Por que São Paulo deixou de produzir um projeto cultural para o Brasil?

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Como a financeirização da economia e o abandono do desenvolvimento rebaixaram a maior potência cultural do país em um centro de consumo cultural e financeiro

Por Alexandre Machado Rosa, compartilhado de Brasil 247




Foto: Vista do centro de São Paulo Crédito: REUTERS/Amanda PerobelliNewsletter

Outrora, os grandes jornais de São Paulo davam destaque à cultura, criando os chamados cadernos de cultura. Correio PaulistanoO Estado de S. PauloDiário PopularA GazetaFolha da NoiteFolha da ManhãFolha da TardeDiário de S. Paulo e Última Hora adotaram esse modelo. Não se sabe ao certo em que anos esses cadernos foram introduzidos nos diários, mas é a partir da década de 1920 que encontramos tais suplementos.

Mas a pergunta é: por que jornais diários se preocuparam com a cultura? Vale lembrar que Júlio de Mesquita Filho, dono do jornal O Estado de S. Paulo, foi um dos principais idealizadores da criação da Universidade de São Paulo (USP), em 1934. O projeto nasceu da preocupação das frações das classes dominantes de São Paulo com a formação de uma nova elite dirigente para o Estado após a derrota na Revolução de 1932, unindo o jornalismo do Estadão à articulação política de Armando de Salles Oliveira, então interventor federal em São Paulo. Portanto, havia, de forma explícita, uma preocupação com a cultura como projeto de futuro.

Assim, a pergunta que grita, e que raramente aparece no debate público, é: como São Paulo, que durante grande parte do século XX liderou a produção científica, artística e intelectual brasileira, perdeu a capacidade de formular um projeto cultural para o país?

A resposta não está apenas no espaço circunscrito, de forma restrita, à cultura. Está, sobretudo, na economia política e nos rumos que São Paulo tomou nas últimas décadas sob a racionalidade neoliberal, que levou o sistema cultural à financeirização, enquadrando a produção cultural às regras, aos interesses e à lógica do mercado financeiro e dos grandes capitais.

No primeiro artigo desta série, procurei demonstrar que São Paulo construiu sua liderança econômica graças à existência de um Estado empreendedor, capaz de planejar, financiar e induzir o desenvolvimento. É a partir da década de 1990 que esse modelo foi gradualmente substituído por um Estado regulador, orientado pelas privatizações, concessões e terceirizações. A desindustrialização, a precarização do trabalho e a financeirização da economia foram algumas das consequências desse processo.

Mas nenhuma sociedade transforma profundamente sua economia sem transformar também sua cultura. Celso Furtado compreendeu isso como poucos intelectuais brasileiros. Em Criatividade e Dependência na Civilização Industrial, argumentou que o desenvolvimento não pode ser medido apenas pelo crescimento da renda ou pela expansão do mercado. Desenvolver-se significa ampliar a capacidade criadora de uma sociedade. Produzir conhecimento, ciência, arte, tecnologia, instituições e formas próprias de interpretar o mundo são reflexos do desenvolvimento efetivo. A cultura não é um adorno do desenvolvimento; ela é uma de suas condições fundamentais, pois reflete o desenvolvimento humano.

Foi exatamente essa compreensão que ajudou a construir a São Paulo do século XX. Não por acaso, o estado concentrou algumas das mais importantes instituições culturais e científicas do país. A Semana de Arte Moderna de 1922 redefiniu os rumos da cultura brasileira. A criação da Universidade de São Paulo, em 1934, representou um marco na institucionalização da pesquisa científica. Vieram depois a Bienal Internacional de São Paulo, o Museu de Arte de São Paulo (MASP), o Museu de Arte Moderna (MAM), a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, o Teatro Brasileiro de Comédia, além do fortalecimento do Instituto Butantan, do IPT e de inúmeras editoras, jornais e centros de pesquisa.

Seria um erro interpretar esse movimento como resultado exclusivo do altruísmo das elites paulistas. Como demonstrou Florestan Fernandes, em A Revolução Burguesa no Brasil, São Paulo consolidou-se como o principal centro da burguesia nacional. Sua modernização, entretanto, foi conservadora. Promoveu industrialização, urbanização e expansão institucional sem romper com as estruturas de desigualdade que marcaram a formação social brasileira, cristalizando o racismo e as desigualdades sociais como marcas estruturantes do capitalismo brasileiro.

Ainda assim, aquela burguesia industrial compreendia que seu próprio projeto de poder dependia da construção de instituições públicas permanentes e fortes. Universidades, museus, teatros, centros de pesquisa e equipamentos culturais eram vistos como parte de um projeto de modernização. Havia uma visão de longo prazo, ainda que profundamente limitada por interesses imediatos de classe e pela exclusão de amplos setores das classes trabalhadoras.

