Toda criança é um artista. O problema é o como manter-se artista depois de crescido (Pablo Picasso)
E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, envia uma carta para a criança que um dia ele foi ou continua sendo.
De Cezinha para o Cicerão:
“Pintassilgo, 10 de outubro de 2025.
Cicerão, escrevo-te com pressa, meu chapa, que é para não perder as brincadeiras da semana das Crianças. Isso que é vida: futebol de sabão, que até gente que não gosta de tomar banho gosta de futebol de sabão, Pula-Pula, Totó (Pebolim) valendo roletrar. Teve adulto que trouxe até corda para a gente. E elástico. Você ainda pula corda? Claro que não, só vive me dizendo que está com a corda no pescoço…
Porque eu ouço as suas lamúrias, meu camarada. A gente sabe que um adulto é uma criança que em geral tem o poder de mandar em outras crianças. É isso. Não conheço definição melhor. Pulemos a corda, pulemos esse papo, vamos seguir nas brincadeiras. Hoje você é café-com-leite e está no meu time.
Serviram cachorro quente com guaraná no lanche. Não sei, não, o pessoal gosta de guaraná e tal, mas eu sou uma criança nostálgica. Eu queria mesmo era Ki-Suco, o avô do Tang. Se Tang é artificial, imagine o Ki-Suco, que gosto de infância!
O Ki-suco equivale àquelas garrafinhas de plástico com suco artificial congelado dentro, o concorrente do sacolé. A gente rasgava com os dentes a bundinha da garrafinha e ia sorvendo o precioso líquido-com gosto-de-anilina até ficar somente gelo. Isso é melhor do que comer cocada depois de ter ido ao dentista fazer obturação. A gente não sabe se foi o bloco que caiu ou se é um pedaço de coco que não foi ralado.
Mas para ficar nostálgico mesmo, para mostrar que a minha memória involuntária é excelente, me ocorreu agora uma lembrança daquelas: a máquina de descascar laranjas em frente ao portão principal da Quinta da Boa Vista. A casca saía inteirinha! A base do copo era de plástico e o copo era de papel, mais ou menos como é o filtro de café do café nosso do dia a dia. Quer dizer, naquele tempo éramos mais recicláveis do que hoje. Afinal de contas, a gente usa copinho descartável de plástico.
Cicerão, eu vou dizer uma coisa: eu comprava aquela máquina de tirar casca de laranja para minha casa. Comprava uma máquina pinball do “Sure Shot” ou do “Cavaleiro Negro”. X Box é o escambau. Se sobrasse algum, eu levava um joguinho “Donkey Kong”. E tá bom, o troco do troco era de bala Juquinha, bala Banda ou de Tamarindo, aquela de embalagem de papel.
Essas lembranças estão me deixando com caraca no pescoço e no sovaco. A gente foi do tempo de brincar na rua também. Futebol no meio da rua. Se um carro viesse, o jogo era interrompido. Alguém dizia: “Parou”. E a gente ficava congelado que nem quando a conexão de internet está ruim.
Depois o jogo continuava. E continuava. E o sino dava as badaladas das 18h, os pombos saiam em revoada e a gente já se preparava para ouvir os chamamentos das mães. E quem não escovasse bem atrás da orelha levava um puxão de orelha bem dado para tomar tento.
Inspeção de mãe é pior do que a do quartel. Depois de um banho como esse, a toalha ficava imunda porque a gente não esfregava bem as canelas. Sebo nas canelas era pouco. Quando a gente esfregava as canelas, saía aquele caldo grosso de sujeira; e a gente, maravilhado, se esquecia do sovaco e do pescoço. Cotovelo? E alguém passa sabão no cotovelo?
Eu me lembrei agora, meu Deus. Teve uma vez que fomos a um Festival de sorvete lá pras bandas de Jacarepaguá. Isso faz tempo pra burro. Olha o balão sorvete! Cadê? Derreteu. Que coisa boba, meu Deus. E aquelas rimas fáceis que os meninos diziam uns aos outros? Da onde se tirou isso? Rimas horríveis, esboços de repentes, de disputas verbais sem fim.
Uma loucura. As as proto-batalhas de rap vinham lado a lado com musiquinhas como essa:
Chora, bananeira
Bananeira, chora
Chora, Bananeira
Meu amor não vá se embora
Fui ao cemitério
Visitar a catacumba
A danada da caveira
Beliscou a minha bunda
Cicerão, é por essas e por outras que quando você vê criança brincar você fica em um estado de ânimo que não é nem alegre nem triste, mas de poeta pateta? As lágrimas sentidas vêm, não é meu, amigo? O menino dormia abraçado a uma bola Dente-de-Leite, que também tinha que ser bem lavada no banheiro.
Não chore, não. Nós dois sabemos que o passado não é sempre tão bom assim, a vida real não é exatamente uma propaganda de margarina, não é mesmo?
Já que você não tem mais o abraço do pai, já que o colo da mãe também está indo embora sendo apagado pelo tempo, pelo menos você tem as suas crianças, que são meio como carrinho de controle remoto que vão começando a ter vida própria.
Eita, tirei onda com essa última comparação! Pareço até roteirista do “Toy Story”.
Fico por aqui. Chegou minha vez no carrinho Bate-Bate. Fui.
Se cuida, Cezinha
Sobre o autor
Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.
Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.







