O encontro proporcionou um contexto no qual a contradição da política racista de Trump com os elogios a atletas latino-americanos foi revelada
Por Michel de Paula Soares, compartilhado de BdF
Foto: Aos 35 anos, Lionel Messi eleito cinco vezes melhor jogador do mundo, ganha sua primeira Copa Mundo e o tricampeonato para a Argentina | Crédito: Franck Fife /AFP
Prezadas leitoras e leitores, estava eu finalizando uma coluna sobre a boxeadora cubana Namibia Flores quando fui surpreendido, nesta manhã, pela imagem que circularam nas redes, do encontro de Leonel Messi com o abominável presidente estadunidense. Escrevo aqui com revolta e tristeza, não por ser fã de Messi, mas por gostar de futebol e, como torcedor do Corinthians, acreditar na potência do futebol enquanto fonte de solidariedade social, identidade coletiva e participação democrática.
O encontro se deu por conta de um evento na Casa Branca, em homenagem ao título do Inter Miami, conquistado na liga de futebol estadunidense em 2025. Além de Messi, outros latinos como o uruguaio Luis Suárez (que foi confundido por Trump como jogador brasileiro) e o argentino Rodrigo de Paul estavam presentes. Após um pronunciamento sobre os ataques ao Irã, aplaudido por todos os presentes, Trump conversou e brincou com Messi, representante da equipe, que presenteou o presidente com um troféu em forma de bola de futebol, onde se lia “Freedom to Dream” (Liberdade para Sonhar).
O encontro proporcionou um contexto no qual a contradição da política racista de Trump com os elogios a atletas latino-americanos foi revelada para todos verem. Não há nada de positivo em associar a própria imagem a um genocida assumido, assassino de guerra, corrupto investigado por casos de pedofilia e responsável pela perseguição e morte de imigrantes latinos nos Estados Unidos.
Mas talvez Messi e Suárez não compartilhem o sentimento de orgulho, com seus milhares de fãs que vivem nos Estados Unidos, por serem latino-americanos. Talvez estejam apenas cumprindo ordens, como cumprem os capatazes, capitães do mato e soldados de guerra. Ou talvez não se importem com nada além do próprio poder e enriquecimento. Nada disso reduz a responsabilidade de ambos. Milhões de cidadãos latinos que vivem nos Estados Unidos estão passando pelo medo e clausura que a política imigratória estadunidense tem imposto. Muitos se sentirão traídos, ou, ao menos, não representados pelo sorriso acanhado de Messi, ao lado do sisudo presidente.
Desculpem-me pelo saudosismo, mas o futebol já teve melhor representado. Jogadores como Maradona, e o próprio Pelé, serviam como símbolos de toda uma comunidade, pontos de convergência, atuavam como pontes para estabelecer identidades coletivas e expressar sentimentos de toda uma nação. A sensibilidade democrática cultivada por estes jogadores, assim como por Sócrates, Raí e Juninho Pernambucano, para ficar com alguns exemplos, também gerava um profundo compromisso com a mudança social. Por esse, e por outros tantos motivos, Messi não pode ser comparado aos grandes do futebol.
Minha colega Barbara Pires, em um texto publicado nessa coluna em junho de 2025, já havia afirmado, com a firmeza necessária, algo sobre a relação do futebol com a política estadunidense, e retomo aqui para finalizar a coluna de hoje:
“Não há placar, premiação ou troféu que compense ignorar, em meio aos gritos e às festas da torcida para ver seu time jogar, os gritos e os prantos das famílias que estão sendo destruídas por uma política migratória de supremacia racial”.
Talvez, quem possa redimir o futebol seja a crescente participação feminina.
Na próxima semana, a publicação sobre a Namibia.
*Michel de Paula Soares é doutor em Antropologia pela Universidade de São Paulo, pesquisador do LabNAU/USP, coordenador do Boxe Autônomo e responsável pela coluna Esportes Rebeldes.
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
Editado por: Nathallia Fonseca







