UM POEMA DE CARTOLA
Cartola nasceu a 11 de outubro de 1908 e faleceu a 30 de novembro de 1980, aos 72 anos. Se não tivesse nos deixado há quatro décadas, este ano estaria completando 112 anos. Hoje, algumas pessoas até alcançam essa idade.
Como biógrafa do mestre, gostaria de oferecer aos amigos uma criação inédita, dessas que ele guardava, mas mostrava só para os mais chegados. Um poema que não foi feito para virar samba. Ser só poema.
Revela o que ele sentia, mas não revelava, pois, apesar de ser um grande artista – e ter consciência do próprio valor – só ter gravado o primeiro disco solo com mais de 60 anos.
Os segredos de Angenor de Oliveira!!! São tantos, que há coisas novas para se dar de presente a seu público ainda por muitos e muitos anos. Coisas sérias, que Cartola não era chegado a risadas nem gostava de sambar.
Este poema me foi entregue pelo próprio para ser publicado no meu livro “Fala, Mangueira!”, escrito quando ele ainda estava vivo. E tendo Carlos Cachaça e Arthur de Oliveira como parceiros. (Livraria José Olympio Editora, 1980)
OBSCURIDADE
Passei pelo mundo sem ser percebido
Ouvindo a tudo e a nada dando ouvido
Segui pelo caminho que tinha à minha frente
Não encontrei a estrada desejada em minha mente
Nada fiz que aos outros tivesse interessado
Tudo que fiz foi por dever ou acovardado
Por nada tive paixão
Mas nada fiz por ódio
Se a ausência de sentimentos
Não significa maldade
Simplificando a história
Vivi na obscuridade