fru: empreendedorismo feminino e renda para a cidade de Periquito (Foto: divulgação)

No PESC Periquito, as tapeceiras tiveram aulas de corte e costura e aprenderam a usar o fuxico, feito com retalhos de tecidos, em bolsas, capas de almofadas e nécessaires. O programa também ensinou a calcular o custo da execução do trabalho e o lucro, e as tapeceiras passaram a participar de todo o processo de produção. O empreendedorismo feminino abriu novos horizontes e deu origem à Casa do FruFru, negócio social apoiado pela Fundação Vale. Hoje, além das barracas ao longo da estrada, essas mulheres vendem os produtos sustentáveis em feiras de outras cidades mineiras.

“Colocamos a mão na massa e aprendemos tanto com o projeto quanto umas com as outras. Isso é gratificante. Temos uma fonte de renda na nossa pequena cidade”, conta Rogéria.

O PESC está presente em mais de uma dezena de municípios nos estados de Minas Gerais, Espírito Santo, Maranhão e Pará. Com esse programa em 2019, a Fundação Vale conquistou o primeiro lugar regional na categoria Gestão de Pessoas/Sustentabilidade do prêmio Ser Humano Oswaldo Checchia, da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-Brasil), por consolidar a inclusão sócio-produtiva feminina na Estrada de Ferro Vitória-Minas. O PESC Periquito, especificamente, foi o primeiro colocado na categoria Pequeno Porte do Conecta, promovido pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) Regional Vale do Aço, com Aperam, ArcelorMittal Monlevade, Cenibra e Usiminas, para premiar iniciativas que contribuam para o desenvolvimento sustentável do Vale do Aço.

Empoderamento feminino, tema transversal

O fomento de negócios sociais é um dos campos de atuação da Fundação Vale, que estão relacionados aos grandes problemas brasileiros. Os outros focos são apoio à educação, à promoção de saúde e à cultura. Criada há 52 anos, a fundação esteve presente, em 2019, em 68 municípios dos seis estados onde a Vale atua no Brasil: Pará, Maranhão, Minas Gerais, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul e Rio de Janeiro. Segundo o Relatório de Atividades da Fundação Vale, no ano passado, foram investidos R$ 50,9 milhões (entre recursos próprios e doações) em projetos sociais que chegaram a 770 mil pessoas.

“Trabalhamos para o desenvolvimento territorial nas áreas onde a Vale está presente. Nosso objetivo é melhorar a qualidade de vida da população, fortalecendo políticas públicas. Não atuamos sozinhos. Somos parceiros das comunidades, da iniciativa privada, do poder público. Temos que crescer junto com as comunidades nos territórios onde estamos. Nossa atuação não se restringe às capitais, atuamos fortemente no interior, em municípios de grande vulnerabilidade”, explica a gerente da Fundação Vale, Pâmella De-Cnop.

Rogéria, a tapeceira de Periquito, e muitas outras mulheres foram impactadas por essas ações. Pâmella destaca o empoderamento feminino como tema transversal na atuação da fundação:

“Sempre pensamos em como podemos incorporar a equidade de gênero em nossos projetos. Temos um olhar atento a essa questão”, diz a gerente.

Nesse sentido, a Fundação Vale apoia desde 2015 o Rede Mulheres do Maranhão, que, em 2019, reuniu 150 empreendedoras em dez municípios maranhenses, fomentando negócios sociais em setores como a produção de azeite e óleo de coco babaçu com certificação orgânica.

Em Minas Gerais, a Fundação Vale atua nas frentes de geração de trabalho e renda, educação, saúde e cultura. Em 2019, essas ações alcançaram 172 mil pessoas em 23 municípios, com 11 diferentes iniciativas. O premiado PESC, por exemplo, está presente em outros sete municípios mineiros, além de Periquito. No campo de geração de trabalho e renda foram alavancados 35 negócios sociais, apoiando 320 pessoas.

No Espírito Santo, o PESC está no pequeno município de Ibiraçu, com população estimada em cerca de 12 mil habitantes, e em Serra, na Grande Vitória, com mais de 500 mil habitantes e o mais populoso do estado. Em 2019, com 11 iniciativas em oito municípios ao longo da Estrada de Ferro Vitória-Minas, a fundação beneficiou 325 mil pessoas no estado. As ações foram nas áreas de geração de trabalho e renda, educação, saúde e cultura.

