Estudo revela que 31% dos pais começam a expor os filhos na internet já nos primeiros seis meses de vida
Por Victor Terra, compartilhado da Agência Lupa
Adultização é a prática de aceleração forçada do desenvolvimento na infância, fazendo com que as crianças adotem comportamentos ou responsabilidades que não correspondem à idade delas, e, sim, a uma idade mais avançada. O termo veio à tona depois da divulgação de um vídeo-denúncia produzido pelo youtuber Felca. Com mais de 45 milhões de visualizações, o conteúdo impulsionou a discussão do tema nas redes, chegou ao Congresso Nacional e resultou na prisão do influenciador Hytalo Santos, envolvido no esquema de abuso e exploração de menores, exposto por Felca.
Em uma cultura marcada pela visibilidade como moeda de valor, as redes sociais estimulam as crianças, desde seus primeiros anos de vida, a terem objetivos, desejos e expectativas sob as quais elas ainda não têm discernimento e para os quais elas sequer estão prontas.
Na prática, a criança ao receber curtidas, visualizações e comentários é inserida num mecanismo de recompensa. A dopamina, substância que regula processos ligados à motivação, humor e prazer – é liberada. O efeito é querer sempre mais, formando um ciclo que se torna altamente viciante, sobretudo quando falamos de crianças, cujas estruturas cerebrais ainda estão em processo de formação.
Pequenas crianças, grandes negócios
O problema é que muitos pais e educadores nem sequer conseguem reconhecer que tudo isso está acontecendo – muitas vezes a poucos cliques dos seus olhos. Uma pesquisa, publicada em 2024 pela Universidade de Roma, na Itália, mostra que muitos pais fazem postagens sobre seus filhos com “pouco conhecimento dos riscos associados a essa prática”.
O estudo mostra que 98% dos pais entrevistados tinham redes sociais, 75% publicavam conteúdos sobre os filhos e 31% começaram a compartilhar detalhes sobre a criança durante os seis primeiros meses de vida dela.
Mas pode piorar. O problema se agrava nos casos em que familiares começam a ganhar dinheiro – ou monetizar, na linguagem da internet – sobre os conteúdos das crianças, o que – vale dizer – caracteriza crime. Expor as crianças se torna parte de um negócio, cujo sucesso se baseia nos números de engajamento e visibilidade das imagens e vídeos.
Por tudo isso, tão importante quanto entender a gravidade do fenômeno – que não é novo, mas tem se tornado cada vez mais comum na internet – é saber como agir diante dele. Pensando nisso, a Lupa preparou uma lista com 8 práticas ligadas à adultização que você deve evitar e, assim, manter seu filho ou qualquer outra criança mais segura e menos exposta na internet.
Confira 8 práticas de adultização:
1. Dancinhas
Crianças dançando e sendo filmadas não são exatamente uma novidade, o que não significa que estava tudo bem antes. A questão é que, na era da internet, isso ganhou escala e complexidade.

Vamos pensar: ao mandar um vídeo desse tipo para um parente ou postar em suas redes, você não tem controle sobre o destino desse conteúdo. É aí que mora o perigo: uma dança pode passar de um gesto lúdico para algo que erotiza o corpo da criança, a expondo a comentários abusivos e inadequados, em ambientes digitais de pedofilia – ainda que você não esteja vendo.
Gestos desse tipo podem trazer problemas para a criança também a longo prazo. Isso porque trata-se de uma exposição não consentida e que, no futuro, pode ser retomado como um registro traumático para a criança, que se envergonha e se culpa por estar na cena.
2. ‘Empreendedores mirins’
É cada vez mais comum ver crianças se apresentando em podcasts, canais e perfis como ‘empreendedores’. Dizem fazer investimentos e defendem a ideia de que a escola ‘não serve para nada’. Como são crianças, ainda não têm discernimento sobre certas questões. E é justamente neste ponto que percebemos traços de adultização, ou seja, menores performando atitudes de adultos.

Cortes e vídeos deste tipo podem gerar distorções sobre o que é ser criança, reduzindo o valor e o interesse delas pelo ato de brincar e, na direção oposta, estimulando práticas de alta performance, que se não fazem bem nem para adultos, imagine para crianças…
3. Estímulo a palavrões
O estímulo ao uso de palavrões por crianças é mais um sinal de adultização. A chamada “Trend do Palavrão”, viralizou no início de 2024, ao mostrar pequenos repetindo xingamentos diante das câmeras, muitas vezes incentivados por adultos em tom de brincadeira.
Esse tipo de conteúdo não apenas banaliza a agressividade verbal, como também ensina que a grosseria pode ser divertida, reforçando comportamentos inapropriados e expondo crianças a dinâmicas deslocadas de sua fase de desenvolvimento.

4. Crianças com roupas de banho
Conteúdos que destacam crianças em trajes de banho devem ser evitados ao máximo. Com a maioria do corpo exposta, aumentam também as chances do conteúdo circular em grupos e canais de conteúdo de exploração e abuso sexual – que, não custa repetir, são considerados criminosos, mas existem! Ao publicar imagens deste tipo, o usuário – seja ele o pai, responsável ou a própria criança – aumenta a vulnerabilidade da pessoa em cena e as chances de sua imagem se tornar sexualizada e, portanto, exposta a usos indevidos.
5. Uso de roupas e acessórios adultos
Na mesma linha de raciocínio, o que acontece aqui é um efeito de distorção de imagem. Como assim? Ao vestir a criança com roupas e acessórios típicos de adultos (salto alto, bolsas, maquiagem, unhas pintadas) ou a estimulando a imitar gestos e papéis adultos, estamos dificultando sua compreensão sobre a diferença entre o que significa ser criança e o que significa ser adulto. Com os limites borrados, fica mais difícil para ela identificar e responder a si mesma: “afinal, quem sou eu?” – uma das questões centrais no processo de formação da personalidade.
6. Maquiagem e skincare
É preciso desnaturalizar o incentivo ao uso de maquiagem, cosméticos e rotinas de beleza por parte de crianças e adolescentes. Este tipo de conteúdo reforça padrões estéticos adultos, gera inseguranças corporais e estimula práticas de consumo, intervenção estética e hábitos de saúde inapropriados para crianças.

7. Uso de filtros que mudam o rosto
Os filtros digitais são acessíveis nas plataformas de redes sociais e em apps de edição de imagem. Eles afinam traços, aumentam lábios, aproximando a aparência infantil de padrões adultos. O efeito disso é a distorção que a criança e que os demais fazem de sua própria figura. Como ainda está em fase de formação de sua personalidade, os efeitos são ainda mais graves, resultando em uma autoestima fragilizada e ao estímulo pela busca precoce por validações estéticas inalcançáveis, que geram frustração.
8. Criança em festas e ambientes de adultos
É grave naturalizar a presença de crianças em ambientes noturnos, como baladas e bares, já que ações ligadas a esses espaços não condizem com a infância: consumo de álcool e drogas, apelo sexual e riscos à saúde e segurança. Além disso, a quebra da rotina diurna fragiliza o desenvolvimento, confundindo a percepção da criança sobre limites e contextos apropriados. Quando, além de levar, o adulto expõe a criança nas redes em cenas deste tipo, está contribuindo para reforçar sua adultização e comprometendo seu direito de viver uma infância saudável.







