Por Ulisses Capozzoli, jornalista –
O escritor e Prêmio Nobel português José Saramago (1922-2010) teria dito que “mais de quinhentos anos depois o Brasil continua reclamando de Portugal”. O nome desse legado é história, a equação que processa as relações humanas ao longo do tempo. Dos três tempos do tempo, o que autoriza a pensar numa história do futuro a partir de uma previsão da equação histórica. O tempo é algo como o espírito da história.
No caso de Portugal há, como demonstra Fernando Pessoa, uma saudade do futuro. Do que poderia ter sido e não foi. Até porque Portugal fez, em curtíssimo período de tempo, a exploração da Terra que está na base da Revolução Científica do século 17, ainda que não se tenha reconhecimento disso.
Os feitos portugueses, nesse caso, incluem a navegação estelar, obra do cosmógrafo Pedro Nunes (1502-1578) para a navegação do “mar-oceano” como o Atlântico era conhecido, para se opor ao Mediterrâneo, mar interior em que se navegava por rumo e estima, o que significa dizer, “a olho” porque de qualquer maneira se chegaria à costa.
Além disso Portugal desenvolveu uma maravilha chamada “caravela” com calado baixo que permitia exploração do estuário de rios no longo do fascinante costeamento da costa africana. No mar, a caravela não tinha páreo para sua leveza e velocidade, navegando à bolina (contra a direção do vento dominante) pela adoção do pano latino, a vela triangular, em substituição ao antigo pano redondo.
Assim Portugal refutou temporariamente o passado, neste caso a idéia aristotélica contida na expressão “zona tórrida”, para se referir ao equador que, na concepção dos antigos, não poderia abrigar vida.
Portugal teve ainda D. João de Castro (1500-1548) quem, com base no mesmo Aristóteles e sua teoria de gravitação (tendência das coisas pesadas de cair no centro do mundo) demonstrou a esfericidade da Terra, provada por outro português, Fernão de Magalhães (1480-1521) autor da primeira circunavegação, ainda que sob bandeira espanhola.
Com esse potencial, que o levou a influir profundamente na história do Japão, pela introdução local de armas de fogo, por que Portugal não teve futuro? Essa é uma pergunta de interesse estratégico para o Brasil neste momento.
Há quem diga que a corrupção é a resposta a essa questão. A corrupção como a componente principal num certo conjunto de forças. A corrupção como implosão do futuro e a consequente saudade do futuro referida por Fernando Pessoa.
Num breve retorno ao passado a história de Portugal, como estado nacional, começou no final da tarde de 14 de agosto de 1385, com a batalha de Aljubarrota, opondo tropas portuguesas com a presença de aliados ingleses, contra espanhóis, com vitória portuguesa liderada por D. João I. O que inclui o infante D. Henrique (1394-1460), seu filho, conhecido como “O Navegador” por ter incentivado as conquistas oceânicas, ainda que a famosa “Escola de Sagres”, a ele atribuída, não passe de pura mistificação num tempo em que a saudade do futuro já se manifestava em escritos do historiador Oliveira Martins (1845-1894).
A figura estratégica na criação da marinha portuguesa foi, de fato, um genovês Manuel Pessagna, “o almirante –mor” e seus “onze homens do mar”. O que D. Henrique fez foi uma “pilotagem”, em terra, das viagens de exploração iniciadas em 1415 com a conquista de Ceuta, no norte da África, onde, em 4 de agosto de 1578, morreu o rei português D. Sebastião, sem sucessor direto o que fez com que Portugal se submetesse, temporariamente, à Espanha (1580-1640) dando origem a outro mito para o que temos correspondência no Brasil: o Sebastianismo.
Nessa batalha os portugueses foram dizimados e, de D. Sebastião, aos 24 anos, não se encontrou nem o corpo. O Sebastianismo foi um mito de que o rei voltaria, a qualquer momento, para liberar Portugal da Espanha.
A contrapartida, no Brasil, é do mesmo pensamento mágico: alguém, com poderes mágicos e não tocado pelos defeitos do mundo, fará uma redenção definitiva, o que, de muitas maneiras, inclui Collor de Mello, com sua “única bala” e Jair Bolsonaro, “o mito”. É a história profunda, de que Saramago desdenha, que nos liga a Portugal na leitura oiética de Chico Buarque em “Fado Tropical”, onde se canta: “Ai, esta terra ainda vai cumprir o seu ideal/Ainda vai tornar-se um imenso Portugal”.
E quanto à corrupção em Portugal? Aqui, duas referências. Uma delas reunida num clássico da navegação, “História Trágico-Marítima” coleção de naufrágios e histórias tristes do mar publicada pela primeira vez, em dois volumes, em 1735/6 por Bernardo Gomes de Brito. A eventuais interessados tomo a liberdade de indicar a saga da Nau São João, retornando da “Carreira das Índias” abarrotada de carga e com calafetação inadequada (por ganância e desfaçatez, componentes da corrupção) em que viajavam um nobre português e sua família.
A leitura desse naufrágio, em que o “língua” (intérprete), é o primeiro a trair os poucos sobreviventes, ainda enche de lágrimas os olhos de um leitor mais emotivo.
Um segundo caso, para nos restringirmos a um apenas um par deles. O Tratado de Methuen, ou “Tratado dos Panos e Vinhos”, assinado com a Inglaterra em 27 de dezembro de 1703 que não só foi uma via de contrabando intenso de ouro e prata retirados do Brasil, como um sufocamento da agricultura portuguesa, por submissão de interesses comerciais ingleses.
Para resumir: a primeira pessoa que John Methuen, embaixador extraordinário inglês, subornou para fazer valer seus propósitos foi alguém que sabia mais que o próprio rei Pedro II (1648-1706): O padre confessor dele.
Portugal é tanto a origem quanto um espelho do Brasil, num momento de crise que se considerava superado. Tudo isso para uma sugestão. Que se criem, em inúmeras cidades, por iniciativas de pessoas comprometidas com a cultura e a dignidade, entre elas professores aposentados, clubes de astronomia e cultura para abrigar conhecimento, reflexão e cultura como alternativa possível.
Digo isso pelos 25 anos de experiência com a criação de uma unidade deste tipo e que, agora, tratamos de reformular para enfrentar os desafios. Se não quisermos, em curto espaço de tempo, também cultivarmos saudade do futuro.