Equipamento para escolas e formação de professores

Na frente de educação, em Minas Gerais, Maranhão, Pará, Espírito Santo e Rio de Janeiro, a Fundação Vale procura seguir um fio condutor para atuar em municípios tão diversos e com demandas diferentes. Como explica Andreia Prestes, especialista em educação na Fundação Vale:

Equipar e formar, para garantir que os recursos serão usados da melhor maneira possível, são os dois eixos principais

Andreia Prestes
Especialista em educação/Fundação Vale

“Nossos programas apoiam as políticas públicas, as metas determinadas pelo Plano Nacional de Educação (PNE) de 2014. Quando chegamos a um município, tentamos primeiro entender como está desenhado o plano local de educação. A partir daí, listamos projetos que fazem sentido naquela cidade, que terão impacto e serão sustentáveis, continuando depois que a fundação sair do município ou da troca de gestão. Colaboramos com a formação de professores de educação infantil, por exemplo, que é uma obrigação municipal recente, e equipamos as escolas. Equipar e formar, para garantir que os recursos serão usados da melhor maneira possível, são os dois eixos principais”.

Mais uma vez, a equidade de gênero tem relevância:

“Educação infantil tem ligação direta com a questão de gênero, porque permite que a mãe possa voltar para o mercado de trabalho. Educação inclusiva também tem muito a ver com apoiar as mulheres que são mães. Dados mostram que, muitas vezes, o pai abandona a criança portadora de deficiência”, diz a professora.

Maria, de desempregada a educadora social

Maria do Espírito Santo vive em Arari, município com população estimada em menos de 30 mil pessoas, a 166 km de São Luís. Até 2019, ela não tinha trabalho. Em março do ano passado, Maria participou por três semanas de uma formação para se tornar educadora social do Casa Saudável. O programa da Fundação Vale, em cinco municípios do Maranhão, apoia comunidades rurais na melhoria da gestão da água e do saneamento por meio da educação. Com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o projeto implementa tecnologias simples, como banheiro seco compostável, cisterna para captação de água da chuva e horta familiar, seguindo os princípios da permacultura.

Casa Saudável - Fundação Vale
Maria encontrou uma ocupação após a formação em educadora social e atual no Casa Saudável (Foto: divulgação)

“O município é muito humilde. Nosso trabalho é incentivar as famílias da comunidade a terem uma vida mais saudável, com melhores condições de higiene e alimentação. Compartilhamos conhecimento, como higienizar o filtro de água e montar a horta”, conta Maria. “A cisterna é de extrema importância, pois, durante o verão, a seca é muito forte. O Casa Saudável mudou minha vida. Além de uma ocupação, me deu um entendimento para ajudar as pessoas. Eu não sabia muitas coisas até o programa chegar”.

Em 2019, o Casa Saudável Arari construiu 75 cisternas de captação de água da chuva, cada uma com capacidade para 16 mil litros. Com isso, 300 pessoas passaram a ter mais acesso à água segura e 110 hortas foram criadas baseadas na permacultura, sistema integrado com o meio ambiente, sem uso de agrotóxicos. Os projetos foram executados pelos próprios moradores, depois de participarem de oficinas conduzidas pelos educadores sociais. O Casa Saudável Arari, uma parceria com o Instituto Sotreq, ficou em terceiro lugar no prêmio Ser Humano Oswaldo Checchia na categoria Gestão de Pessoas/Sustentabilidade. Desde 2013, quando o programa foi criado, 1.400 famílias de 19 municípios foram beneficiadas com acesso à água potável ampliado, redução de queimadas, aumento de quintais produtivos, feiras de troca com o excedente das hortas, implementação de banheiros e redução do uso de pesticidas.

Minha filha segue uma rotina dentro da Estação Conhecimento. Foi ali que ela conseguiu se desenvolver. O espaço vai além do ler e escrever: descobre e desenvolve o potencial de cada criança

Vera Lúcia Lima
Agente Comunitária

Mais conhecimento para a pequena Rebeca

Ainda em Arari, Rebeca, de 6 anos, quer brincar, se divertir, praticar esportes, conviver com os amigos. Como outras crianças da sua idade. Mas, na comunidade onde mora a realidade não oferece muitas oportunidades. Rebeca pode se desenvolver social e intelectualmente na Estação Conhecimento, onde há atividades como aula de idiomas, música, capoeira, atletismo, futebol e natação. Em parceria com a Wheaton Precious Metals, a Estação Conhecimento Arari tem também duas salas de atendimento médico e odontológico. Em 2019, as ações do programa alcançaram 670 pessoas de 30 bairros ou comunidades rurais.

“Minha filha segue uma rotina dentro da Estação Conhecimento. Foi ali que ela conseguiu se desenvolver. O espaço vai além do ler e escrever: descobre e desenvolve o potencial de cada criança. Oferece várias modalidades de esporte, cultura e lazer, e isso faz diferença na vida da minha filha”, diz Vera Lúcia Lima, agente comunitária de saúde e mãe da Rebeca.

