Sangue por Votos

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Por René Ruschel, jornalista

O Brasil voltou a assistir à velha cena em que o sangue do povo pobre serve de palanque para políticos sedentos por poder.




A reunião de governadores aliados de Cláudio Castro realizada no Palácio Guanabara nesta quinta-feira, 30, não foi um encontro de líderes preocupados com a segurança pública, mas uma confraria de oportunistas que buscam, nas mortes de 121 pessoas, a chance de transformar tragédia em discurso eleitoral.

Sob o pretexto de “combater o crime”, esses governadores, entre eles Romeu Zema, Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado, Jorginho Mello e Eduardo Riedel, encontraram em Castro um espelho do populismo de farda e bala.

O governador do Rio, responsável pela operação mais letal da história do estado, posa como herói ao lado de corpos ainda sem nome. É a política do espetáculo, onde o sangue é o combustível da narrativa de força e o cadáver vira argumento de campanha.

Durante o encontro, o mineiro Romeu Zema reclamou que a ação policial estaria sendo “erroneamente considerada a mais letal”. “Deveria ser considerada a mais bem-sucedida”, afirmou, em um insulto brutal à dor das famílias das vítimas.

Já o goiano Ronaldo Caiado disse ter ficado “orgulhoso” do banho de sangue nas favelas. “Ô Cláudio, meus parabéns!”, empolgou-se, transformando a tragédia em motivo de celebração.

As frases dispensam análise. Revelam a alma de quem governa sem empatia e sem compromisso com a vida.

“Bandido bom é bandido morto”, repetem, sem vergonha, enquanto mães enterram filhos e o Estado exibe o número de mortos como troféu.

Falam em “defesa da lei”, mas esquecem de que a lei não autoriza o Estado a matar.

A polícia existe para proteger, não para executar. A violência policial não resolve o crime, multiplica-o. E quem conhece minimamente a realidade das favelas sabe que entre os mortos há trabalhadores, há jovens e há inocentes.

O encontro no Palácio Guanabara foi o retrato da hipocrisia. Governadores que ontem falavam em “Consórcio da Paz” hoje celebram uma chacina. Não há política de segurança, há campanha antecipada.

O verdadeiro comando do crime não está nos becos da Penha nem no morro do Alemão, mas no asfalto, nos escritórios refrigerados, nos gabinetes, nos financiadores e políticos que alimentam o ciclo de miséria e violência.

Violência gera violência e o Estado que mata se iguala ao criminoso que persegue. Usar o sangue dos inocentes como degrau eleitoral é a mais cruel das estratégias.

Esses governadores não querem paz, querem votos. É o preço dessa ambição.

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