E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero” nos transportra ao passado da década de 80 do século XX, quando da Guerra das Malvinas, erm 1982, e de um jogo de cartas jogado por uma criança de 10 anos.
Acompanhe o nosso cronista nesta viagem no tempo:
Eu tinha lá meus dez anos na época da Guerra das Malvinas. Eu não soube por que a Argentina entrou em guerra com a Inglaterra por uma ilha de nada ao extremo do Atlântico Sul, ninguém me disse nem eu mesmo perguntei a ninguém.
Para mim e para muitos, a época das Malvinas fica indelevelmente ligada a uma bomba de São João maior e mais perigosa que o Cabeção-de-Nego. A “Malvina” era quase uma banana de dinamite, capaz de arrancar os dedos dos desavisados. A gente acendia aquelas bombas para ver o tamanho do estrago que elas fariam depois do estrondo. Latas subiam e tal e voltavam chamuscadas no fundo. O que quero dizer com isso é que há algo de curiosidade no jogo da destruição. Humano, demasiadamente humano feito o cheiro de pólvora e um zumbido no ouvido.
Enfim, repito: eu, no alto da minha ignorância, não sabia por que a Argentina invadiu as Malvinas, uma ilha lá do extremo Atlântico Sul que pertencia à Inglaterra e que se chamava Falklands. Eu não sabia que o delírio patriótico argentino, bancado por um governo militar, iria lhe custar caro. Eu não sabia direito nem do político-ex-cowboy-de-filmes-de-segunda-linha Ronald Reagan nem da Margaret Thatcher, apesar de achar cafonérrimo o penteado da velha senhora. E eu não sabia que uma declaração de guerra é capaz de galvanizar forças heterogêneas. Eu não sabia o que era Neoliberalismo. Eu só sabia que uma Malvina era uma bombinha perigosa.
Neste conflito das Malvinas, a Argentina foi derrotada de forma humilhante. Não deu nem para saída. Imagino que o orgulho ferido do “hermanos” seja assunto até hoje. Logo eles, que têm um suposto histórico de espírito guerreiro. Pelo que entendi, despejaram soldados argentinos praticamente sem treinamento nem equipamento nem mantimentos em um ambiente inóspito em um frio de lascar. Como manter posição em tais condições contra um inimigo mais bem preparado?
Tudo isso aí acima eu pensei a posteriori, mais velho. Do conflito das Malvinas houve um detalhe que não me passou despercebido do menino que eu era, entretanto. Havia um caça britânico chamado Vulcan, conhecido por mim por intermédio do jogo de cartas Super Trunfo. Alguém se lembra dessa fase? Eu pegava o baralho e tentava decorar os pontos fortes e fracos de cada carta, em um exercício ambicioso de decoreba. O Vulcan não era lá o grande caça das galáxias, era um intermediário. Mas para mim era fácil reconhecer as suas asas.
Foi assim que reconheci o Vulcan em uma cartada da história. A aeronave que ia lá para as Malvinas, invadiu o espaço aéreo brasileiro e foi interceptada por caças da nossa força aérea, deu no jornal e no telejornal. Eu sorri por dentro porque, afinal de contas, tinha descoberto que jogar Super Trunfo prestava para alguma coisa.
Em Copa do Mundo de 1986, no México, Maradona driblaria meio time da seleção inglesa para fazer um dos seus gols antológicos. Na mesma partida, D10 já fizera um gol de mão – na época não havia VAR. A vitória argentina nesta partida se tornou uma espécie de compensação para a derrota nas Malvinas.
É incontornável a experiência da guerra na história de um país – especialmente quando revista a contrapelo. Dessa perspectiva, é uma sacada considerável o fato de que Juan Salvo (Ricardo Darin), protagonista da série distópica argentina “O eternauta” (Netflix, 2024), seja um veterano das Malvinas. Juan Salvo não poderia ser um militar de gabinete, daqueles que jogam War no teatro de uma guerra de verdade. Ele tem que ser alguém que viveu o trauma na pele.
Aliás, se descontarmos os efeitos especiais, que apesar de bem feitos, pelo menos em mim muito incômodo causam, é bem aceitável pensar nesta série como uma alegoria de nossos tempos: mudanças climáticas, ameaças estrangeiras, dependência tecnológica, lavagem cerebral, falta de solidariedade entre as classes devido aos tempos sombrios, arrocho como política econômica. E não só na Argentina, é claro. Mas lá também, como laboratório.
E como ficamos? Eu, com a minha carta de Super Trunfo na mão, acabei por entender um pouco mais o passado recente de meu país e do meu continente.
Essa mão eu acho que ganhei. Vamos para a próxima.
Sobre o autor
Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.
Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.







