Por Graça Lago, jornalista
Por força de um desses megaprojetos imobiliários de Eduardo Paes, a Praça Mário Lago (também chamada de Buraco do Lume) corre o risco de dar lugar a um espigão monumental no Centro do Rio, um espigão de 720 micros e minis apartamentos destinados a alugueis temporários. O projeto arquitetônico mostra um monstrengo, que é verdadeiro paredão fechando o espaço mais largo da praça (“imensos blocos de concreto, ocupando todos os espaços”).
Vão asfixiar o lugar. A praça é uma das raras áreas livres e arborizadas do Centro, uma espécie de pulmão em meio ao concreto. O lugar também é o palco popular de inúmeras manifestações políticas, culturais, carnavalescas; o seu amplo anfiteatro serve ao descanso e lazer de milhares de pessoas; centenas de trabalhadoras e trabalhadores ganham o sustento ali, na feira que circunda a praça.
Mas Paes quer transformar esse belo espaço público em espaço privado. Não dá pra aceitar.
Nesta segunda, dia 27, às 14 horas, a bancada do PSOL fará um ato em frente ao prédio do Ministério Público, na Avenida Marechal Câmara, 370, para formalizar a representação contra o projeto do espigão do Paes. Estarei lá.
Mas aproveito o espaço para….
EM DEFESA DA HISTÓRIA E DA MÉMORIA
Uma coisa que me entristece profundamente é ver companheiros e companheiras da esquerda chamando a Praça Mário Lago de Buraco do Lume.
A única homenagem oficial do Rio de Janeiro a meu pai veio pela militância cultural e afetiva do mandato do Eliomar Coelho, que deu o nome de Praça Mário Lago à área chamada informalmente de Buraco do Lume. Lugar escolhido a dedo, perfeito, por integrar Política, Carnaval, Arte e espaço livre, em um sentido amplo; a cara de papai. E, se não bastasse, é uma área remanescente do desmonte do Morro do Castelo, que o nosso “velho” acompanhou, em 1922, menino levado pelo avô (meu bisa), o anarquista e flautista Giuseppe Croccia. Encaixava como luva.
Na batalha pelo nome – esquerda x direita -, vivemos momentos gloriosos de “guerrilha urbana”, boa luta política, em defesa do nome, da memória. Fizemos a placa, tomamos a praça, inauguramos na marra; César Maia mandou retirar a placa; colocamos nova placa, que Maia mandou novamente retirar. O imbroglio só foi resolvido em 2009, com a eleição de Paes, que reconheceu a Praça Mário Lago e mandou instalar a placa oficial, mas não fez inauguração oficial. O mandato do Eliomar fez, claro.
Agora, o mesmo Paes quer apagar o lume da Praça Mário Lago; somos radicalmente contra. Mas a luta em defesa do espaço não pode apagar o nome do meu pai, um carioca da gema, nascido e criado na Lapa, e que lutou muito pela cidade e pelo país.
LUME É NOME DE EMPREITEIRA, SABIAM?
A palavra lume tem inúmeros significados, quase todos relacionados à luz, mas, no caso do lugar, o buraco é muito mais embaixo.
Em 1963, durante as obras de construção do Edifício Lúcio Costa, sede do Banco do Estado da Guanabara (BEG), o terreno serviu de canteiro de obras. Inaugurado o prédio, foi incorporado ao patrimônio do BEG e durante anos era o estacionamento dos funcionários do banco.
Até que, em fevereiro de 1973, o BEG leiloou o terreno, em concorrência vencida pelo Grupo Lume (de Lynaldo Uchoa de Medeiros), ao preço de 111 milhões de cruzeiros. O projeto era construir ali a sede do grupo – um prédio de 50 andares, que seria o maior do Brasil. Associou-se ao Banco Halles, em troca de 40% da propriedade do espigão. Começavam as seguidas tentativas de exploração imobiliária do imenso terreno.
As fundações do prédio do Lume foram parcialmente construídas, mas a obra parou em abril de 1974, em uma tenebrosa transação, muito comum na ditadura; o Grupo Lume figurou em diversos escândalos financeiros e políticos. O povo logo apelidou o canteiro de obras abandonado de “Buraco do Lume”.
A ideia do prédio morreu, naquele momento, mas continuou na cabeça dos muitos dilapidadores da cidade. O Lume ficou como uma espécie de memorial à especulação imobiliária.
Por isso, também, insisto: NÃO É BURACO DO LUME, É PRAÇA MÁRIO LAGO, PORRA!