As Estações Conhecimento Arari, no Maranhão, e Tucumã, no Pará, são outras duas iniciativas da Fundação Vale premiadas. Ambas conquistaram o primeiro lugar, cada uma em seu estado, no prêmio Empresário Amigo do Esporte, que reconhece apoiadores de programas desportivos e paradesportivos, mediante incentivo fiscal.

rotas literárias - mangaratiba
Atividade do programa Rotas e Redes Literárias, em Mangaratiba (Foto: Divulgação)

Direito à educação e à literatura

Outro projeto da Fundação Vale no Maranhão é o Rotas e Redes Literárias, que há dois anos promove a leitura em Arari e outros três municípios. Em 2019, 22,5 mil estudantes do estado foram beneficiados com os programas de educação:

“O acesso à literatura é um direito, trabalhamos levando isso em conta. Ainda é muito distante a realidade de haver bibliotecas em todas as escolas públicas. Às vezes, a escola até tem os livros, mas encaixotados. Ou um professor, de forma isolada, toma a iniciativa de trazer o livro para o projeto pedagógico. Tentamos fazer com a que literatura seja uma política da secretaria de educação, e que todos os professores se preocupem com isso”, conta Andreia, completando: “Fomentamos o fortalecimento da política pública, criando um acervo e formando professores. Não atuamos em uma ou outra escola municipal, mas em todas. São municípios pequenos, não criamos desigualdade na rede. É muito interessante ver a literatura chegando a escolas rurais. Arari tem os melhores indicadores e está se destacando em relação aos outros municípios. Em 2019, começamos um projeto piloto de alfabetização em Arari, Bacabeira e São Luís. A fundação atua junto com o governo estadual e os municipais para formar professores”.

No Maranhão, a Fundação Vale desenvolveu 19 programas em 26 municípios no ano de 2019, alcançando 190 mil pessoas ao longo da Estrada de Ferro Carajás, por onde é escoado o minério produzido no Pará até o Terminal de Ponta da Madeira, porto da Vale em São Luís.  Inaugurada há 35 anos, a ferrovia passa por 27 cidades dos dois estados. As 18 iniciativas da fundação em 2019 em seis municípios do Pará, como a Estação Conhecimento Tucumã (há ainda uma outra em Marabá), contribuíram para o desenvolvimento socioeconômico e alcançaram 55 mil pessoas.

Diante da covid-19, novos planos

Em 2020, em meio à pandemia da covid-19, a Fundação Vale revisou junto a parceiros e comunidades algumas ações e elaborou outras para colaborar com a prevenção e amenizar o impacto do novo coronavírus. Na área de geração de trabalho e renda, por exemplo, os programas foram revistos, como explica Marcus Finco, gerente do Território Norte na Fundação Vale e especialista em negócios sociais:

Com o contexto da covid-19, as empreendedoras, de forma proativa, estão fortalecendo as parcerias locais, produzindo máscaras e realizando doações para comunidades carentes do município

Marcus Finco
Gerente do Território Norte na Fundação Vale

“Os empreendimentos tiveram forte queda de faturamento no Maranhão. Remodelamos e pivotamos os negócios, à distância, considerando o contexto mais sensível, e os empreendedores estão reavendo parte dos investimentos e da renda. Algumas soluções que encontramos no Maranhão já estão sendo repassadas para os outros estados onde apoiamos negócios sociais”.

Um dos exemplos está em Marabá, no Pará, onde o PESC capacitou e assistiu tecnicamente 13 mulheres que, até então, nunca tinham tido acesso ao trabalho formal. Com o programa, elas criaram o grupo Chita Chic Inspire e hoje são costureiras profissionais:

“Com o contexto da covid-19, as empreendedoras, de forma proativa, estão fortalecendo as parcerias locais, produzindo máscaras e realizando doações para comunidades carentes do município”, conta Marcus.

Pâmella destaca também a revisão feita no projeto Ciclo Saúde:

“De forma conservadora suspendemos em março todas as atividades presenciais da Fundação Vale. Um dos nossos programas, o Ciclo Saúde, que fortalece as Unidades Básicas de Saúde (UBS),  foi adequado para apoiar o combate à pandemia. Fizemos o Ciclo Saúde Covid-19, que atua em 32 cidades. Agora estamos apoiando 280 UBS no Maranhão, no Pará, em Minas e no Espírito Santo. Ao mesmo tempo em que a pandemia nos paralisa, ela nos motiva a mostrar o quanto a nossa atuação é importante. Não atuamos sozinhos, buscamos parceiros. É um esforço coletivo”.

Com a adaptação à realidade da pandemia, equipamentos e insumos do Ciclo Saúde passaram a ser voltados para proteger os profissionais de saúde e apoiá-los a identificar e tratar as pessoas infectadas com o novo coronavírus, num investimento da Fundação Vale de R$ 2,8 milhões. A previsão é entregar mais de 760 mil insumos e 6.900 materiais e equipamentos médico-hospitalares durante seis meses de duração da iniciativa.

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