É justamente nesse ponto que as reflexões de Clóvis Moura auxiliam na ampliação de nossa compreensão. A modernização brasileira jamais incorporou plenamente as classes trabalhadoras, formadas em sua maioria por negros, mestiços e populações indígenas, permitindo-lhes pleno acesso aos bens culturais e científicos. A exclusão não foi um acidente; foi constitutiva da formação do capitalismo nacional. A cultura produzida em São Paulo refletia, muitas vezes, essa desigualdade estrutural, restringindo o protagonismo das classes populares e da população negra em particular.

Reconhecer esse limite histórico, porém, não impede constatar uma mudança decisiva nas últimas décadas. A antiga elite industrial, com todas as suas contradições, foi gradualmente substituída por uma elite cuja lógica de acumulação passou a ser cada vez mais financeirizada: o chamado capital improdutivo. O horizonte de planejamento encurtou-se. O investimento em instituições permanentes perdeu espaço para a valorização de ativos, para a rentabilidade de curto prazo e para a lógica dos mercados financeiros.

Essa transformação alterou também a relação entre economia e cultura. Se antes a produção cultural integrava um projeto mais amplo de afirmação econômica e científica, hoje ela tende a ser compreendida prioritariamente como segmento de mercado, produto de consumo ou estratégia de posicionamento de marcas. A pergunta deixa de ser “que instituições precisamos construir para as próximas gerações?” e passa a ser “qual é o retorno imediato desse investimento?”.

Essa mudança de perspectiva ajuda a explicar por que São Paulo continua concentrando grande parte da infraestrutura cultural brasileira e, ao mesmo tempo, parece cada vez menos capaz de liderar um projeto cultural para o país. A existência de museus, universidades ou grandes eventos não basta para caracterizar uma política cultural. É preciso haver um horizonte coletivo, uma ideia de desenvolvimento capaz de articular ciência, educação, arte e cidadania como projetos de nação.

Antonio Candido lembrava que o acesso à cultura constitui uma necessidade humana fundamental, tão importante quanto outras dimensões da vida social. Quando a cultura é reduzida à lógica do consumo, enfraquece-se sua capacidade de formar sujeitos críticos, produzir pertencimento e ampliar o horizonte democrático.

Não por acaso, as universidades públicas paulistas convivem há anos com restrições orçamentárias, disputas permanentes por financiamento e crescente pressão para adaptar sua produção às demandas imediatas do mercado. O mesmo ocorre com instituições culturais, editoras, espaços públicos e políticas de incentivo à criação artística. Não se trata apenas de uma questão fiscal. Trata-se da ausência de um projeto de desenvolvimento que reconheça ciência e cultura como investimentos estratégicos.

A paisagem simbólica de São Paulo também mudou. Durante grande parte do século XX, o imaginário do desenvolvimento era representado pela fábrica, pela universidade, pelo laboratório, pelo teatro e pela biblioteca. Hoje, a imagem dominante é a dos centros financeiros, dos edifícios corporativos e da valorização dos ativos. Essa mudança não é apenas arquitetônica; ela revela uma transformação profunda nos valores que organizam a sociedade.

Economias produzem riqueza. Projetos de desenvolvimento produzem civilização.

Talvez essa seja a principal lição que a história recente de São Paulo oferece ao Brasil. Quando um Estado abandona o planejamento do desenvolvimento, não perde apenas capacidade industrial. Perde também a capacidade de imaginar o futuro, formar novas gerações de intelectuais, estimular a criatividade e produzir referências culturais capazes de dialogar com toda a sociedade.

A decadência cultural paulista, portanto, não começou nos museus, nas universidades ou nos teatros. Ela começou quando o desenvolvimento deixou de ser compreendido como um projeto de Estado e passou a ser reduzido à lógica da eficiência econômica, da gestão de ativos e da rentabilidade financeira. Recuperar a centralidade da cultura significa, antes de tudo, recuperar a ideia de que desenvolvimento é muito mais do que crescimento. É a construção permanente de uma sociedade capaz de produzir conhecimento, criatividade, democracia e esperança. E foi justamente o Estado o indutor desse projeto, que foi abandonado pelos atuais dirigentes de São Paulo. Somente um novo projeto de desenvolvimento econômico pode resgatar a cultura como patrimônio indutor do desenvolvimento humano.

Alexandre Machado Rosa

Alexandre Machado Rosa é professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e doutor em Saúde Coletiva.

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