Sobre uma tragédia

Compartilhe:

Por Marcelo Veras, psiquiatra e psicanalista*

Soube da tragédia que atravessou a família Frateschi: o filho, em um surto psicótico, matou o pai. Não conheço pessoalmente, tampouco conheço as circunstâncias exatas desse horror. Mas sei o suficiente sobre a loucura para afirmar que, quando ela atinge tal dimensão, raramente se trata de uma ética do mal.




Há pessoas que nunca tiveram um surto e dormem em paz após autorizar o massacre de milhares de crianças em uma guerra. O mal consciente é de outra natureza.

Como diretor de hospital psiquiátrico, por muitos anos, acompanhei de perto crimes cometidos por pessoas em sofrimento mental. O mais trágico é perceber que esses acontecimentos, quando vistos de fora, parecem dramas familiares com vítimas e algozes. Mas quem conhece de dentro sabe: na lógica da psicose não há o “crime útil”.

Ninguém lucra. Um filho pode matar um pai por ganância, homens se destroem por ódio ou cobiça, mas os atos cometidos em delírio pertencem a outro registro, o do impossível de suportar.

Lembro-me de uma jovem que matou o próprio filho, nos tempos em que eu dirigia o Hospital Juliano Moreira. O olhar dela permanece em minha memória: não havia maldade, apenas o desespero psicótico de quem não compreende o sentido daquilo que viveu.

Sempre me perguntei como reagiria se algo assim acontecesse com um dos meus. Quisera dizer que é aí que habita o mal, mas não posso. O verdadeiro mal é aquele praticado com plena consciência, movido por um ódio deliberado. A psicose é da ordem da desrazão; o mal, da vontade.

A tragédia da família Frateschi me faz pensar na loucura de Ájax. Enlouquecido por Atena, o herói mata um rebanho de bois crendo estar punindo seus inimigos; ao recuperar a razão, envergonhado, tira a própria vida. Assim também, às vezes, a loucura nos mostra que a violência humana não nasce sempre da crueldade, mas de um colapso insuportável do sentido.

Hoje, diante dessa dor, não vejo um crime, vejo uma tragédia. E diante da tragédia, o único gesto possível é o da solidariedade.”

*Foi diretor do Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira e da Escola Brasileira de Psicanálise. É também autor dos livros: “A loucura entre nós”, “Selfie, logo existo”, “Ruídos e silêncios da vida confinada” e “A Morte de Si”.

O Bem Blogado precisa de você para melhor informar você

Há sete anos, diariamente, levamos até você as mais importantes notícias e análises sobre os principais acontecimentos.

Recentemente, reestruturamos nosso layout a fim de facilitar a leitura e o entendimento dos textos apresentados.
Para dar continuidade e manter o site no ar, com qualidade e independência, dependemos do suporte financeiro de você, leitor, uma vez que os anúncios automáticos não cobrem nossos custos.
Para colaborar faça um PIX no valor que julgar justo.

Chave do Pix: bemblogado@gmail.com

Tags

Compartilhe:

Categorias