Por René Ruschel, jornalista
A cena foi rápida, mas suficiente para incendiar as redes sociais.
Enquanto o senador Flávio Bolsonaro tentava convencer seus pares sobre o encontro com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro após sua prisão, o senador Sergio Moro, do PL, estava visivelmente desconfortável.
O ex-juiz da Lava Jato, que construiu sua carreira política embalado pelo discurso da moralidade pública, parecia assistir em silêncio a um roteiro que conhece bem demais.
Durante anos, Moro se notabilizou por transformar qualquer suspeita em discurso contundente sobre ética, responsabilidade e combate à corrupção.
Bastava um indício para surgirem entrevistas coletivas e declarações inflamadas em defesa da “verdade dos fatos”.
Agora, diante de provas e versões apresentadas contra um aliado político o rigor parece ter dado lugar à conveniência.
Moro já esteve do outro lado dessa relação.
Quando deixou o governo do ex-capitão, o então ministro da Justiça apontou a proteção política ao entorno da família presidencial, inclusive Flávio Bolsonaro, como um dos elementos centrais de seu rompimento.
Á época, o Zero Hum aparecia como símbolo do desgaste que corroía o discurso anticorrupção do governo. Hoje a realidade política mudou.
Pré-candidato ao governo do Paraná, Moro aposta na proximidade com o bolsonarismo e já trabalha para fortalecer o nome de Flávio em uma eventual disputa presidencial.
A antiga indignação moral parece ter sido substituída pelo pragmatismo eleitoral. Quem sabe seja por isso que a expressão abatida tenha repercutido tanto.
O desconforto registrado pelas câmeras resumiu, em poucos segundos, a trajetória de um personagem que saiu da condição de juiz implacável para aliado silencioso de práticas que dizia combater.
Durante os 580 dias em que Lula permaneceu preso em Curitiba, acompanhei o cotidiano da vigília e os desdobramentos políticos daquele período para a revista CartaCapital. .
Tentei entrevistar Sergio Moro. Procurei advogados, magistrados e colegas do então juiz para compreender o personagem transformado em símbolo nacional do combate à corrupção e não consegui.
O silêncio parecia quase absoluto. Muitos evitavam falar, outros admitiam, reservadamente que havia medo de contrariar o homem tratado nos bastidores como um “rei”.
A blindagem em torno de Sergio Moro já revelava algo incompatível com a essência da magistratura.
Juízes não podem inspirar temor político, culto personalista ou devoção pública. Magistrados julgam processos e não constroem tronos.
Na política, algumas biografias se tornam prisioneiras das próprias contradições. Sergio Moro parece determinado a confirmar essa regra.
O ex-juiz trocou a toga da indignação pelo silêncio conveniente de quem já não fala como magistrado, mas calcula como candidato.
Sua articulação para disputar do Paraná expõe uma metamorfose cada vez menos disfarçada.
O herói da imparcialidade agora ensaia discursos, costura alianças e mede palanque. A toga ficou no passado.
No lugar dela surge um político profissional como tantos outros, embora ainda exista quem tente vendê-lo como exceção.







