“À maneira de um animal político ferido e tocaiado, a Democracia Corinthiana reunira forças para contra-atacar os seus inimigos de dentro e de fora das quatro linhas”.
Por Hugo Souza, compartilhado de seu Blog
Em 1984, o Corinthians da Democracia Corinthiana estava em maus lençóis nas quartas de final do Campeonato Brasileiro, com Sócrates lesionado e precisando reverter uma derrota de 2 a 0 no Maracanã para o principal favorito ao título, o Flamengo. O jogo de volta, no Morumbi, estava marcado para 6 de maio, apenas 10 dias após a rejeição da emenda Dante de Oliveira pelo Congresso Nacional.
No livro Democracia Corinthiana: práticas de liberdade no futebol brasileiro, José Paulo Florenzano conta que, naquela época, “cada partida se transformara em um plebiscito a favor ou contra o movimento democrático no Corinthians, envolvendo dirigentes, conselheiros, torcidas organizadas, torcedores comuns, atletas e jornalistas. Aliás, jamais o jornalismo esportivo estivera tão polarizado entre duas posições opostas e inconciliáveis como nesse momento. Não havia meio-termo”.
No mesmo chaveamento, o Fluminense empatara em 2 a 2 com o Coritiba no Couto Pereira. No Rio, toda a imprensa esportiva já dava como certo um Fla-Flu na semifinal. João Saldanha dizia: “Se toda vez que Flamengo e Corinthians jogarem me derem um gol de vantagem, eu ficaria rico”.
“Todavia — conta Florenzano —, enquanto o tricolor carioca confirmava o prognóstico, arrasando a equipe paranaense com uma implacável goleada de 5 a 0, o rubro-negro, que viajara a São Paulo apenas para ratificar o seu favoritismo, trazia de volta um verdadeiro e inesperado Fla-casso, segundo neologismo forjado nas gerais e arquibancadas do Morumbi. Com efeito, empurrado por mais de cem mil torcedores, e com Sócrates redivivo e completando a partida de número 300 com as cores preta e branca, o time revivera naquela tarde de domingo, 6 de maio, toda a mística da garra alvinegra, aliada à magia de um toque de bola envolvente e irresistível. À maneira de um animal político ferido e tocaiado, a Democracia Corinthiana reunira forças para contra-atacar os seus inimigos de dentro e de fora das quatro linhas, como se atendesse não apenas ao instinto de sobrevivência, mas, principalmente, ao imperativo ético veiculado pelo placar eletrônico do Morumbi antes do início da partida, enunciado de forma assim concisa: ‘Corinthians, já’. Essa mensagem provocativa e ao mesmo tempo alusiva ao movimento que empolgara a nação captava o sentimento difuso entre os torcedores, jornalistas e militantes políticos que haviam vivido profundamente as campanhas da Democracia Corinthiana e das Diretas-Já, que sabiam o quanto elas estavam interligadas e até que ponto a derrota desta última prenunciava a daquela. Por isso, cada gol do alvinegro naquela tarde de domingo respondia a uma urgência, reparava uma injustiça e enfiava goela abaixo dos inimigos de ambas as lutas as ameaças brandidas ao longo a semana.”
“Através do 4 a 1, construído com os gols de Biro-Biro, Wladimir, Édson e Ataliba, o Corinthians não só adiava para outra ocasião o Fla-Flu como lograva romper o cerco montado pelos arautos do autoritarismo na imprensa esportiva. Decifrando o significado político de que se revestira o jogo, o cronista da campanha pelas eleições diretas e torcedor do São Paulo, jornalista Ricardo Kotscho [futuro secretário de imprensa da Presidência da República, de Lula], sem receio de ser acusado de apóstata, inseria na cobertura feita para a Folha de S.Paulo a confissão de quem se identificava com o ideário que movia o alvinegro paulista: “Dá até vontade de mudar de time”.
No início da noite desta quinta-feira, 22, o Datafolha acusou empate, 50% a 50%, entre Lula e o inimigo, o inimigo do Brasil. Como disse a Carol Barreto nesta quinta, no Facebook, “vamos ganhar esta eleição. Na ponta da chuteira, mas vamos”.







