2026, Ano de Copa e Eleições

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E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, entra em campo para falar da Copa, da qual a Seleção do Brasil saiu pela linha de fundo. Craque em todas as posições das letras, César fala do livro a ser lançado, entre outros assuntos deste bate-bola.


Beija-Flor, 14 de julho de 2026.





Para tio Habib, in memoriam


Prezados leitores:
Andei sumido por essas bandas. É que eu estava fechado, como disse Eduardo Galeano, por motivo de futebol. Copa do Mundo me deixa um tanto louco, talvez nem tanto quando o poeta Aldir Blanc, que dizia ficar, com a chegada da Copa, entusiasmado de andar pelado pela casa a inventar versões para os hinos das seleções. Bem, não tão louco assim eu fico. Mas que fico meio aluado, mais que de costume, é público e notório.


Assisti ao jogo na casa do meu sogro (que não está mais entre nós) ao lado do tio Habib (meu tio emprestado, tio da minha mulher).

Em uma infeliz coincidência, tio Habib se foi na madrugada de segunda ao fatídico match. Nada a ver com o decepcionante desempenho da seleção brasileira, por certo, tendo mais a ver com o pífio desempenho do seu coração. Mais um, meu Deus. Ou melhor, menos um. Uma coquinha em nome da nossa amizade. Os anos-novos hão de ficar pesados.


Praticamente finalizei um livro meu que fala da relação entre o futebol e a infância. Quer dizer, terminar não terminaria nunca, mas é preciso dar um ponto final, ouvir o apito final, reconhecer que acabou, rematar os males. Eis o sentido do jogo.
O livro sairá em breve, se Deus quiser. Conto com a torcida de vocês.


Não sei se devido ao clima de Copa ou devido ao livro que eu mesmo me obriguei a escrever (por vezes, a gente se mete em cada canoa furada…), tomei a decisão de reler o livro “Veneno Remédio: o Brasil e o futebol”, de José Miguel Wisnik.

Foi o início da barafunda: Wisnik me levou a artigos de Nuno Ramos, a crônicas de Nelson Rodrigues, a romance “O drible”, de Sergio Rodrigues, a leituras futuras de Mario Filho e de Anatol Rosenfeld, entre outros autores.


Pode parecer folclore, mas é assim mesmo que eu funciono, com uma coisa puxando outra, assobiando pra dentro, deixando a comida queimar, saindo com duas meias diferentes, esquecendo o carro no shopping e voltando pra casa de ônibus, levando o prontuário inteiro do médico com quem me consultei etc. etc. Fico distraído por fora, mas iluminado por dentro.


Mas desta Copa hei de me lembrar de Haaland: três vezes perto do gol. Duas finalizações. Dois gols. E do goleiro norueguês que pegou até pensamento. Haja Emulsão Scott.


Eu não sei se vocês viram o vídeo do Neymar menino conversando com o Neymar veterano. É uma tremenda sacanagem. Será que vai dar para o Neymar jogar a Copa de 2030? Se ele estiver em condições, não sei, não. Mas o acento não é ele ter condições ou não de jogar, é a qualidade do vídeo, que me pegou de um jeito cruel: me pegou pela infância do menino que ama o futebol que fui e que é despertado tal qual pequeno gigante adormecido em Copas do Mundo. Mas talvez para nós se resuma ao que não foi.


Hoje de manhã me lembrei do poema do Drummond “Foi-se a Copa”. Dele fiz uma paródia com a qual hei de brindá-los. Esperem e verão.


2026 tem sido um ano cheio, mas um tanto previsível. Em se tratando de Copa, os quatro times semi-finalistas estão entre os quatro, cinco melhores mesmo. Na hora H, a coisa fica mesmo estreita: só chegam sul-americanos ou europeus.

Muito embora, a bem da verdade, as seleções européias estão ““africanizadas”” – o que é de fazer pensar, pois a origem remota dos jogadores é lembrada de maneira hostil por torcedores que não aceitam os fatos em caso de derrota.


Os técnicos semi-finalistas continuam a ser, salvo engano, brancos. Não consigo torcer pela França. Acho que é por causa do técnico deles, que me faz lembrar garçom mal-humorado. Ou por puro despeito mesmo, por perceber que eles têm jogado mais do que a minha seleção.


Quanto à presidência da República, quero Lula Lá outra vez – é o que quero dizer com um ano cheio mas previsível. Tenho horror aos pré-candidatos da direita: Flavil, Caído do Cavalo, Sassá Muzema, o que amansa burro bravo e come banana com casca. Respeito-os enquanto candidatos porque, como diz o ditado, gato escaldado tem medo de água fria.

Como eleição não se vence apenas argumentos e alianças, mas numa trama obscura que envolve isso tudo mais o uso da tecnologia, da mídia e de outros recursos um tanto sujos, não convém usar salto alto nem na Copa nem na política. Nada de clima de já ganhou. Temos que dominar a bola, colocá-la no chão, fazer a bola rodar, até a vitória.


Por derradeiro, recomendo o livro “Quando é dia de futebol”, do cracaço Carlos Drummond de Andrade. Que bonito é este livro, meu Deus.
Vamos ao poema prometido:


DECLARAÇÃO DE VOTO
Paródia de “Foi-se a Copa”, poema de Carlos Drummond de Andrade

Foi-se a Copa? Não faz mal.
Esta aqui foi a das bets
E da pá de cal cai outra igual
Que tudo agora se repete.

Faltou Neymar o craque?
A todo escrete, seu revés
E a defesa e o ataque
O que fez e o que não fez?

Enquanto se discute o que
Poderia ter sido diferente,
Já adentram o corredor
As eleições, minha gente.

(No mais, é Lula presidente!)

Sobre o autor

Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.

Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.

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