Sinal de fraqueza, não de força: a análise de Arbex Jr. sobre o ataque à Venezuela

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O sequestro de Maduro pode ser uma “Vitória de Pirro” – um sucesso imediato que acarreta custos devastadores a longo prazo

Por Francisco Ladeira, compartilhado de GGN




Foto: U.S. Attorney General

Entre as múltiplas análises sobre as agressões dos Estados Unidos à Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro presentes no debate público, chamou a atenção a hipótese levantada pelo jornalista José Arbex Junior em entrevista ao Brasil 247.

Para Arbex Jr., ao contrário do que parece, as ações agressivas dos Estados Unidos na Venezuela não são demonstrações de força, mas sinais de desespero e fraqueza de um império em declínio que perdeu sua capacidade de persuasão (soft power) e agora depende exclusivamente da força bruta (hard power). Segundo o jornalista, o imperialismo estadunidense está se retraindo de uma postura “globalista” – ou seja, de intervenções em todo o planeta – para uma política “localista”, focada no hemisfério ocidental, especificamente na América Latina.

Desde 1823, a política externa da Casa Branca foi erguida a partir da chamada “Doutrina Monroe” e seu lema “América para os americanos”. Basicamente, significava o seguinte recado dos Estados Unidos às potências europeias: “Se vocês querem colonizar África, Ásia e Oceania, colonizem. Mas não venham para as Américas, nosso quintal”. Isso foi caracterizado como uma política “isolacionista” dos Estados Unidos, no sentido de o país não se importar com o que acontecia no restante do planeta. Estavam preocupados apenas com sua zona de influência.

Essa diplomacia prevaleceu até a Segunda Guerra Mundial. Após 1947, com a “Doutrina Truman”, para todos os pontos do planeta onde o comunismo se expandisse os Estados Unidos estariam lá para combatê-lo. Dessa forma, Washington sairia de uma agenda local – centrada nas Américas – para uma diplomacia “globalista” – de intervenção em todo o planeta.

Com o colapso da União Soviética, e os Estados Unidos despontando como única superpotência hegemônica, intensificaram-se suas ações imperialistas. Em certa medida, a “Doutrina Bush”, do início do século XXI, representava a continuidade da “Doutrina Truman”, substituindo “comunismo” por “terrorismo”.

Entretanto, nos últimos anos, diante dos fracassos e perdas do imperialismo na Ásia (Ucrânia e Irã, principalmente) e na África (com a diminuição de bases militares no continente), a realidade geopolítica baseada na “Doutrina Truman” chegou ao fim. O imperialismo não está em posição de expansão, mas de recuo. Diante desse contexto, a ideia de “América para os Americanos” volta com força, e os Estados Unidos tentam garantir o controle total sobre a América Latina. Trata-se da “Doutrina Monroe 2.0”.

Sobre os motivos geopolíticos das agressões dos Estados Unidos à Venezuela, Arbex Jr. aponta razões estratégicas. O primeiro motivo é energético, pois a Venezuela possui a maior reserva de petróleo do mundo, fundamental num momento em que o petrodólar é desafiado pelo comércio em moedas chinesas. A segunda razão está relacionada à geopolítica regional: desestabilizar a Venezuela é uma forma de asfixiar Cuba, que depende do petróleo venezuelano, e de destruir o símbolo da “Revolução Bolivariana”. Por fim, a terceira razão é o acesso a outros recursos naturais, além do petróleo, como terras raras, ouro e biodiversidade.

Já no cenário interno, as agressões à Venezuela visam tirar o foco do caos doméstico de Trump, incluindo escândalos (caso Epstein), falta de consenso no Congresso e o congelamento do salário mínimo federal há décadas, o que gera instabilidade no país.

A partir do conceito de “Doutrina do Choque”, Arbex Jr. avalia que as ações de Trump buscam causar um impacto psicológico paralisante na população venezuelana para implementar mudanças radicais enquanto o país está em choque. Por outro lado, a acusação de narcotráfico contra Maduro é vista como uma “piada de mau gosto”, uma vez que, historicamente, os Estados Unidos utilizam esse pretexto para intervenções militares, enquanto perdoam aliados comprovadamente envolvidos com o tráfico.

Arbex Jr. lembra que os acontecimentos na Venezuela são uma advertência direta ao Brasil. Nesse sentido, ele faz três sugestões para o presidente Lula: 1) Exercer sua liderança através do soft power e da articulação diplomática; 2) Fortalecer os BRICS e a parceria com a China (Nova Rota da Seda) para criar um escudo de soberania; e 3) Buscar independência tecnológica (satélites e redes próprias) para evitar a vassalagem.

O entrevistado também destaca que Washington perdeu a hegemonia cultural e a legitimidade democrática. Sem um discurso convincente, restou apenas o “Modo Gaza”: a imposição unilateral pela violência, ignorando instituições como a ONU e o Direito Internacional. O “soft power” – capacidade de conseguir objetivos políticos por meio das ideias, via indústria cultural, por exemplo – é substituído pelo “hard power” – uso da força.

José Arbex Jr. conclui a entrevista afirmando que o mundo vive uma transição perigosa para uma multipolaridade instável. O sequestro de Maduro pode ser uma “Vitória de Pirro” – um sucesso imediato que acarreta custos devastadores a longo prazo para a própria estrutura de poder dos Estados Unidos e para a estabilidade global. Ele enfatiza que ainda é cedo para saber se houve traição militar interna na Venezuela ou acordos secretos entre potências (Estados Unidos, Rússia e China) que facilitaram o sequestro do presidente venezuelano.

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Francisco Fernandes Ladeira é doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador de pós-doutorado do Instituto Federal de Minas (IFMG) – campus Ouro Preto. Autor dos livros “A ideologia dos noticiários internacionais” (volumes 1 e 2)

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