Por Antônio Oswaldo (Tuninho), advogado
Chico Buarque e A Banda fazem aniversários. Parabéns! Há exatos 60 ano, A Banda passava pela primeira vez. Vamos analisar aqui os versos do Chico, que completa 82 anos neste 19 de junho.
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A BANDA, do Chico, completa exatos 60 anos nesse ano de 2026. É uma marchinha que, de tão simples, parece existir séculos antes de aquele jovem tímido surgir e interpretá-la num festival. A melodia, de rara beleza, é daquelas que podemos cantarolar ou assobiar desde a primeira ou segunda audição. Mas não nos iludamos, é difícil ser simples!
Era 1966. Um jovem de 22 anos adentrava timidamente o palco do antigo Teatro Record e cantava aquela canção impossível, que arrebatou o Brasil e o mundo.Hoje, homenageamos o Chico e a canção analisando-lhe os versos sob a ótica da Versificação, ramo do estudo da Língua Portuguesa.
A Banda apresenta versos simples na leitura. Mas como são ricos e complexos na concepção!Desde adolescente, Chico já ouvia apaixonadamente os nossos grandes compositores populares e trazia a centelha do compositor nos olhos azuis.
Em A BANDA, ele impressiona a turma da Bossa Nova impressionando até mesmo Carlos Drummond de Andrade que, poucos dias depois da vitória no festival, dedica uma crônica inteira ao fenômeno.
A tecitura dos versos de A BANDA é particularmente complexa. E toda a complexidade na confecção gera, paradoxalmente, uma simplicidade, uma leveza na leitura, na audição. Trabalhoso para o artista, simples e prazeroso para o ouvinte.
O refrão introduz a canção através de heptassilábicos rígidos (versos de sete sílabas ou redondilha maior) escandidos nas duas primeiras estrofes. Reparem:
Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
Contemos as sílabas poéticas de um verso, cuja contagem será a mesma para os demais:1-Es/2-ta/3-vaà/4-to/5-a/6-na/7-vi/daReparem que a sílaba 3 é formada pela fusão de “va” com “à”, ou seja como você pronuncia. Leia em voz alta e confira. Notem, ainda, que a sétima e última sílaba é “vi” e não “da”, porque a sílaba poética guia-se pelo som e não pela grafia.
A grafia nos dá as sílabas gramaticais. Cantarole e sentirá que o verso sofre vigoroso desfecho em “vi”, deixando a sílaba “da” enfraquecida. Na poesia rígida a rima se dá, portanto, na sílaba tônica da última palavra de cada verso de um poema ou canção.Mais um detalhe belíssimo nos oito versos do refrão.
Chico alcança um musicalidade poética – não confundir com a melodia, que é uma belíssima marchinha – e aí fazemos de conta que os versos são de um poema e não de uma canção.
Em que pese os segundo e quarto versos rimarem em ambas as estrofes, reparem que os primeiros e terceiros versos não rimam (não são, rigorosamente, rimas alternadas ABAB). Nem rimam os primeiros e os segundos versos (não são, rigorosamente, rimas parelhas, AABB) nas duas estrofes. Nem são, rigorosamente, rimas interpoladas (ABBA).
Mas olhem que bela mágica:
Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
Reparem que as rimas ocorrem assim: verso 1 da primeira estrofe rima com verso 1 da segunda estrofe, verso 2 da primeira estrofe rima com verso 2 da segunda estrofe, verso 3 da primeira estrofe repete-se no verso 3 da segunda estrofe, verso 4 da primeira estrofe rima com verso 4 da segunda estrofe.
Agora ‘declamem’ os oito versos sem cantar, sem a melodia. Sentiram que suavidade, que primor? Rimas que acontecem – e nós sentimos essas rimas – com um grande intervalo de três versos entre elas. Alguns chegam a falar que, em casos semelhantes, haveria rimas ‘interpoladas ampliadas’ (ABBBA).
E só mais um outro detalhe belíssimo e encerro, porque eu vejo que o leitor e a leitora foram generosos comigo e com enorme paciência chegaram até aqui.
O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas
Parou para ver, ouvir e dar passagem
Notem que três personagens da marchinha, o homem sério, o faroleiro e a namorada “contam” algo. O verbo, flexionado no pretérito imperfeito – ‘contava’ – repetido três vezes seguidas, sempre na oitava sílaba dos três versos, é também uma proeza poética porque o verbo apresenta acepções diferentes: o homem sério ‘contava’ dinheiro, é um contar de quantidades aritméticas; o faroleiro ‘contava’ vantagem, é um contar sinônimo de narrar, relatar; finalmente, a namorada ‘contava’ estrelas, é um contar onírico, ela não contava uma a uma as estrelas, ela sonhava acordada. Genial, não?
Assim é A BANDA, simples na audição ou leitura, complexa na feitura. Chico eternamente!
Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas
Parou para ver, ouvir e dar passagem
A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela
A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A Lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar cantando coisas de amor
Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou
E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor
Imagem do post: A Banda, pintura de Helena Coelho







