E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, recorda aqui um grande baluarte do carnaval, Haroldo Costa, que viveu 95 anos para imortalizar sua Escola Salgueiro e o carnaval.
O fato é que tive a oportunidade de estudar em detalhe a trajetória de Haroldo Costa (1930-2025), e não fui adiante. Um livro dele, o “Salgueiro: 50 anos de Glórias”, eu li com a atenção de que dispõe alguém a escrever uma tese.
Chamou-me a atenção o formato escolhido pelo autor para descrever os cinqüenta anos de Salgueiro. Apesar de esquemático, o resultado era uma crônica bem viva dos desfiles, com seus protagonistas e antagonistas, escrita da perspectiva de quem vivenciou tudo aquilo de perto.
“Desisto do júri, vou ser salgueirense”, foi algo assim que Haroldo Costa disse, talvez ainda na década de 1960. E continuou sendo encarnado e branco, lua sobre sangue, até o fim. Eu não consegui deixar de ser Vila Isabel. Apenas nutri fantasias pelo Salgueiro. Quando eu deixar o Salgueiro…
Carnaval, desengano. Fernando Pamplona, Arlindo Rodrigues, Joãosinho Trinta, Maria Augusta Rodrigues, carnavalescos de boa cepa. Muita gente saída da Escola de Belas Artes, muita gente ligada ao Salgueiro. Primeiros desfiles tematicamente afros. Convencer fulano a aceitar a fantasia de palha, nada de lantejoula nem de peruca. Forte impacto visual. Grandes mediadores culturais.
Eram eles seixos de Exus, davam um passo decisivo para o encontro entre a alta cultura e a baixa cultura, era assim que eu pensava.
Digo “era assim que eu pensava”, porque o rio é largo à beça. Atravessá-lo por vezes atravessa o samba.
Época pré-Sambódromo. As baianas giravam mais devagar, a cadência era mais lenta. Talvez fossem tempos em que fizessem muito sentido observações como a de Roberto da Matta (“Marginais, malandros e heróis”) a respeito do rito de inversão do Carnaval, entendido em larga medida como tendo um ponto alto no desfile de escolas de samba. A decoração. A montagem das arquibancadas. A construção de uma cidade de sonho sobre a cidade da dura realidade. Pra tudo se acabar na quarta-feira.
Haroldo Costa acaba sendo o meu bolinho de laranja, o meu condutor de memórias, um estopim para lembranças cheias de pó e purpurina, descosidas de tanto guardadas da tese, em resumo. Assim, eu revisito a modesta bibliografia que li sobre Carnaval. Entre outros, Sérgio Cabral, Claudia Mattos, coisas de antropologia, outras festas tais como a do Círio do Nazaré (de quem? Não me lembro!). Da Matta, um Bahktin Tupiniquim. À época, Bakhtin (em especial, seu livro sobre Rabelais) exercia forte influência sobre a academia. Russo, NE?
Falava-se muito de “carnavalização” do texto e da vida, de ritos de inversão, de válvulas de escape. Isso, para a gente que ainda tinha na pele as memórias de uma ditadura, era quase uma linguagem da fresta (outro livro de destaque para quem estudava o período, escrito por Gilberto Vasconcellos), isto é, uma linguagem com a qual poderia se falar, mas sempre pela tangente.
E não era a voz e o corpo do compositor popular que transparecia em épocas de “sufoco”? – outra palavra muito presente na época. Seja como for, poderia se afirmar ao mesmo tempo em que se negava, se fosse o caso.
E assim o compositor popular dava conta do recado, mesmo com o sinal fechado, em muitas cifras e cifrões. Porque o compositor popular não quer nem pode ser anônimo. Ele azeita uma imensa engrenagem que vai desde a gravação até a divulgação. Azeita ou azeitava?
Na hora de escolher o tema, deixei Haroldo Barbosa e fiquei com Aldir Blanc para escrever uma tese, uma tesinha, embora eu tenha empenhado bastante tesão ao escrevê-la. Já se passaram quase quinze anos, quinze carnavais desde que eu a defendi. Meu filho tinha cerca de um mês, minha mulher não pode ir à defesa. Alguns amigos meus foram. Levei meus pais a tiracolo. Disse que eles, que me levaram tanto vezes à escola, desta vez eram levados por mim.
Em retrospectiva, confesso não ter me preparado à altura para um evento de tal importância. Fiz graça diante de um fuzilamento – simbólico, mas ainda sim fuzilamento. Momentos de tortura psicológica quando se deixa de ouvir direito, toda pergunta tem muitas portas. Há tantas ordens na desordem. Muito jogo de cena. Muita vaidade. De modo que, se olharmos bem, tem-se a impressão que o dono da tese pode até sair de cena que a conversa é capaz de girar sem ele.
Depois da defesa, bebi cerveja mais os amigos e meus pais num shopping. Depois voltei ao meu humilde lar. Eu era doutor.
Uns dias depois da defesa, meu orientador, em um programa de tevê, citou meu trabalho sobre Aldir Blanc. Talvez a memória ainda estivesse viva na cabeça dele. Eu não vi o programa, não posso garantir, mas foi o que me contaram.
No início da pandemia, Aldir Blanc se foi. Ano que vem, ele completa oitenta anos. E o que eu tenho a ver com isso? Será que cairei na esparrela de lançar a tese em livro? A saber.
Haroldo Costa viveu bastante. E viverá ainda mais nas nossas memórias salgueirenses de todas as escolas de samba.

Foto do post: Daryan Dornelles
Sobre o autor
Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.
Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.







