Suco de laranja brasileiro pode infernizar Donald Trump

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Sem concorrentes capazes de substituir rapidamente o produto brasileiro, suco de laranja pode se tornar instrumento de barganha nas negociações com os EUA

Por Paulo Henrique Arantes, compartilhado de Fórum




US President Donald Trump departs Palm Beach en route to the White House
O presidente dos eUA, Donald Trump – (Foto por JIM WATSON / AFP)

Há condutas que teimam em persistir, mesmo quando a realidade não as recomenda. Um bom exemplo são as negociações tarifárias com o governo dos Estados Unidos. Quem, em sã consciência, acredita que tratativas comerciais com as equipes sob Donald Trump – ou sob Marco Rubio, tanto faz – observarão critérios técnicos? O Brasil precisa se afirmar como nação soberana e, mais que isso, como força mercantil internacional. Para tanto, deve jogar o jogo em que a única regra é a imposição de perdas ao contendor.

Não deve causar espanto a sugestão de o governo brasileiro taxar a exportação de suco de laranja aos Estados Unidos em caráter temporário, até que se encerre o período obscurantista de Donald Trump na Casa Branca. Que tal 25%? Isso penalizaria os produtores brasileiros antes de tudo? Há motivos para se crer que não e, em paralelo, a medida causaria um miniterremoto no consumo da população americana, contribuindo com o já consolidado derretimento político do presidente destemperado.

Mais de 70% do suco de laranja importado pelo Estados Unidos saem do Brasil, e mais de 50% do consumido. Uma taxação da exportação brasileira causaria uma disparada de preços nas gôndolas americanas, pois o Brasil não tem concorrentes globais do produto. Seria uma cutucada e tanto.

Apregoa-se o risco de graves sanções americanas caso o Brasil venha a retaliar o tarifaço trumpista com algo desse tipo. A taxação da exportação do suco de laranja poderia levar os Estados Unidos a taxarem setores ora preservados e a congelarem os canais de diálogo técnico abertos pelo Itamaraty e pela Camex. Mas, ora, há algum sinal de que os argumentos diplomáticos e técnicos serão considerados pelo governo americano? O que resta evidente é justamente o contrário: não há qualquer respaldo técnico às tarifas impostas a Brasil, e sim motivações políticas, como Rubio deixa evidente. Insistir em negociação técnica com essa turma é dar murros em ponta de faca.

Não há fornecedores no mundo capazes de substituir rapidamente o volume de suco de laranja exportado pelo Brasil. Uma taxa de exportação teria a quase totalidade do seu custo repassada aos consumidores americanos, e não aos produtores brasileiros – o ônus político ao governo americano seria sintomático. Na economia internacional, isso se relaciona com o chamado poder de mercado de um grande exportador: um país que domina a oferta de um produto pode, em determinadas circunstâncias, impor uma taxa de exportação sem perder muito volume vendido, porque os compradores têm poucas alternativas.

No caso específico do suco de laranja, o Brasil situa-se nessa posição, sendo, de longe, o maior exportador mundial. Outros produtores, como México e Espanha, não têm escala suficiente para substituir rapidamente o volume brasileiro.

É preciso considerar a hipótese aventada pela coluna como economicamente defensável: o suco de laranja talvez seja um dos poucos produtos em que o Brasil dispõe de poder de mercado suficiente para considerar uma taxa de exportação como instrumento de barganha. O que permanece em aberto é uma questão empírica: qual parcela do custo seria efetivamente absorvida pelos compradores americanos e qual parcela recairia sobre a cadeia produtiva brasileira. Se a maior parte do ônus ficar do lado americano, a medida se torna bastante atraente do ponto de vista estratégico.

Como disse Guimarães Rosa, o que a vida quer é coragem.

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