Por Carlos Eduardo Alves, jornalista
Ainda é cedo para algumas previsões eleitorais, mas desde já se desenha que São Paulo, ainda muito mais que em disputas presidenciais anteriores, tende a ser quem definirá o resultado da eleição nacional. E não é pela obviedade de ser o Estado mais populoso e rico do País. Mas o que se avizinha é no mínimo uma pequena diminuição da avassaladora vantagem de Lula em 2022 em algumas importantes unidades nordestinas da Federação, embora seja claro que o petista deve vencer e bem naquela região. É que a lavada do pleito precedente não está caminhando para ocorrer na mesma taxa.
O que pouca gente percebeu é que Lula, assim como Haddad na disputa estadual, venceram na cidade de São Paulo em 2022. Isso compensou em grande parte a vantagem que o oponente da extrema-direita obteve no Interior do Estado. No final, Bolsonaro abriu 10 pontos percentuais “apenas” de dianteira na urna paulista, bem menos do que planejara. E esses votos do PT em São Paulo ajudaram decisivamente para o resultado final, apertado, convém lembrar.
É sabido que Haddad não pretendia disputar o Palácio dos Bandeirantes agora. Por várias razões, talvez a principal seja a de que será muito difícil sua vitória diante de um governador que, gostemos ou não, ostenta bom índice de aprovação e conta com a prestimosa ajuda da mídia local, baluarte incansável na labuta de esconder suas muitas enganações.
Mas Haddad mais uma vez provou sua lealdade a Lula e abriu mão de outras perspectivas para atender o chamado do presidente da República. Alguns dos líderes estaduais do PT, registre-se, fizeram cara de paisagem e não se dignaram a disputar governos estaduais, com o que auxiliaram mais Lula do que com comodas postulações ao Senado. Fica marcado no caderninho, mas isso já parece jogo jogado.
Haddad tem condições de, no mínimo, repetir o desempenho anterior e ajudar Lula em São Paulo. Tem a mostrar excelentes números e políticas no Ministério da Fazenda, é muito melhor debatedor do que Tarcísio e suas obviedades e tem argumentos mais do que suficientes para nacionalizar o debate entre as entregas da gestão lulista e os crimes da administração Bolsonaro.
Não será fácil, será submetido a um cerco feroz de mídia, mas na campanha pode dar um bom susto no candidato da extrema-direita em São Paulo.
Para quem lê pesquisas com atenção nos detalhes, um horizonte pode se abrir para Haddad. A aprovação de Tarcísio permanece alta, é verdade, mas com sinais declinantes. Mesmo a bandeira da segurança pública, sempre cara aos fascistas e ao eleitorado paulista, não é um seguro para o conservadorismo.
A sensação de insegurança é grande no Estado e apesar do acobertamento da mídia, a cada dia se revela um novo ato de brutalidade da Polícia de São Paulo. Execução de inocentes pobres na periferia da Grande SP faz parte do cotidiano dessa gente. Estão matando trabalhadores, não bandidos.
Enfim, se houver a reedição da lavada no Nordeste, melhor ainda. Mas todos os caminhos estão, a preços de hoje, levando a que a esquerda dependa agora mais do que dependeu em 2022 do resultado de Lula e Haddad no maior colégio eleitoral do Brasil. Os dois candidatos são bons, têm resultados a apresentar.
Agora depende de uma campanha sem erros, empenho da militância e, principalmente no caso específico de Haddad, de apresentar propostas concretas para desmontar o discurso que só a violência resolve o problema da segurança pública.
É um velho desafio para a esquerda, mas talvez seja a oportunidade para mostrar à população que o aparelho policial continua prendendo e matando, mas que a violência não é vencida por ali.







