Via Laurindo Lalo Leal Filho, jornalista
Deu no The Guardian (copiado da página do Carlos Silveira): Matéria do jornal inglês The Guardian sobre ‘uma família de traidores’!!!!!
Por Tom Phillips
A tentativa do presidente dos EUA de ajudar seu aliado de direita a evitar a prisão gerou uma onda de revolta e impulsionou o rival Lula.
Silvana Marques foi uma dos milhares de brasileiros que lotaram o museu de arte mais famoso de São Paulo em uma tarde da semana passada. Mas a professora de 51 anos não estava lá para se maravilhar com as paisagens londrinas enevoadas na nova retrospectiva de Monet do Masp. Ela tinha vindo para se juntar a um protesto que desprezou Donald Trump.
Sob a estrutura brutalista do museu, Marques avistou uma estátua de papelão do presidente dos EUA e tirou uma foto com o celular antes que o boneco de Trump fosse incendiado. “Laranjão safado”, escreveu ela abaixo da foto no Instagram. Perto dali, manifestantes içavam uma faixa vermelha: “Boa tentativa, Trump. Mas não temos medo.”
A manifestação foi uma resposta à decisão de Trump, na semana passada, de lançar uma guerra comercial politicamente motivada contra a maior economia da América do Sul, na tentativa de ajudar seu aliado de direita, o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, a evitar a prisão.
Bolsonaro pode pegar até 43 anos de prisão se for considerado culpado de planejar uma tentativa frustrada de golpe após perder a eleição presidencial de 2022. Ele deve ser condenado e sentenciado pela Suprema Corte nas próximas semanas.
Em 9 de julho, Trump escreveu ao presidente de esquerda do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, para exigir que as acusações contra Bolsonaro fossem retiradas e anunciar que imporia tarifas de 50% sobre as importações brasileiras até que isso acontecesse. “[Esta] é uma caça às bruxas que deve acabar IMEDIATAMENTE!”, bradou Trump, há muito tempo o mais importante apoiador internacional de Bolsonaro.
O presidente dos EUA aparentemente esperava que sua intervenção melhorasse as perspectivas para Bolsonaro, de 70 anos, que já está proibido de concorrer nas eleições do próximo ano. O filho senador de Bolsonaro, Flávio, instou o governo Lula a ceder imediatamente ao ultimato de Trump, oferecendo ao seu pai uma anistia contra a acusação.
Flávio Bolsonaro comparou a situação do Brasil à do Japão no final da Segunda Guerra Mundial, quando os bombardeiros B-29 dos EUA o subjugaram. “Cabe a nós mostrar a responsabilidade de evitar que duas bombas atômicas caiam sobre o Brasil”, disse Bolsonaro.
Mas uma semana após o anúncio de tarifas de Trump, a estratégia parece estar saindo pela culatra. A medida revigorou os rivais de esquerda de Bolsonaro, deu a Lula uma recuperação nas pesquisas e desencadeou uma onda de indignação pública, em grande parte focada no clã Bolsonaro, que passou anos se apresentando como nacionalistas defensores da bandeira.
“Jair Bolsonaro não dá a mínima para o Brasil. É um falso patriota”, esbravejou o jornal conservador O Estado de São Paulo na terça-feira, criticando duramente a aparente disposição do ex-presidente de entregar seu país aos lobos se isso significasse salvar a própria pele. O conselho editorial do jornal instruiu os conservadores a escolherem seu lado: “O do Brasil ou o de Bolsonaro. Os dois caminhos são diametralmente opostos.”
Eliane Cantanhêde, colunista do O Estado de São Paulo, viu três motivos por trás da “proposta indecente” de Trump. Ele esperava impulsionar companheiros de viagem de extrema direita na América do Sul; retaliar contra o envolvimento chinês na região após a recente cúpula do Brics no Rio; e fazer um favor pessoal ao filho de Bolsonaro, Eduardo, que passou os últimos meses fazendo lobby com autoridades em Washington após se exilar nos EUA.
Mas Cantanhêde acreditava que a atitude “megalomaníaca” de Trump tinha tido um efeito bumerangue, dando a Lula uma oportunidade de ouro para recuperar o apoio público em queda ao se passar por um defensor nacionalista dos produtores de café, laranjais, pecuaristas e fabricantes de aviões brasileiros diante da rendição antipatriótica e egoísta de Bolsonaro a Trump.
“Lula estava na corda bamba”, disse Cantanhêde, destacando a queda nos índices de aprovação do esquerdista e as crescentes dúvidas sobre sua capacidade de conquistar um quarto mandato no próximo ano. “Agora ele está só sorrisos.”
Ela disse que Pequim – o maior parceiro comercial do Brasil – também estaria comemorando, já que Washington está prejudicando ainda mais sua posição na região. “Trump está jogando o mundo inteiro no colo da China”, disse Cantanhêde.
Nicolás Saldías, analista de América Latina da Economist Intelligence Unit, concordou que a intercessão pró-Bolsonaro de Trump foi uma bênção para Lula, que passou a usar um boné azul com o slogan “O Brasil é dos brasileiros”.
Saldías, que é uruguaio-canadense, lembrou como as ameaças de Trump de anexar o Canadá prejudicaram sua recente eleição, ajudando o antes enfraquecido Partido Liberal de Mark Carney a se manter no poder. Ele suspeitava que a guerra comercial de Trump contra o Brasil teria um impacto semelhante de “união em torno da bandeira” para Lula – pelo menos no curto prazo.
“Para Lula, isso vai ser útil”, disse Saldías, observando como seus índices de aprovação já haviam subido e pareciam propensos a subir ainda mais. “Isso muda o jogo, porque agora ele será visto como o defensor do nacionalismo brasileiro, uma espécie de nacionalismo progressista.”
Depois de passar meses sonhando que Trump pudesse ajudar a salvar seu líder da prisão, os Bolsonaros parecem reconhecer que marcaram um gol contra. Uma fonte próxima à família do ex-presidente disse à Reuters: “A emoção de chamar a atenção de Trump logo se dissipou quando os Bolsonaros perceberam o peso esmagador das tarifas vinculadas à sua causa.”
Na terça-feira, Bolsonaro insistiu que se opunha às tarifas, que atribuiu à “provocação” de Lula aos EUA, e afirmou que poderia resolver pelo menos parte do problema se tivesse “a liberdade de conversar com Trump”.
Silvana Marques, a professora que protestava, foi inflexível de que as autoridades brasileiras não deveriam ceder às exigências “malucas” de Trump e deixar Bolsonaro impune. “Não podemos permitir que isso aconteça”, disse ela, lembrando as consequências terríveis de não processar os líderes militares por trás da ditadura brasileira de 1964-85.
Como muitos brasileiros, Marques não via com bons olhos como – na sua opinião – os Bolsonaros haviam encorajado Trump a travar uma guerra econômica contra seu próprio país. “Eles são uma família de traidores”, disse ela. “E os americanos devem estar pensando: será que vamos mesmo ter que pagar 50% a mais pelas coisas que importamos do Brasil só para defender esse cavalo velho e desgastado?”







