Um presente poético, livro de Lorca

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E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero” nos conta de dois presentes que recebeu: livros de Garcia Lorca e Fernando Pessoa. Do Pessoa, nada disse (está devendo), mas fala de Garcia Lorca. Vamos ao texto:

Beija-Flor, 26 de janeiro de 2026.





Foi minha comadre Laurenice quem me deu dois livrinhos que muito me emocionaram: uma seleta de poemas de Fernando Pessoa e uma de Garcia Lorca. A capa verde-claro, a linha branca separando o nome do autor do título da obra. E lá em cima perto do logo do pinguim a numeração correspondente da obra. Enfim, tudo é delicado, eu quero morrer de delicadeza: desde a lembrança, passando pela capa, até o conteúdo do livro, afinal de contas, de dois poetas ibéricos.


Fui ao de Garcia Lorca com a sede dos peixes. Passou pela minha cabeça o poema de Allan Ginsberg em que ele põe o poeta americano Walt Whitman dentro de um supermercado. Poema estranho onírico, reflexivo. Como seria a vida de um poeta em uma sociedade voltada para o consumo? E lá estava Lorca fazendo uma pontinha no poema: ele estava mexendo nas melancias: “Verde, que te quero verde!”


No livrinho que Laurê me deu Lorca falava dos ciganos. Da música. Do mistério em volta do fogo. E de outras coisitas. Faz calor, Lorca, que calor. Morreste, tua obra ficou.


Li o sumário. Vi que tinha um poema que falava do violão. E o traduzi. Mal, mas o traduzi. “Mal” quer dizer mais meu do que fiel. Ou eu fazia ou passava do ponto.


De certo modo, pode-se dizer que Lorca traduziu em conceitos (arranjo de palavras?) o que o violão faz em sons. E, na mesma toada, pode-se pensar que os acordes, harmonias e tais, são reminiscências de outras vozes, são como lampejos de outra história.


“Eu beijo na boca de hoje/ As lágrimas de outra mulher”, diz Aldir Blanc, em uma canção que presta contas com o passado: “Cinquenta anos”. Porra, eu tenho 54!


O bom oleiro deixa marcas de dedos em suas obras, assim diz Walter Benjamin em “O narrador”. O (vi)oleiro, também. Marcas das unhas.

Vamos ao poema!

SEIS CORDAS

Lágrimas em sonhos
Traduz o violão
O pranto de almas perdidas
Escoa de sua boca

E tal qual tarântula
Se tece uma estrela
Que prende murmúrios
Em sua caixa de pinho escuro

Nota do editor: Federico García Lorca (1898-1936) foi poeta e dramaturgo espanhol, membro da chamada Geração de 27, autor de livros como o Romancero gitano (1928), Poeta em Nueva York (1940) e Llanto por Ignacio Sánchez Mejía (1935). Morreu fuzilado, em 1936, durante a Guerra Civil Espanhola, por ser homossexual (extraído do Portal Vermelho)

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