Um tour até Inhaúma

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E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, nos leva passear numa crônica de sonho para Inhaúma, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, cujo nome é advindo de um pássaro. Portanto, voemos nas asas do sonho do nosso amigo cronista.

Com o calor senegalesco de fritar as plantas nas latas de tinta, o subúrbio ferve. Ou melhor, minha cabeça no subúrbio e isto é que são elas. A minha pressão caiu? Cadê o sal, só tem sol? Dá uma Brahma pro menino, que ele melhora. Me passa a ventarola. Tira a boina dele. Quem é que usa boina hoje em dia? Esse comprido deve ser português ou espanhol. O quê? Da Beija-Flor?





Fui me recuperando aos poucos. Acho que desmaiei. Aquela multidão em volta de mim que nem jogo de porrinha, de ronda, de porrada na escola. Ninguém se mete, disse Exu, ou pelo foi o que eu entendi. Mas não era briga nem rinha nem nada. Apenas o calor.


Naqueles momentos um tanto fora do tempo de tão oníricos, acabei dando um passeio pelo subúrbio. Fui visitar uma namorada em Inhaúma. Peguei o 638 (Marechal Hermes-Saens Pena), desci na altura da Estação do Méier. Subi as escadas, passei pelo Jardim do Méier. Exalava um cheirinho de flor misturado com bodum e com o caramba o quatro. De um lado, o hospital público, o Salgado Filho onde os gêmeos da tia Raimunda nasceram. Mais à frente, o lindo quartel do corpo dos bombeiros. Quase na encruzilhada, o ponto do 687 (Méier-Pavuna).


Embarco. Vou distraído até chegar lá pelas bandas do NorteShopping. É que ali por perto tem um templo de Oxóssi que é coisa fina. É todo verde-esmeralda, um negócio bonito demais, um dia eu entro lá.


Era noite ou dia? Não sei, era sonho, delírio. Quando eu subo o viaduto de Pilares, eu sinto o cheirinho de limpeza que é a marca do local. Cheirinho de limpeza de casa de cadeiras na calçada. Sempre imaginei que o cheirinho vinha da quadra da escola de samba da Caprichosos de Pilares, famosa por seus enredos irreverentes. No meu coração, além de todos os enredos, a Caprichosos era um aroma de limpeza, espiritual inclusive. Não dá para explicar. Claro que dá, só que eu não quero explicar. Eu não tenho essa demanda.


Depois o CCIP com seu baile. A galera entrava no ônibus. Eu, o único branco, ou menos preto, o de fora, o outsider, o que não ia para o baile. Eu não tinha o que esconder. Sempre evitei relógio, não era época de celular. Era eu e Deus, e a tensão subia. Nunca fui roubado.


Eu ficava pensando no meu amigo Robinson, um cara que serviu comigo que morava lá no morro do Urubu. O Robinho tinha namorada já no quartel. Eles faziam um casal bonito, tinham algo neles que parecia ser para sempre. Eu achava que um dia Robinson e eu iríamos nos topar no ônibus para eu conhecer o baile.


Depois o cemitério de Inhaúma. Mas antes tinha o conjunto da Coréia, de onde saía uma galera para ir para o baile. Mas lá no cemitério, é aquele respeito que tenho pelos mortos. Os muros brancos. Cemitério tem sempre muro branco, mulher de branco, tutti bianco. O pessoal dizia que se roubava muito carro por ali, mas eu não tinha que me preocupar com isso, porque afinal de contas, eu não tinha carro.


Uma quebrada para cá, e se ia ao Complexo do Alemão pela Itaóca. Mas o meu caminho era outro. Meu destino era a rua Moréia, onde havia uma fábrica da Pepsi que foi desativada. As garrafinhas passando na esteira da linha de produção eu peguei.

Que salto do meu sonho! Que solavanco! Não é que eu me lembrei que da casa dela se via parte de uma comunidade cortada por um rio? E que certo dia um rapaz de cabelos compridos entrou no rio para salvar um menino que se afogava? Não é possível se lembrar disso! Eu devo estar me afogando. O salva-vidas tinha cabelos compridos e saiu do salvamento com um andar que denotava orgulho e simplicidade, como se fosse o seu dever ter salvo uma pessoa.


Eu nunca mais passei por ali. A vida me levou para outros destinos. A rosa dos ventos danou-se. A cidade, erigida por Eduardo Paes, também se transformou bastante, beirando o irreconhecível. Dizem que a Zona Oeste está mais irreconhecível ainda.


Tudo isso me faz me sentir um pouco velho, dando-me vontade de pedir uma cerveja na garrafa âmbar no boteco de algum seu Manuel. Sabe como é, quem toma um susto assim como eu tomei merece uma cervejinha para descontrair, abrir os caminhos e os trabalhos. Dizem que lá pra Maria das Graças tem um bar com sombra de uma Amendoeira, amém.
Com quanta Brahma e quanta bruma se faz Inhaúma?


Enfim, eu talvez tenha que pedir auxílio aos mais novos para fazer as pequenas estripulias rodoviárias que fiz enquanto minha vida se bandeava para aqueles lados. Mas talvez se me soltarem por lá eu saiba me mover (a pé) de olhos fechados: sei que são os cabelos molhados dela, pelo xampu; e cada parte do seu corpo eu reconheço, se me for dado palmilhá-lo; sei, pelo silêncio branco, que ali é o cemitério; sei, pelo cheiro de limpeza, que é o viaduto de Pilares; esse canto é de Oxóssi, meu pai o cantava; pelos motores do ônibus, sei que estou na altura do NorteShopping; sei que estou no Jardim do Méier, pelo cheiro de flor e de merda.


Agora é esperar o 638 de volta para o Engenho Novo.

Sobre o autor

Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.

Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019),  Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.

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