Por Celso Sabadin, compartilhado de seu Blog
A primeira coisa que eu quis saber quando vi que fizeram uma cinebiografia de Chopin foi: o filme é polonês? Sim, porque depois da roubada de ver um “Napoleão” falado em inglês e interpretado por um estadunidense, eu ando fugindo dessas cinebiografias caça-níqueis de mercado. Um mínimo de seriedade raiz é fundamental. A boa notícia é que “Chopin, Uma Sonata em Paris”, é uma coprodução entre Polônia, França e Espanha, ou seja, totalmente coerente com a trajetória do biografado. E o ator principal, Eryk Kulm, é polonês. Ufa! Então, vamos ao filme.
Dentro do padrão clássico do gênero, “Chopin, uma Sonata em Paris” segue uma linha cronológica que se inicia já na capital francesa, para onde o compositor se mudou, aos 20 anos de idade. O roteiro opta por não retratar sua infância e adolescência, e reserva aos seus pais uma única breve – e interessante – sequência para contextualizá-los na vida do filho Frédéric. Ênfase maior é dada à sua amizade com Franz Listz (vivido pelo francês Victor Meutelet) e à sua conturbada relação com a escritora George Sand (Joséphine de La Baume).
Porém, o grande tema do filme me parece ser, de fato, a morte. Ou a proximidade dela. Logo cedo (tanto em sua vida como no tempo do filme), temos a informação que Chopin sofre de uma tuberculose incurável para a época. A partir daí o protagonista embarca numa jornada em busca de um improvável equilíbrio entre os momentos de fama, glórias e festas vivenciados até o momento e a inevitabilidade da finitude próxima. Ter ou não ter filhos? Deixar ou não um legado? Compor mais e melhor ou entregar-se ao que resta da vida? Não serão poucos nem rasos os questionamentos que o acompanharão até o final.
Em temos formais, “Chopin, uma Sonata em Paris” busca se descolar do século no qual a ação se desenrola (o 19) lançando mão de amplas movimentações de steady cam e trilha musical contemporânea, tentando assim, digamos, “atualizar” sua narrativa. Acabou dando certo, pois resulta num longa ao mesmo tempo ágil e também fiel ao tempo histórico do protagonista, na medida em que se apoia numa nunca menos que exuberante reconstituição de época e em uma fotografia totalmente deslumbrante. Com direito a belíssimas locações na França, Polônia e Espanha.
A aproximação da erudição da obra do biografado com a esperada popularização de linguagem exigida pela indústria do audiovisual passa pela formação dos criadores do longa. Dos 15 trabalhos até o momento já dirigidos por Michal Kwiecinski, 10 foram feitos para a televisão, e de todos os roteiros de Bartosz Janiszewski, “Chopin, Uma Sonata em Paris” é a sua estreia na tela grande.
Um notável acerto do filme foi a escolha de Eryk Kulm para o papel principal, vivendo um Chopin carismático que estabelece uma conexão imediata com a plateia, fornecendo assim a necessária empatia para o desenvolvimento da trama. Um Chopin alegre e intenso (inspirado no Mozart de Milos Forman, talvez?) cuja personalidade pode não ser historicamente acurada, mas que dramaturgicamente prefere o bom e velho “publique-se a lenda”. Em dados momentos, Kulm me lembrou Fábio Porchat.
“Chopin, Uma Sonata em Paris” foi indicado a oito troféus “Orly” (palavra polonesa para “águia”) no Polskie Nagrody Filmowe, o principal prêmio cinematográfico do país, tendo vencido quatro: som, vestuário, desenho de produção e maquiagem.
A estreia em cinemas do Brasil é nesta quinta, 28 de maio.







