Zé Antônio, ator e poeta, e outras pessoas

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E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, vem aqui pagar uma dívida. Como ele ganhou dois livros, um de autoria de Fernando Pessoa e outro de Federico García Lorca, e só havia feito um texto sobre o segundo, foi cobrado por este editor (Senhor W) em praça pública. Desaforado (termo muito utilizado pelo meu pai (Senhor L), respondeu ao enviar a crônica abaixo: “Escrevi o texto sobre o livrinho do Fernando Pessoa. Já não devo mais nada. Só ao banco mesmo”. Então, vamos ao Pessoa.

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.Com todo o direito a sê-lo, ouviram? (Trecho do poema “Lisbon Revisited” – 1923 – de Fernando Pessoa)




Fernando Pessoa, o poeta e seus heterônimos: começo a repensá-lo tocando numa questão pessoal. Quando meu primeiro casamento chegou ao fim, foi-se, na hora da partilha, a edição de “O eu profundo e os outros eus”. Inundei o bairro da Praça Seca com as minhas lágrimas, fui piegas. Todas as separações o são, da mesma forma que todas as cartas de amor são ridículas. E mais ridículo ainda é que não escreveu uma carta, cartinha, cartela, cartilha de amor.


“Devolva o Neruda que você me tomou / E nunca leu”, versos de Chico Buarque numa canção de separação que os percebi mais pungentes naquela ocasião. A dor da vida concreta. Outras coisas também se foram no caminhão de mudança, mas as que marcaram por incrível que pareça: a geladeira e o livrinho do Pessoa. Tratei de comprar os dois de novo prontamente. Senão a vida me seria literalmente um vazio.


Como se sabe, Fernando Pessoa é um autor do qual muita gente gosta. Talvez ele seja um daqueles poetas que mais tenham contribuído para a formação de leitores de poesia, que não precisam ser somente oriundos das letras, isto é, professores de língua portuguesa e suas respectivas literaturas.

Conheci um grupo de pessoas que lia o poeta português como se ele fosse um mestre do ocultismo ou coisa que o valha. Engraçado, engraçado, quase uma sociedade secreta à maneira de fãs de Harry Potter. Quando um dos membros do grupo se casou, ouviram-se versos de Pessoa em meio ao discurso em homenagem aos noivos. Eu achei a menção ao poeta curiosíssima.


Lembranças, lambanças. Entretanto, nada do que foi dito até agora se compara à performance que testemunhei do ator Zé Antônio, dono de uma casa na Praia da Brisa (que nome poético!), amigo do senhor M. Vamos à história?


Senhor M, em suas aulas de filosofia, convidou o senhor ZA para fazer uma apresentação para alunos do ensino médio, provavelmente do terceiro ano. No dia da apresentação, o senhor ZA foi com sua maleta de viagem até o centro do palco improvisado. Enquanto ele lia de cabeça o longo poema “O guardador de rebanhos” ia se transmutando e pintando o rosto. Resumidamente, o ator foi do poeta português a Charles Chaplin.

Eu confesso não ter entendido a suposta semelhança entre um e outro, acho que perdi o fio da meada em meio a tantas referências e heterônimos, mas gostei do que vi. Bravo, bravo!


Ao fim da apresentação, abriu-se espaço para as perguntas. A que eu fiz não agradou muito ao entrevistado, infelizmente. Eu lhe perguntei como ele fazia para decorar um poema longo todo, pois sempre achei algo de extraordinário essa capacidade de lembrar. Ele secamente me disse que era algo como ossos do ofício, frustrando-me um pouco, pois eu imaginava que ele fosse me ensinar o caminho das pedras.


Da última vez que vi o senhor ZA ele tinha aparecido do nada na casa do senhor M em Bangu. Ele era uma festa, uma alegria, uma usina. Ele levou um livrinho dele. Coisas simples, bonita, que foi lida ali no calor (de Bangu!!!!) da hora. Há registros desse encontro, mas cadê que sabemos onde estão as fotos?


Aparentemente, naquele dia, do jeito que ele veio ele desapareceu sem deixar heterônimos. Ninguém o viu ir embora. Talvez estivéssemos bêbados demais.
Foi com tristeza que recebi do senhor M a notícia de que Antônio tinha partido em viagem para o Oriente do Oriente do Oriente. Queria ter ido ao porto, para acenar-lhe com meu lenço branco a despedida.


Havia outro poeta, o Luiz Fernando, vulgo Gabão, que costumava recitar Fernando Pessoa em rodas de poesia na Lapa, na Ilha do Fundão, alhures. Fera da memória, um pouco louco como alguns bons poetas são. Nunca mais eu o vi, há ventos que inflam as velas para sempre.


Seus poemas autorais também eram bons, mas deles Gabão não se gabava. Ele era um membro temporão da geração mimeógrafo perdida. E quando leu meus poemas observou que alguns deles fugiam da cadência correta.


Por derradeiro, me lembro que durante muito tempo caminhei com as traduções de Fernando Pessoa de diversos poemas em língua inglesa. O inglês era um idioma que Pessoa conhecia muito, acho que ele até morou na África do Sul quando miúdo, salvo engano.


Tudo isso me veio à recordação porque meu editor percebeu que, no texto desta semana, eu mencionei dois livros que ganhei de presente, e só falei de um.
Explico-me: ganhei de minha comadre dois livrinhos da Penguin books em inglês. Um de Lorca, outro, de Fernando Pessoa. Fiquei tão entusiasmado com um dos poemas de Lorca que li que fiz uma versão dele para o português.


Não sei se me retratei. Talvez eu também seja apenas um heterônimo, entre tantos. Ufa! Só sei que agora me falta pintar o bigode à Chaplin, ou à Pessoa. Então era isso? Os dois tinham bigodes?

Sobre o autor

Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.

Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019),  Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.

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