Tarantino revela alterego e nostalgia pós-moderna no filme “Era uma Vez em… Hollywood”, por Wilson Ferreira

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Por Wilson Roberto Vieira Ferreira, publicado em Jornal GGN – 

Tarantino não só cria uma nostalgia hiper-real mas faz o filme mais metalinguístico de todos: a ansiedade do protagonista que não sabe o que fazer no futuro é o alterego do próprio diretor

Quentin Tarantino nunca frequentou uma escola de cinema. Ele viu filmes. Mais do que isso. O que move Tarantino é a sua nostalgia cultural pós-moderna: ele não sente saudades de eras e momentos em que viveu. É nostálgico por tudo que apenas viu em filmes, TV e livros. Saudades daquilo que não viveu. “Era Uma Vez em… Hollywood” (Once Upon a Time… in Hollywood, 2019) é o paroxismo de toda a sua carreira cinematográfica: ambientado na cena de 1969 em que a velha Hollywood do “Studio System” com seus Westerns no cinema e TV desaparecia para dar lugar a Bruce Lee, Steve McQueen, Roman Polanski e a beleza trágica de Sharon Tate – assinada em um massacre perpetrado pela “Família Mason” liderada pelo guru Charles Mason. Sob camadas e camadas de iconografia pop, alusões e intertextualidades, Tarantino não só cria uma nostalgia hiper-real mas faz o filme mais metalinguístico de todos: a ansiedade do protagonista que não sabe o que fazer no futuro é o alterego do próprio diretor – como se reiventar agora, se a nostalgia pós-moderna acredita que o cinema já mostrou tudo o que era mais importante?  




Quando perguntam para o diretor Quentin Tarantino se ele foi para alguma escola de cinema, ele responde: “Não, eu fui ao cinema e assisti filmes”. É essa educação cinematográfica através do projetor cinematográfico que expressa a cada filme: o cuidado na composição dos enquadramentos, a precisa marcação de cena em cada sequência, os longos planos com diálogos prolíxos, a forma como Tarantino enche cada plano com alusões à iconografia pop etc.

Mas também Tarantino é movido por uma nostalgia cultural. É o seu princípio orientador, sua ideologia: por assim dizer, uma nostalgia pós-moderna. Se no seu sentido estrito, nostalgia quer dizer sentir saudades de épocas e experiências que foram vivenciadas, como explicar a “nostalgia cultural”? – saudades de épocas e lugares que não foram vividos, mas apenas conhecidos através do cinema, livros e audiovisual.

Western Spaghetti dos anos 1960, filmes de Kung Fu com o astro Bruce Lee nos anos 1970, os clássicos cowboys da era de ouro do faroeste, as séries de TV dos anos 50 e 60, assim como toda a trilha sonora dessa época, da surf music e flower power californiano até os clássicos do funk e soul music da Motown, foram vistas por Tarantino através da cultura pop.

Assim como esse humilde blogueiro, com a mesma idade de Tarantino, o diretor não vivenciou essas épocas – vivia naquele momento a infância e pré-adolescência, incapaz de compreender ou fruir o contexto cultural daqueles tempos. Seu conhecimento é a posteriori, por meio de camadas e camadas de alusões, paráfrases e muita iconificação pop – estilização de épocas que não foram vividas.

O passado transformando em iconografia, assim como quando entramos em algum bar temático dos anos 1950, com máquinas jukebox, servindo hambúrgueres artesanais vintage.

É essa a ontologia cinematográfica de Tarantino (a nostalgia cultural pós-moderna) que se deve ter em mente ao assistir o seu último filme Era Uma Vez em… Hollywood (Once Upon a Time… in Hollywood, 2019). De início, as reticências do título são uma alusão irônica a um filme clássico do Western Spaghetti do italiano Sérgio Leone Era Uma Vez no Oeste (C’era uma volta il West, 1968).

Todo o filme é uma ode elegíaca para uma época que Tarantino conheceu unicamente através de filmes e livros.

A maior parte do filme foi concebida para ser um instantâneo da indústria do cinema no final dos anos 1960. O momento em que o chamado “Studio System” estrava em crise financeira e todo um modelo de negócio já não era mais rentável – a concentração da produção, distribuição e promoção em um único estúdio. Esse é um dado histórico.

Mas Era uma Vez em… Hollywood não é tanto sobre uma era, mas sobre os filmes que falam sobre aquela época – é uma narrativa fora da realidade, estilizada (ou hiper-real) capturando um tempo através do ponto de vista de filmes de celebridades e a cultura pop, muito mais do que dos historiadores.

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