E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, lembra aqui de um tio bem peculiar, o seu tio Costinha.
“Faz algum tempo que estou agoniado porque quero escrever sobre ele e não consigo. As palavras me fogem, não porque seja difícil falar dele. Eu durante muito tempo com ele convivi férias sim, férias não. Chegamos até a trocar cartas. Ele, meu tio.
É algo estranho, repito. É como se ele, por modéstia, quisesse permanecer em condição de anonimato justamente agora no momento em que eu me decidira escrever sobre sua triste figura. Ele que foi invisível para tantos, que tantas vezes foi ignorado, decidira se vingar se fechando ainda mais em copas, presumo, não se abrindo nem mesmo para mim, que sou seu parente, no fim das contas.
Ele fechava a porta da casa a mil voltas na chave, fechava todas as janelas a trinco. Ele falava pouco para fora. Ele colocava o indicador entre os lábios como que para indicar que os vizinhos talvez estivessem auscultando as conversas. Ele era um homem esquisito, foi o que descobri. Mas ele tinha uma letra bonita, de outros tempos. E eu sempre me perguntava se todo mundo aprendia a escrever assim bonito na escola.
É certo que o amor não lhe sorriu. Ele ficou só, depois de ter cuidado de todo mundo. Quer dizer, só não ficou: ele arrumou alguém bem distante de ser a moça que lhe sorria na foto do casamento de Nenê, sua irmã. Se eu fosse ele, seria doído vê-la assim tão linda, tão próxima, e saber que o noivado se romperia em breve, que o que era doce se acabara. Mas o fato é que somos diferentes. Eu o entendo. Entendo?
Ele era bom fotógrafo. Um dos melhores que eu conheci. A máquina que ele usava ele mesmo mandou vir de São Paulo. Ele gastou um dinheiro empurrado, curso por correspondência, mas não precisava: seu talento era natural. E sua imitação do comediante Costinha lhe valeu o apelido que pegou entre nós: tio Costinha.
Era triste vê-lo maltrapilho a beber todo santo dia vinho de garrafão dos mais baratos, aqueles que mancham os lábios de tanto corante. Porque ele se tornara sovina. Ela o tornara sovina? Porque, por ela, ele moveu mundos e fundos, pagou estudo, e no final o súbito rompimento sem mais esclarecimentos. Isso em cidade pequena dá o que falar.
E ele não queria ouvir nenhuma sugestão nem desencadeamentos dos motivos. Ele não queria ouvir nem mais nem menos. Que pena, nem que fora melhor assim. Eu bem que te disse que ela não era para o seu bico, a lambisgóia. Cada palavra o feriria como um caco de vidro na sola do pé, como uma farpa por dentro da unha.
Ela se mudou pra outras bandas. Recife. Ele seguiu a vida. Do trabalho pra casa. De casa pro trabalho. Cuidou da mãe e dos irmãos, até que eles se foram, um a um. E ele ficou só, absolutamente só, mas sem a calma da solidão.
Como se sabe, os solitários acabam adquirindo manias que aos olhos dos outros soam como exemplos da psicopatologia da vida cotidiana. Pobre homem! Preferia o vinho do garrafão, a garapa, ao “disse-não-disse-você-não-sabia-não?” com que também se passa pela vida.
A casa começou a feder muito. Cheiro de flor morta, de farinha de ossos, de esqueletos debaixo do piso de vermelhão. Ele começou a acumular. Manias de velho. Lixo orgânico vira adubo natural, faz bem às plantas, o quintal é grande, se plantando tudo dá. Vai dar milho.
Os ratos cresceram. Parte do telhado caiu em decorrência de uma forte chuva de verão. Ele quase caiu do telhado, pra quê pagar alguém se eu mesmo faço? O que o velho foi fazer lá em cima? E o gato engordava. O olho do dono é que engorda o gato.
Morreu dormindo na cama vazia de colchão de palha. A única herdeira era uma criança. Venderam por mixaria a casa, a menina tem direito, um pouco de bem-bom não faz mal a ninguém. E as fotos? Onde estão as fotos? Que fotos?
É assim que eu me lembro do meu tio Costinha.”
Sobre o autor
Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.
Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.







